

A retirada da Laguna - episdio da Guerra do Paraguai. So Paulo: Ediouro. (Prestgio)

TAUNAY, Alfredo D'Escragnolle Taunay, Visconde de.




































A RETIRADA DA LAGUNA
VISCONDE DE TAUNAY


Episdio da Guerra do Paraguai



CAPTULO I  - Formao de um corpo de exrcito destinado a atuar, pelo norte, sobre o Alto Paraguai. Distncias e dificuldades de organizao
CAPTULO II - Miranda. Partida da coluna. Marcha de Miranda a Nioac
CAPTULO III  - Nioac. O coronel Carlos de Morais Camiso. O guia Jos Francisco Lopes
CAPTULO IV - Marcha sobre a fronteira paraguaia. Conselho de guerra.
CAPTULO V - Reconhecimento. Rebate falso. Regresso de cativos escapos ao inimigo. O guia Lopes e o filho. Avante!
CAPTULO VI - Em marcha. Formatura da coluna.  vista da fronteira
CAPTULO VII - Passagem do Apa. Primeiro embate. Ocupao da Machorra
CAPTULO VIII - Ocupao de Bela Vista. Devastaes dos paraguaios em torno da coluna. Tentativa de negociaes. Seu malogro. Tornam-se os vveres escassos. Marcha
sobre Laguna.
CAPTULO IX - Ordem de marcha. Formatura do corpo expedicionrio. O mascate italiano. O major Jos Toms Gonalves. Surpresa e tomada de acampamento paraguaio da
Laguna
CAPTULO X - Retrocesso sobre o Apa-Mi. Escaramuas e combates com a cavalaria inimiga que envolve completamento a coluna
CAPTULO XI - Rebate falso. ltimas iluses. O tenente Batista. Passagem do Apa. Volta ao territrio brasileiro.
CAPTULO XII - Ataque vigoroso do inimigo. Ns o repelimos, mas, com o fragor de combate, nosso gado se dispersa. Cenas do campo de batalha. A preta Ana. O ferido
paraguaio. Vo os vveres faltar
CAPTULO XIII - Deliberao sobre o caminho a seguirmos. Primeiro incndio no campo
CAPTULO XIV - Continua a marcha. Temo o inimigo  frente. Novo sacrifcio de bagagens. Faltam os vveres. Incndios e temporais. Escaramuas incessantes
CAPTULO XV - Incerteza do rumo. Novo incndio e novo ataque dos paraguaios. Penria da coluna. Acertamos novamente com o caminho. Passagem do rio das Cruzes. Recomea
a marcha. Nova travessia do rio. Fome. As mulheres da coluna
CAPTULO XVI - Lampejo de esperana que se desvanece logo. A clera. Reaparece o inimigo. O incndio sempre. Recrudesce a clera. Um recurso: os palmitos. Terrvel
passagem de um pntano. O tenente Santos Sousa. Acampamento. Conseguimos acender fogo
CAPTULO XVII - Chegada s divisas das terras do guia Lopes. Passagem do Prata. O inimigo nos acompanha sempre, mas persegue-nos frouxamente. Devastaes da clera.
Perplexidade do coronel Camiso. Abandonamos os enfermos. A separao. Ao tenente-coronel Juvncio e ao coronel Camiso salteia a peste. Morte do filho de Lopes.
Prossegue a marcha. Chegada  fazenda de Lopes; morre este ali de clera. Seu tmulo.
CAPTULO XVIII - Chegada s margens do Miranda. Mantm-se o inimigo afastado para evitar o contgio da clera. O Miranda no d vau. Alguns homens o atravessam,
entretanto, a nado, trazendo a boa notcia da existncia de grande laranjal, coberto de pomos maduros. Os caadores recebem a ordem de tentar, em corpo, a passagem
e conseguem-no. Morte do tenente-coronel Juvncio. Morte do coronel Camiso. Susbtitui-o, no comando, o major Jos Toms Gonalves. Instala-se um vaivm sobre o
rio. Chegam abundantes as laranjas. Seu efeito benfico sobre os esfaimados e colricos.
CAPTULO XIX - Renasce a confiana. Restabelece-se a disciplina. Passagem do Miranda. Os canhes. Ainda o inimigo. Tomamos-lhe alguns bois que oferecem timo recurso.
Marcha forada. Vencemos sete lguas! Canind
CAPTULO XX - Marcha sobre Nioac, que apenas dista duas lguas. O inimigo rodeia continuamente a coluna. O mascate italiano Saraco
CAPTULO XXI - Nioc. Decepo; encontramos a vila saqueada, incendiada e quase destruda pelos paraguaios. Infernal ardil de guerra. Desaparece o inimigo, definitivamente.
Regresso pacfico do corpo de exrcito. Ordem do dia sobre esta campanha de trinta e cinco dias.

Prefcio da Dcima Terceira Edio

Em seis anos divulgaram-se cerca de seis mil exemplares da Retirada da Laguna da ltima edio impressa.
Mostra tal fato quanto os leitores brasileiros se interessam  pela histria pungentssima deste episdio da Guerra do Paraguai, que figura entre as mais belas e
notveis coisas da tradio de nosso pais.
Razo de sobra lhes assiste: no receia ele confronto com os mais elevados feitos dos anais militares das naes do Ocidente.

 que poucas tropas - com tamanha intrepidez e esprito de abnegao patritica - sofreram o que suportaram os nossos soldados da Constncia e do Valor.
        
A  esta edio anexei trs documentos honrosssimos para o autor da Retirada da Laguna e sua obra (ver pg. 12).  o primeiro a carta pela qual Caxias lhe agradece 
a oferta de um exemplar da Retirada, manifestando-lhe o seu louvor ao livro e o apreo em que tinha o seu autor.
        
Assim, mais uma vez e mais largamente se divulga uma das vozes mais antigas de aplauso que a narrativa xenofntica mereceu. De que prestgio se reveste este depoimento! 
Partiu do grande e invicto cabo-de-guerra, expressamente ao ofertante do livro quanto o seu relato vinha robustecer-lhe a convico, de que as foras empenhadas 
na campanha de Mato Grosso e na Retirada da Laguna, parte do exrcito de que era generalssimo, "cumprira sempre seu dever, sustentando sempre a gloria das Armas 
Brasileiras".
        
Assim de incio teve a pica narrativa da campanha de maio de 1867 a consagrao do aplauso do magno Pacificador, gnio tutelar da nossa unidade nacional, broquel 
do Brasil agredido exteriormente e nclito patrono do Exrcito Brasileiro.
        
O segundo dos documentos veio a ser a mensagem por Taunay merecida de seus irmos de armas, quando em 1885 e em virtude de circusntncias polticas incmodas, se 
no desagradveis de sua carreira de homem pblico e parlamentar, deixou o servio do Exrcito.
        
Mais honrosas palavras de despedida seria impossvel redigir do que as que encerraram esta manifestao subscrita por centenas de oficiais-generais, oficiais superiores 
e outros menos graduados, de toda a hierarquia militar da poca, partindo de um marechal de exrcito e ajudante-general do exrcito aos simples alferes e cadetes.
        
Constituem estes apelidos um rol do mais alto significado. Nele surgem muitos dos mais glorioso nomes de servidores do Brasil, j ento, aureolados pela reputao 
de seus feitos, e outros ainda no incio de suas grandes carreiras.
        
O ltimo dos trs documentos refere-se  manifestao que vrias centenas de oficiais-generais, superiores e outros pertencentes  guarnio do Rio de Janeiro, fizeram 
ao ento major Taunay em testemunho de gratido da classe  sua atuao de parlamentar, como membro que fora da Cmara dos Deputados em duas legislaturas.  sua 
iniciativa devia haverem-se incorporado  legislao do pas medidas de alta benemerncia como fossem: a imprescritibilidade dos direitos das vivas dos militares 
ao meio soldo, o reajustamento das tabelas de soldos e etapas, a contagem em dobro do tempo de servio em campanha, entre outras medidas de menor alcance.
        
Ofereceram-lhe os manifestantes, encabeados por um dos mais ilustres e prestigiosos oficias daquele tempo, o herico Antonio Tibrcio Ferreira Sousa, magnfico 
retrato a leo, de tamanho natural.
        
Em todo o Brasil provocou a passagem do primeiro centenrio natalcio do autor de Retirada da Laguna, a ocorrncia de considerveis demonstraes de apreo  memria 
do soldado escritor.
        
Partiram as primeiras do Exercito Nacional. Por intermedio de generosa ordem do dia, determinou o ento Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, que todas 
as guarnies do pais festivamente celebrassem a efemrides de 22 de fevereiro de 1943 em altamente significativas cerimonias. Em largos artigos recordou a Imprensa 
Brasileira o que fora a vida e era a obra do militar, do escritor, do parlamentar, do nacionalista apaixonado, do administrador. E vrios dos seus mais prestigiosos 
rgos a tal fim consagraram largas colunas e paginas de suas edies como sobretudo o fizeram o "Jornal do Comercio" e "O Estado de So Paulo".
        
Magnficas cerimonias votivas realizaram-se no Rio de Janeiro, por parte do Exercito, do Instituto Histrico Brasileiro, da Irmandade de Santa Cruz dos Militares, 
de numerosas e prestigiosas associaes militares, de numerosas e prestigiosas associaes militares, literrias e Histrico de So Paulo e seus congneres de diversos 
Estados, sobretudo no Paran, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, promovendo sesses especiais as mais honrosas.
        
Em todo o Brasil, de extremo a extremo, pode-se afirma-lo, a memria do autor da Retirada envolveu uma onda de simpatia e apreo que aos filhos do reverenciado trouxe 
a mais grata emoo de despertou-lhes a mais reconhecida saudade.
Assumindo a Presidncia da Republica, o Exmo. Sr. General Eurico Gaspar Dutra entendeu, ele e seu Ministro da Guerra, Exmo. Sr. General Canrobert Pereira da Costa, 
coroar as manifestaes de 1943 do modo mais dignificante.
        
Para patrono do Batalho-Escola de Engenharia escolheram o soldado historiador da Retirada da Laguna.
        
Assim, mais uma vez, quero, de publico, em nome prprio e no de meus irmos, e de quantos pelo sangue se prendem a Alfredo DEscrognolle Taunay, testemunhar aos 
dois eminentes oficiais-generais, autores de to alta homenagem, quanto ela nos sensibilizou e desvaneceu.
        
Mais nobre, mais eloqente frmula no se poderia encontrar para, em perene rememorao, perante a nao, recordar os servios de sangue e de paz prestados a Ptria 
Brasileira pelo historiador do inesquecvel feito daqueles guerreiros seus irmos de armas, de cujos sacrifcios foi comparte. Desses soldados da Constncia e do 
Valor, que, acabrunhados por inexcedveis privaes, perseguidos por inimigo cruel e incomparavelmente mais forte, cercados pelo incndio, dizimados pela clera 
e os combates, exinanidos de forcas mas nunca de animo, salvaram as bandeiras e os canhes que o Brasil lhes confiara...
        So Paulo, 25 de maio de 1952

                                Affonso de E. Taunay.



A
Sua Majestade o Senhor
Dom Pedro II
Imperador do Brasil


Senhor,

Ao se render Uruguaiana, inaugurou Vossa Majestade, na Amrica do Sul, a guerra humanitria, a que aos prisioneiros poupa e salva, trata feridos inimigos com os 
desvelos dispensados aos compatriotas, a que, considerando a efuso de sangue humano deplorvel contingncia, aos povos apenas impe os sacrifcios indispensveis 
ao slido estabelecimento da paz.
        
  principalmente sob este ponto de vista que ouso achar-me autorizado a colocar sob o augusto patrocnio imperial a desataviada narrativa da Retirada da Laguna, 
obra de constncia e da disciplina, em que os oficiais de Vossa Majestade, devendo defender, por entre obstculos os mais diversos, as bandeiras e os canhes a eles 
confiados, jamais cessaram, quanto lhes foi possvel, de conter o legitimo desforo de bizarros soldados, exasperados pelo furores do inimigo, e obstar  crueldade 
tradicional de auxiliares ndios, vingativos como soem ser.
        
 este reflexo de um grande ato de iniciativa soberana, a mais bela recordao que jamais poderemos entre camaradas invocar; cabe-nos a honra de  Vossa Majestade 
dedic-la.

        De Vossa Majestade Imperial
        Sdito e servidor, muito humilde e obediente,

Alfredo d`Escragnolle Taunay..










Prlogo

 o assunto deste volume a srie de provaes por que passou a expedio brasileira, em operaes ao sul de Mato Grosso, no recuo efetuado desde a Laguna, a trs 
e meia lguas do rio Apa, fronteira do Paraguai, ate o rio Aquidauana, em territrio brasileiro, trinta e nove lguas, ao todo, percorridas em trinta e cinco dias 
de dolorosa recordao.
        
Devo esta narrativa a todos os meus irmos de sofrimento, aos mortos ainda mais do que aos vivos.
        
Em todos as pocas largo interesse se ligou s retiradas, no s por constiturem operaes de guerra difceis e perigosas, como nenhuma outra, mas ainda porque 
os que as executam, j sem entusiasmo nem esperanas, freqentemente entregues ao desanimo, ao arrependimento de erros ou das conseqncias de erros, precisam arrancar 
ao esprito, assim preocupado, os meios de enfrentar a fortuna adversa, que a cada passo os ameaa, com todos os seus rigores. Em tais contingncias requer-se o 
verdadeiro cabo de guerra: ali h de se lhe revelar o caracterisco essencial: a inabalvel constncia.
        
Vive a Retirada dos Dez Mil em todas as memrias. Colocou Xenofante na plana dos primeiros capites. Nos tempos modernos vrios ocorreram no menos notveis: a de 
Altenheim, pelo marechal de Lorge, aps a morte de Turenne, seu tio, e que ao grande Cond fez declarar que lha invejava; a de Praga, enaltecedora da nomeada do 
conde de Belle Isle: a de Plaffenhofen, por Moreau, tida como um dos mais belos jeitos darmas, efetuados por Turenne; j em nossos dias: a de Talavera, que levou 
Lorde Wellington, triunfante, a Lisboa; a que honrou o funesto regresso de Moscou e em que o Prncipe Eugnio e o Marechal Ney rivalizaram, em herosmo; a de Constantina 
pelo Marechal Clausel e outras menos clebres; mas que, no entanto, pela variedade dos perigos e das misrias, chamam a ateno da histria.
        
Resta-nos solicitar a maior indulgncia para esta narrativa cujo nico mrito pretende ser o dos fatos expostos. Tiramo-los de um dirio escrito em campanha.
        
Assim nela ho de abundar as incorrees, demasias e repeties; cremos dever deix-las; so indcios da presena da verdade.

Alfredo D'Escragnolle Taunay.

Rio de Janeiro, outubro de 1868.




CAPTULO I

Formao de um corpo de exrcito destinado a atuar, pelo norte, sobre o alto Paraguai. Distncias e dificuldades de organizao.

Para dar uma idia, algum tanto exata, dos lugares onde, em 1867, ocorreram os acontecimentos cuja narrativa se vai ler, convm lembrar que, ao finalizar de 1864, 
havendo o Paraguai atacado e invadido, simultaneamente, o Imprio do Brasil e a Repblica Argentina, achava-se, decorridos dois anos, aps tal investida, reduzido 
a defender o prprio territrio, invadido do lado do sul, pelas foras conjuntas das duas potncias aliadas, a quem coadjuvava pequeno contingente de tropas da Repblica 
do Uruguai. Ao sul oferecia o caudaloso Paraguai mais vantagens  expugnao da fortaleza de Humait, que, pela posio especial, se convertera na chave estratgica 
do pas, assumindo, nesta porfia encarniada, a importncia de Sebastopol, na Campanha da Crimia.

Ao norte, do lado de Mato Grosso, eram as operaes infinitamente mais difceis, no  s porque ocorriam a milhares de quilmetros do litoral atlntico, onde se 
concentram todos os recursos do Brasil, como ainda por causa das inundaes do rio Paraguai, que cortando na parte superior do curso terras baixas e planas, transborda 
anualmente, a submergir ento regies extensssimas. Consistia o plano de ataque mais natural em subir as guas do Paraguai, do lado da Argentina, at o corao 
da repblica inimiga e, do Brasil, desc-las a partir de Cuiab, a capital mato-grossense que os paraguaios no haviam ocupado.

Teria impedido  guerra arrastar-se durante cinco anos consecutivos esta conjugao de esforos simultneos. Mas era-lhe a realizao extraordinariamente difcil, 
devido s enormes distncias a transpor. Basta lanar os olhos sobre um mapa da Amrica do Sul e examinar o interior do Brasil, em grande parte desabitado, para 
que qualquer observador de tal se convena logo.

No momento em que se enceta esta narrativa, estava, pois, a ateno geral das potncias aliadas quase exclusivamente voltada para o Sul, para as operaes de guerra, 
travadas em torno de Curupaiti e Humait. Quanto ao plano primitivo fora ele mais ou menos abandonado; quando muito ia servir de pretexto a que se infligissem as 
mais terrveis provaes a uma pequena coluna expedicionria, quase perdida nos imensos e desertos sertes brasileiros.

Em 1865 - ao arrebentar a guerra que Francisco Solano Lopes, o presidente do Paraguai, na Amrica do Sul suscitara sem maior motivo do que os ditames da ambio 
pessoal; quando muito a invocar o vo pretexto da manuteno do equilbrio internacional - o Brasil, obrigado a defender honra e direitos, disps-se, denodadamente, 
para a luta. A fim de reagir contra o inimigo, em todos os pontos onde podia enfrent-lo, o plano da invaso do Paraguai setentrional acudiu naturalmente a todos 
os espritos; preparou-se uma expedio para este fim.

No foi infelizmente este projeto de diverso realizado nas propores que sua importncia exigia; e, mais infelizmente ainda, os contingentes acessrios sobre os 
quais contvamos, para avolumar o corpo de exrcito expedicionrio, durante a longa jornada atravs de So Paulo e Minas Gerais, falharam em grande parte ou desapareceram 
devido a cruel epidemia de varola e as deseres que esta provocou. Marchou-se lentamente: provinha a demora de muitas causas, sobretudo da dificuldade do abastecimento 
de vveres.

Foi somente em julho (partira do Rio de Janeiro em abril) que a coluna pde organizar-se em Uberaba, chegando-lhe os quadros a atingir cerca de trs mil homens. 
Reforavam-na vrios batalhes que, de Ouro Preto, trouxera o coronel Jos Antnio da Fonseca Galvo.

No sendo esta fora ainda suficiente para uma ofensiva, seu comandante, Manuel Pedro Drago, encminhou-a para a capital de Mato Grosso, a fim de avolum-la. Assim 
se adiantou em direo ao noroeste, at as margens do Paranaba, quando ali recebeu peremptrias ordens do governo, levando-lhe instrues formais de marchar para 
o  distrito de Miranda, ento ocupado pelo inimigo.

Tal injuno, no ponto a que chegvamos, impunha como forado corolrio obrigar-nos a descer em direo ao rio Coxim e a contornar em seguida a serra de maracaju, 
por sua base ocidental, anualmente invadida pelas guas do Paraguai. Assim, pois, estava a expedio condenada a atravessar extensssma regio empestada pelas febres 
palustres.

A 20 de dezembro atingiu o Coxim, ainda sob o comando do coronel Galvo, recentemente investido da chefia e, pouco depois, graduado em brigadeiro.

Embora sem valor algum estratgico, tinha pelo menos o acampamento do Coxim uma altitude que lhe garantia a salubridade. No tardou, porm, que a enchente havendo-o 
ilhado e isolado, ali passasse a fora pelas mais cruis privaes, sofrendo at fome.

Aps longas hesitaes, foroso se tornou romper ao acaso, atravs do pestilento pantanal, onde a coluna foi desde o princpio provado pelas febres. Uma das primeiras 
vtimas veio a ser o prprio e infeliz chefe, falecido  margem do rio Negro. Afinal, arrastando-se penosamente, consguiu atingir a povoao de Miranda a 396 quilmetros 
para o sul. A uma epidemia climtica de novo gnero, a paralisia reflexa, ou beribri, acabrunhou-a, dizimando-a ainda mais. Dois anos quase haviam decorrido, desde 
a nossa partida do Rio de Janeiro. Lentamente descrevramos imenso circuito de dois mil cento e doze quilmetros. E j um tero de nossa gente perecera.

 
CAPTULO II

Miranda. Partida da coluna. Marcha de Miranda a Nioc.

Foi a 1 de janeiro de 1867 que o  coronel Carlos e Morais Camiso, nomeado pela presidncia de Mato Grosso, assumiu o comando dos desventurados soldados que, s 
mesmo profundo sentimento de disciplina, pudera at ento manter em forma.  Miranda quase inabitvel, rodeada como se acha, e numa extenso considervel, de depresses 
que a menor chuva, num instante, inunda, at mesmo na melhor estao, e que os raios solares, com a mesma rapidez, enxugam. Privada de boa gua, pois a do Miranda 
 sempre agitada e lodosa, a disposio do terreno no oferecia ali, alis, nenhuma das condies militares s quais, em rigor, poderiam ter sido sacrificadas as 
consideraes higinicas. E com efeito, ao longo de um caudal, acessvel a grandes embarcaes, estendem-se margens uniformemente baixas a que tiram toda a segurana 
estradas abertas.

Freqente e energicamente pronunciara-se a comisso de engenheiros contra maior demora neste foco de infeco; e j, por duas vezes, em relatrio, o assinalara o 
chefe da junta mdica como a causa de runa da expedio, pois de contnuo diminua o seu pessoal, quer pela morte, quer pela dispensa forada dos doentes. Continuava 
o beribri a fazer em nossas fileiras numerosas vtimas naquele lugar ainda sujeito  influncia dos grandes pantanais que a tropa acabara de atravessar, entre o 
Coxim e Miranda.

Estava Miranda em runas quando nossas foras ali entraram. Ao partirem haviam-na os paraguaios incendiado. Ardera parte das construes, mas eram evidentes os sinais 
de decadncia, anterior ao incndio que sucedera  primeira fase de desenvolvimento e prosperidade. Ainda se mantinham de p prdios cmodos e sobre o local de velha 
fortificao, outrora bem construdo quartel, ento muito deteriorado pelo fogo, fechava uma praa de onde saam duas ruas que iam acabar em frente  igreja paroquial, 
ambas ladeadas de casas erguidas a pequena distncia umas das outras.

Da matriz apenas subsistiam as paredes laterais, e arcabouo da torre, o galo de folha-de-flandes e uma cruz esculpida no alto do fronto. Fora edificada graas 
aos esforos de virtuoso missionrio italiano, Frei Mariano de Bagnaia, que no somente nela empregara o produto das esmolas, por ele prprio recolhidas em toda 
a vizinhana, com incomparvel trabalho e ardor, como ainda ali aplicara a modesta cngrua.

Os tristes destroos desta igreja, saqueada pelos paraguaios, que at os sinos lhe tomaram, havia algum tempo antes presenciado uma cena que nos parece merecer meno.

A 22 de fevereiro de 1865, deixando Frei Mariano as margens do Salobro, onde se refugiara, ao aproximar-se a invaso, viera, de moto prprio, entregar-se aos paraguaios, 
no intuito de lhes pedir compaixo para com a desventurada parquia. Ao chegar  vila, fora-lhe o primeiro cuidado correr  matriz, objeto da sua mais viva solicitude. 
Desolador espetculo o esperava: altares derribados, as imagens santas despojadas dos adornos, enfim todas as mostras da profanao. Ao presenci-lo, dele se apoderou 
tal sentimento de indignao e desespero, que no pde dominar-se. Imediatamente, e em tom retumbante,  frente do chefe paraguaio e seus comandados, pronunciou 
solene antema contra os autores de tais atentados. Ouviram-no todos cabisbaixos, como se esta voz severa fora a de algum daqueles Padres que outrora lhes haviam 
catequizado os antepassados, esforando-se o comandante em convencer o missionrio que os nicos culpados eram os Mbaias (ndios).

Lavado em lgrimas, corria o santo homem de altar em altar, como para verificar os ultrajes praticados contra cada um dos objetos de sua venerao. S aps minuciosa 
constatao de todas as indignidades cometidas se resignou a celebrar o santo sacrifcio da missa; e isto depois de tudo haver disposto para que a cerimnia se pudesse 
realizar.

De cento e treze dias, foi a permanncia da coluna em Miranda - de 17 de setembro de 1866 a 11 de janeiro seguinte. A 28 de dezembro retirou-se um dos comandantes 
enviados da capital de Mato Grosso, ele prprio atacado pela epidemia. A 31 do mesmo ms apresentava-se em Miranda o coronel Carlos de Morais Camiso; e no dia imediato, 
1 de janeiro de 1867, assumia o comando, como j o dissemos.
Enviou imediatamente a Nioc dois membros da comisso de engenheiros, Cato Roxo e Escragnolle Taunay, a fim de examinarem as estradas e o local e preparar ali acampamentos, 
tomando ao mesmo tempo algumas disposies relativas  recepo de enfermos e ao armazenamento das munies de guerra e da boca.

A 10 tornou pblica a ordem de marcha.

Nova organizao dera ao corpo de exrcito. Anteriormente dividia-se em duas brigadas, cada qual composta de trs corpos. Mas tanto uma como outra estavam to reduzidas, 
que as manobras, baseadas sobre um nmero certo de homens, se haviam tornado quase impraticveis. Pela fuso de todas em uma brigada de mil e seiscentas praas, 
ficou o estado-maior aligeirado, e no sem vantagens para o errio pblico, de pessoal suprfluo. Tal medida, desde muito reputada til, teve geral aprovao.

Moveu-se a fora a 11; e, pela primeira vez, as peas de artilharia montada, puxadas por bois, acompanharam a marcha da infantaria.

Saram os diferentes corpos da vila de Miranda completamente fardados, armados e providos de munies, libertos, pressentiam-no, das provaes a que se submeteram, 
desvanecidos daquele sentimento de disciplina que tudo os fizera suportar, embora exercitando-se, cada vez mais, no manejo das armas. O que estes homens pediam era 
um clima salubre que os revigorasse e os pusesse em condies de agir. E este iam encontr-lo em Nioac, a 210 quilmetros a sudesde de Miranda.

Era a estrada larga e corria ao longo de magnficos bosques, onde predominavam os umbus balsmicos, espalhando ao longe o perfume das flores abertas, os piquis, 
carregados de frutos, e as inesgotveis mangabeiras.

So mui belos os acidentes do terreno; os ribeires e riachos, a correrem volumosos por toda a parte, ofereciam excelente gua. J no mais pousvamos os olhos sobre 
as tristonhas perspectivas dos pntanos. Pelo contrrio, nos comprazamos agora em contemplar verdejantes campinas, trechos que apresentavam os mais poticos aspectos, 
 sombra de poderosos contrastes luminosos. At Lauiad ruma a estrada, diretamente, para leste. A partir deste ponto toma a direo sul-sudeste. O panorama que ento 
subitamente se desdobra  realmente grandioso. Aos ps do espectador, vasta campina a que embelezam magnficos acidentes; alm, as grandes  orlas da mata que acompanham 
as sinuosidades das belas guas do Aquidauana; ao longe a extensa serra de Maracaju, com os pncaros escavados, refletindo os esplendores do Sol, e coroando toda 
esta massa prodigiosa, azulada pela distncia. Foi este ponto, com razo, chamado pelos Guaicurus Campo Belo (Lauiad).

Parece apangio dos povos civilizados o sentimento admirativo; pelo menos bem raro  nos homens primitivos a sua manfiestao exterior. No entanto, as grandes linhas 
de um quadro majestoso da natureza conseguem, s vezes, vencer a feio material do selvagem, unindo ao autor da obra o rude espectador maravilhado. O primeiro Guaicuru 
que sobre esta regio encantada deitou os olhos, no pde conter a exclamao de surpresa; com a voz gutural e cavernosa pronunciou a palavra Lauiad, que para sempre 
a assinalou.

A quatro lguas de Lauiad est a Forquilha, onde o Nioac conflui com o Miranda.

So todos estes panoramas de incomparvel beleza. Uma eminncia, entre outras, de onde se dominam as margens cheias de mata do Uacogo, do Nioc e do Miranda, enlaando 
a plancie em suas curvas convergentes, oferece aspecto que sobrepuja ainda, se possvel, o panorama da Lauiad. To brilhante, to suave a luz que a toda aquela 
paisagem cobre que, involuntariamente, vem a imaginao emprestar a sua magia a este irresistvel conjunto dos encantos da terra e do cu. Apertadas entre altas 
ribanceiras, cobertas de taquaruus, correm as guas frescas do Nioac sobre um leito quase contnuo, de grs vermelho, disposto em grandes lajes; e, em vrios lugares, 
 a ao da correnteza sobre a pedra to notvel, que se recomenda  ateno e ao estudo do gelogo. Mas quem, sbio ou artista, no acharia farta messe nestes campos 
admirveis? Na extenso das dez lguas que separam a Forquilha de Nioc tm os terrenos nvel inferior aos que precedem Lauiad, muito embora jamais possam, em tempo 
algum, ser invandidos pela inundao. So, pelo contrrio, secos e  cobertos de pedregulho, como de macadame natural. Nos cerrados surgem os piquis, freqentes.; 
h tambm uma grande rvore que se cobre de bagas aucaradas e agradveis, a que chamam fruta-de-veado. No se mostram os jacarands, tambm, a raros.

Realizou-se a marcha para Nioac com muita ordem e regularidade. Eram alguns doentes transportados em redes, outros em cangalhas semelhantes aos cacolets usados pelo 
exrcito francs na Arglia e da inveno de Larrey, no Egito. Grandes servios nos prestou este excelente modo de transporte. Suavizou, at, os ltimos momentos 
do capito Lomba, do 21 batalho, que morreu ao chegar, supremo sacrifcio, oferecido ao mau fado da nossa longa permanncia em Miranda.

A benigna influncia do planalto que atingramos fez desaparecer completamente a epidemia. Restabeleceram-se do pronto os doentes: no tornamos a ver aquelas terrveis 
dormncias, sinais precursores do mal que tantas vtimas causara.


CAPTULO III

Nioac. O coronel Carlos de Morais Camiso. O guia Jos Francisco Lopes.

Fora a vila de Nioac abandonada pelo inimigo a 2 de agosto de 1866. Por toda a parte ali se viam vestgios do incndio. Poupadas, apenas, duas casas e uma pequena 
igreja de pitoresca aparncia.  primeira vista agrada o aspecto geral do lugar. De um lado, o povoado e um ribeiro chamado Orumbeva; do outro, o rio Nioac, cujas 
guas confluem cerca de 900 metros, para trs da igreja, deixando livre, em torno desta,  direita e  esquerda, um espao duas vezes maior. Pequena colina fica-lhe 
em frente, a pouca distncia.

Ali chegamos s 11 horas de 24 de janeiro de 1867 acampando, em ordem de batalha, com a direita encostada  margem direita de Nioac; e a esquerda  mata do Orumbeva. 
Instalaram-se o quartel-general e o trem  retaguarda, no local da vila, ocupando o hospital as pequenas casas salvas do fogo e um grande galpo que s pressas se 
construiu.

Serviu a nave da igreja - de onde se retirara tudo quanto ainda havia de smbolos do culto - de depsito ao cartuchame e a todas as munies.

     Ergueram-se, de todos os lados, ranchos de palha, gurbis como lhes chamam na Arglia, e, dentro em pouco, oficiais e soldados ali se acharam to bem instalados 
quanto as circunstancias o permitiam. Um bem-estar, desde vrios meses ausente, o renovamento da existncia, um sentimento de plenitude de vida a todos ns exaltava, 
e em todos se transmutava na nsia de sobressair, graas a algum brilhante feito d'armas que chamasse a ateno do pas para uma expedio desde muito inativa. Reinavam 
no acampamento a esperana e a alegria.

Perigo havia, contudo, neste entustasmo; e os que conheciam o chefe, de si para si, indagavam, com secreto desassossego, qual lhe seria a demonstrao da iniciativa.

Ia-lhe no peito amarga lembrana que no conseguia remover da mente. Ao abandonar o coronel Oliveira, comandante das armas da provncia, a praa de Corumb (1), 
embora estranho s primeiras deliberaes motivadoras desta precipitada retirada, figurara neste triste episdio o coronel Camiso na qualidade de comandante do 
segundo batalho de artilharia; e, por tal motivo, vira-se acoimado de solidariedade com este ato de fraqueza. Contra ele servira-se a malevolncia destas vozes 
cruis, circulando, em tal poca, um soneto impresso, acerbo estigmatizador dos defensores de Mato Grosso. Dentre os nomes nele apontados, lera o prprio...

Subsistia a dor da afronta, profundamente magoado como se lhe achava o pundonor militar. Com verdareira paixo aceitara o comando da expedio. Seria, a seu ver, 
o modo de se reabilitar perante a opino pblica e, desde tal momento, concebera o projeto no de se manter na defensiva, como o critrio o indicava, dada  a exigidade 
dos recursos de que podia dispor, e sim de levar a guerra ao territrio inimigo, fossem quais fossem as conseqncias.

Dia a dia. cada vez mais, tal idia o empolgara. Sob, a influncia de legtimo ressentimento, tomou a feio da fixidez, apesar da inata indeciso do carter. Si- 
nistro fadrio o impelia ao infortnio.

Encontrava-se no arquivo da coluna um ofcio do Ministro da Guerra recomendando a marcha sobre o Apa logo que as conjunturas a tanto se prestassem.

Ali enxergou, no o que exatamente havia, uma indicao facultativa, mas a ordem de avanar, forma peremptria. Por mais que se lhe fizessem observaes: cego, graas 
a doentia suscetibilidade, levava a mal que de menos contestvel se lhe objetasse.

Uma frase depreciativa a seu respeito pronunciada, imprudentemente repetida, ainda lhe acirrou a inflexibilidade, tornando-o surdo a quanto parecesse desvi-lo do 
projeto de invaso. No era que lhe no sopesasse as dificuldades; via, porm, os soldados cheios de entusiasmo e j aguerridos; embalava-se na esperana de,  sua 
testa, praticar grandes feitos; adestrava-os s manobras, por meio de freqentes exerccios, levava-os a empenhar combates simulados, em que a artilharia representava 
ruidoso papel; e desta agitao geral resultava uma animao de que ele prprio compartia.

Entretanto, algumas vezes tambm, percebia nitidamente que apenas dispunha de uma vanguarda de exrcito em campanha; e era obrigado a reconhec-lo. As hesitaes 
lhe voltavam ento, e, chegado o dia por ele prprio fixado para a arrancada das foras, achava sempre motivo para o adiamento, embora precisasse invocar as razes 
na vspera repelidas. Ora oficiava ao Ministro que nada podia empreender sem cavalaria, e ora pretendia poder dispens-la; dolorosos embates entre a autoridade da 
razo clara e as inspiraes do orgulho magoado.

Era-lhe a atitude, alis, sempre digna e firme; em todas as questes administrativas trazia, sobretudo, o cunho de nobre integridade. No admitia uma diminuio 
ao prestgio de chefe e sabia mant-lo tanto mais quanto lhe assistia real singeleza e amenidade.

Homem de quarenta e sete anos de idade, baixo e aparentemente robusto, feies regulares, tez moreno-escura, olhos negros e vivos, tinha larga testa e belo crnio, 
completamente calvo, que dos paraguaios lhe valeu injuriosa alcunha. Sempre srio e preocupado, era visto solitrio, ou a conferenciar com o velho sertanista que 
nos servia de guia, Jos Francisco Lopes.

Merece este ser apresentado ao leitor antes que o veja agir. Dentre ns, os que tinham presentes os romances de Fenimore Cooper, no podiam,  vista do sertanejo 
brasileiro, o homem das solides, deixar de evocar a grande e singela figura de Olho de Falco no ltimo dos Moicanos.

Tivera, desde a infancia, o pendor pelas entradas nos sertes brutos. Contava-se tambm que um ato violento, da primeira mocidade, lhe impusera, durante algum tempo, 
este modo de vida. Viera depois a idade desenvolver-lhe todas as aptides. Prodigiosamente sbrio, viajava dias inteiros sem beber, trazendo  garupa da cavalgadura 
pequeno saco de farinha de mandioca, amarrado ao pelego macio, que lhe forrava o selim. Jamais deixava o machado destinado a cortar palmitos. Nascido na vila de 
Pinmi, em Minas Gerais, dali, ao lu das aventuras, havia atingido todos os pontos da rea que se estende das margens do Paran s do Paraguai. A fundo conhecia 
as planicies que entestam com o Apa, divisa do Brasil e do Paraguai. Numerosas localidades at ento virgens do p humano, at mesmo selvagem, percorrera e a vrias 
batizara (Pedra de Cal, entre outras). Tomara, em nome do Brasil, posse, ele s, de imensa floresta, no meio da qual chantara uma cruz, grosseiramente falquejada, 
onde esculpira a inscrio P II (Pedro Segundo), imponente madeiro, perdido no recesso dos desertos. Criava a iniciativa do sertanista domnios ao soberano.

Numa viagem para estudar a navegao do rio Dourado, afluente do Paran, gravemente ferira a planta do p, acidente de que jamais pudera curar-se. Um dia. como lhe 
vssemos a chaga, semicicatrizada, sempre a sangrar, disse-nos: "Prometeu-me o governo dar-me, a ttulo de recompensa, trezentos mil-ris, mas nunca os pagou. Perdoei-lhe 
a divida; o que se me devia era uma condecorao; j a tenho e nada mais quero".

Durante sete anos, com a famlia, residira no Paraguai; mas no momento da invaso j estava de volta ao solo brasileiro, habitando,  margem do rio Miranda, uma 
propriedade sua, que batizara Jardim, fertilizada por seu trabalho e o dos filhos j crescidos. Ele e a mulher, D. Senhorinha, generosamente hospedavam quantos ali 
fossem ter.

Quando, em 1865, irromperam os paraguaios em territrio brasileiro, conseguira escapar-lhes, mas nico da famlia, que cara toda em poder do inimigo e fora transportada 
para a aldeia paraguaia de Horcheta, a sete lguas da cidade de Concepcin. Com ela vivia o corao do velho guia.

Por todas estas razes, nele encontrou o coronel Camiso apaixonado adepto. Desde que, dando-lhe a conhecer os seus projetos, acenou a Jos Francisco Lopes com o 
ensejo de, como guia da expedio, ir ter com a familia e vingar-lhe os agravos, empolgou o espirito do sertanista brasileiro, que, apesar de todo o ardor, jamais 
perdeu, contudo, a perfeita intuio das convenincias. Assim, nunca esquecendo a modstia da posio, freqentemente dizia: "Nada sei, sou sertanejo; os senhores 
que estudaram nos livros  que sabem".

Era-lhe o orgulho num nico ponto irredutivel, no que tocava ao conhecimento do terreno, legitima ambio, alm do mais, pois dela nos proveio a salvao. "Desafio, 
exclamava, todos os engenheiros com as suas agulhas (bssolas) e plantas. Nos campos da Pedra de Cal e Margarida sou rei. S eu e os indios Cadiueus conhecemos tudo 
isto".
Resolveu-se a partida de Nioac, embora j com grandes dificuldades tivssemos que lutar, sobretudo quanto ao abastecimento de gado.

Comunicou-se a ordem s tropas sem que se soubesse para onde se ia marchar. Pensava a maioria que se tratava somente de alguma incurso a fazer em territrio inimigo. 
Levava a coluna apenas o material indispensvel para um ms de ausncia. Ficavam no acampamento as mulheres dos soldados, exceto duas ou trs.

______________
 (1) Fora em fins de dezembro de 1864 Corumba tomada e devastada pelos paragualos. Era a principal praa comerciante de Mato  Grosso: e o inimigo ali realizou mui 
considervel presa.  Haviam-se os habitantes refugiados na matas vizinhas, mas Barrios os perseguiu. Saqueadas as casas, varios objetos roubados, e dos mais valiosos, 
remeteram-se a Lopez que no hesitou em os guardar,  sobressaindo-se Barrios entre todos os que assim procederam. A um braslleiro rico, e sua filha, levaram a bordo 
do seu navio: e quando o pai recusou delxar a menina a ss com o chefe paragualo, arrastaram-no   fora, ficando a infeliz criana no navio. Ps Barrios em tratos 
todos os que lhe cairam s mos, quando queriam ou no podiam dar-lhe as intormaes pedidas, ordenando que os espancassem: foram vrios lanceados como espies. 

The War in Paraguay por G. Thompson, vol. In 12, 1869. Jovem engenheiro ao servio de Lopez, entrara o Sr. Thompson em campanha, crente que ia defender o fraco contra 
a opresso. A experincla dos fatos testemunhados dissipa-se, porm, a generosa iluso.




CAPTULO IV


Marcha sobre a fronteira paraguaia. Conselho de guerra.


Arrancou a coluna a 25 de fevereiro de 1867, indo acampar a uma lgua da vila,  margem do rio Nioac. Logo que pudemos, visitamos o comandante. Tinha a barraca sobre 
um montculo pedregoso, a meio abrigado por palmeiras que tornavam aprazvel aquele local. Estava agitado: j para o rancho da tarde faltava gado. A 26 estvamos 
no Canind; a 27 no Desbarrancado.

Dois dias demorou a coluna neste lugar, 28 de fevereiro e 1. de maro. A 2 marchava at o Feio,  rio da vizinhana, onde, devido ao mau tempo, passou o dia 3. Nesse 
mesmo dia voltou Jos Francisco Lopes de sua estncia do Jardim trazendo-nos, mais ou menos, duzenta e cinqenta cabeas de gado, circunstncia que naturalmente 
veio aumentar a grande confiana que nele e em sua palavra j depositvamos. A 4,  uma hora da tarde, ocupamos o lugar onde fora a colnia de Miranda, distante 
80 quilmetros S.S.O. de Nioac (1). Apenas ali restavam alguns vestgios de construes incendiadas.

Principiou o coronel Camiso por fazer explorar os diversos pontos que se ligavam  nossa posio e ordenou que, em todas as direes, se abrissem picadas atravs 
das matas, mandando ocupar as estradas do Apa e da  colnia por piquetes. Ao mesmo tempo eram os aproches da frente e da retaguarda resguardados por destacamentos 
considerveis.

O que teria convindo seria investir contra as fortificaes paraguaias e tom-las. Na primeira confuso desta surpresa, poderiamos devastar o Norte da Repblica 
antes que o governo de Assuno soubesse de nossa marcha. Deu-se inteiramente o contrrio: teve o inimigo tempo de perceber a diretriz e o alcance da empresa.

Continuava sempre iminente a fome. Segundo rebanho de duzentas cabeas, que Lopes ainda trouxera de suas terras, estava a acabar. Nenhuma remessa nova se anunciava 
e a Intendncia em ofcio, datado de Nioac, declarava achar-se incapaz de prover, da em diante, ao abastecimento de gado. Nesta contingncia acentuaram-se as hesitaes 
do coronel com maior freqncia. Deixou mesmo pressentir a necessidade que talvez o compelissem a retrogradar at Nioac e abandonar provisoriamente os projetos de 
ofensiva. Como fazia praa em observar, tal idia, alis, jamais fora favoravelmente acolhida.

Quis em todo o caso pr-se a salvo da responsabilidade, por meio de documento oficial com que, oportunamente, pudesse justificar-se, quer perante o governo, quer 
perante o pblico. Assim, pois, a 23 de maro, oficiou ao presidente da comisso de engenheiros, determinando-lhe que convocasse os colegas para deliberarem sobre 
a possibilidade de um movimento ofensivo e os meios de o executarmos. A tarde desse mesmo dia. graas a um contraste, cuja recordao nos ficar inapagvel  mente, 
reuntu-se este conselho pejado de tantas desgraas, quando a luz crepuscular enchia os espaos de paz e alegria. A principio solene, acabou por violncias nascidas 
da exaltao conscienciosa.

Por diversas vezes esforaram-se trs dos membros da comisso em pintar a posio do corpo do exrcito tal qual realmente era; a insuficincia de vveres; a inpia 
absoluta dos meios de transporte; a ausncia da cavalaria e a escassez das munies; a impossibilidade de angariar reforos ou socorros para um punhado de homens 
internados em terra inimiga. Da a eventualidade infalivelmente prxima de uma retirada a executar-se, sem dados de antemo estudados, e sob condies em que as 
tentativas s podiam conduzir a um desastre, e isto com a deplorvel conseqncia de atrair novamente para o territrio brasileiro, a ocupao paraguaia, acompanhada 
de todos os horrores.

Razo, mais que sobeja, assistia incontestavelmente aos que assim pensavam. Dois dos colegas, porm, encarando a questo sob um ponto de vista diverso, e buscando 
argumentos em mais elevada esfera, pretenderam que ao corpo de exrcito assistia uma misso que, a todo o transe, devia cumprir. Tornara-se-lhe a marcha para o Norte 
do Paraguai absolutamente indispensvel no plano de conjunto da guerra. Era sem dvida a coluna mais fraca e talvez sucumbisse, mas til e gloriosamente. Dir-se-ia, 
pelo menos, que se compunha de valentes brasileiros.

ramos todos moos; tais pensamentos, tais modos de sentir invocados a propsito de opinies contrrias, trouxeram troca de palavras speras e afinal recriminaes 
pessoais.

At ento mantivera-se calado o tenente-coronel Juvncio, chefe da comisso de engenheiros, sem contudo conseguir dominar a comoo que de vez em quando o agitava. 
De seu voto, preponderante, devia depender, o desfecho do debate. Resumiu o parecer, colocando-se exclusivamente no terreno prtico: "No podia a coluna avanar 
sem vveres e j no dispunha de mais gado" Exatamente em tal momento ocorreu um destes incidentes que nas combinaes das coisas humanas surgem para lhes encaminhar 
o curso.

Um rebanho que o infatigvel Lopes, a instancias do nosso comandante, juntara nos campos de sua estncia do Jardim e tangera para o acampamento, ali entrava tumultuosamente, 
respondendo os mugidos dos animais aos clamores dos vaqueiros e pees.

Desde ento tudo se decidiu, como outrora em Roma expedies militares se sobrestiveram ou precipitaram-se segundo os gemidos das vtimas ou os gritos dos frangos 
sagrados.
   
Levantou-se o presidente do Conselho e, voltando-se para o secretrio encarregado de redigir a ata da sesso, o prprio autor desta narrativa, encarregou-o de comunicar 
ao comandante que a comisso unnime reconhecia a possibilidade da marcha para a frente, sobre a fronteira inimiga, apressando-se em oferecer toda a sua boa vontade 
para a execuo deste plano.

Em seguida, exclamou, como algum que ao sacrificio se vota: -"Deixo viva e seis rfos. Tero como nica herana um nome honrado".

Assim se encerrou este conselho sobre o qual se fixara a ateno de toda a oficialidade e cujo resultado a todos surpreendeu; a ningum tanto, contudo, quanto ao 
comandante, por se ver arrastado pelo obstculo que acreditara antecer  sua pessoa e os riscos do primitivo projeto. O sentimento do decoro pessoal, nele poderoso 
desde o despertar, preservou-o, contudo, de outro testemunho da impressso, alm de alguns gestos, inopinados e involuntrios. Esforou-se desde ento em bem realizar 
o que fatalmente se tornara impossvel deixar de empreender.

____________
(1) No se confunda com a vila de Miranda, sita a 210 qullmetros N. O. de Nioac.




CAPTULO V

Reconhecimento. Rebute falso. Regresso de cativos escapos ao inimigo. O guia Lopes e o filho. Avante!

Recebeu imediatamente o 21. batalho ordem de escoltar os engenheiros, numa explorao das localidades vizinhas da colnia; e, com efeito, a 25, o tenente-coronel 
Juvncio, com os dois subordinados, avanou at o ponto chamado Retiro que, havia pouco, fora evacuado por um destacamento paraguaio de uma centena de homens. Feito 
o reconhecimento regressou na mesma tarde a nossa comisso ao acampamento. Haviam tido os infantes que nos acompanhavam que percorrer mais de 52 quilmetros transportando 
capotes e armas, alm de sessenta cartuchos na patrona. Pudemos freqentemente constatar que as mais longas marchas no conseguem abater a energia do soldado brasileiro.

Decorreram os dias subseqentes, na inao; e neste solene repouso do pensamento, que  apenas prudncia em vsperas de arriscadas empresas.

Tanto ningum deve perturbar-se com a apreenso de desgraas, que talvez no ocorram, como se no entregar  exagerada confiana no futuro, que  possivel catstrofe 
ainda venha trazer o rigor do imprevisto. 

Abril comeara, o ms fadado s nossas provaes. O servio de comboio longe estava de se achar garantido e no entanto como que a abundncia reinava no acampamento. 
Carretas em contnua afluncia ali traziam toda a espcie de fazendas e demais objetos de luxo que aqueles pramos desertos jamais haviam certamente visto. Assim, 
as mulheres dos soldados, atradas por este movimento comercial desciam de Nioac em grupos cada vez mais numerosos. Tambm para tal afluxo de gente contribua a 
reputao de salubridade da Colnia de Miranda.

Era para aquele ponto, com efeito, que, muito antes da invaso estrangeira, de toda a vizinhana mandavam convalescentes e valetudinrios. Ali so cristalinas as 
guas do rio que as infiltraes salobras dos pntanos de jusante ainda no contaminaram. Nada deixava a desejar o estado sanitrio das tropas. Haviam, pois, recomeado 
os exerccios dirios de todos os batalhes e nossas msicas, rompendo afinal o longo silncio, alegravam os espritos. A dos voluntrios de Minas, sobretudo, cuidadosamente 
recrutada, executava sinfonias cuja novidade, para os ecos locais, ajuntava novo encanto ao prazer da audio.

Recebeu logo o 17. batalho ordem de ir, alm do ponto atingido pelo 21., realizar um reconhecimento, sob a direo do guia Lopes e em companhia de um grupo de 
ndios Terenas e Guaicurus, que desde algum tempo se apresentara ao Coronel. A 10 de abril, realizou-se a partida, bandeiras desfraldadas e msica  testa, espetculo 
sempre imponente em vsperas de combate. Graas ao comandante apresentava-se o corpo em p de disciplina, que em qualquer ponto o tornaria notado.

Reservava-nos o dia seguinte emoes muito diversas e quase contraditrias: a esperana de encontrar o inimigo, que se no realizaria, e o imprevisto das mais comoventes 
cenas familiares.

Anunciou-nos uma mulher, vinda de Nioac, o encontro,  margem de um rio prximo, de um grupo de cavaleiros, falando o espanhol. Depois de lhe fazerem algumas perguntas, 
haviam-na deixado passar tranqilamente.

Deu-se logo o alarma em toda a frente e  retaguarda, mas tivemos logo a agradvel surpresa do regresso do nosso destacamento trazendo dez cavaleiros. Eram brasileiros, 
eram irmos! Pertenciam a famlias estimadas e bem conhecidas de fazendeiros das vizinhanas de Nioac: Barbosas, Ferreiras, Lopes, e haviam conseguido escapar ao 
inimigo inexorvel. Com a rapidez do raio circula a notcia de sua apario por todo o acampamento, e at em Nioac. Para os ver acodem homens e mulheres, possudos 
como que de embriaguez; e a maioria at a chorar. Patrcios nossos! Rodeados, carregados, acham-se de repente em presena do comandante que os interroga.

Contam que, levados prisioneiros para o territrio paraguaio, eles e as famlias, haviam, ao se retirar o inimigo, sido dispersos por diversas localidades, principalmente 
em Vila Horcheta, a sete lguas de Concepcin 

Ali lhes haviam dado terras de cultura sob a condio de pagarem aos coletores o quinto da colheita. Nunca os incomodaram muito at ento, mas sabendo, ultimamente, 
que o ditador Lopez, j falto de gente para o exrcito, projetara recrutar todos os estrangeiros, e at mesmo os prisioneiros, e que, ao mesmo tempo, se aproximava 
uma coluna brasileira, tudo tinham arriscado para reunir-se aos patrcios, escapando ao perigo de ter de os combater. As prprias famlias os haviam acorooado a 
assim proceder.

A 25 de maro, exatamente no dia dos nossos primeiros reconhecimentos diante da colnia, conseguiram apossar-se de bons cavalos paraguaios, e, como se no iludissem 
acerca do destino que os aguardava caso fossem novamente capturados, tinham se arriscado a caminhar  noite, e de mata em mata, fazendo contnuos rodeios, em direo 
 fronteira. Atingindo-a felizmente, atravessaram o Apa e depois, deixando  direita a estrada da colnia, subiram ao norte, em direo  estancia do Jardim, de 
onde desceram ao nosso encontro.
A um deles, o filho do guia Lopes, chamou o Coronel  sua barraca e a ss. Era moo simptico, cuja inteligncia e discrio pareciam provir da herana paterna. 
Versou a conversa, naturalmente, sobre as informaes que ele e o cunhado, Barbosa, podiam dar relativamente  situao do Paraguai,  sua fora aprecivel, meios 
de resistncia, e sobretudo quanto  fronteira vizinha.

Responderam os refugiados que as fortificaes do Apa no passavam de simples estacadas de madeira comum, guarnecidas, em Bela Vista, por uma centena de homens, 
sob o comando do major Martim Urbieta. Estavam os outros fortes em piores condies defensivas; mas o governo paraguaio,  vista dos avisos recebidos, comprometera-se 
a providenciar dentro em pouco e a enviar reforos, determinando que at a chegada destes, se fizesse uma retirada ante a investida brasileira, destruindo-se tudo 
o que no fosse possvel carregar. Acrescentaram que, no interior do Paraguai, era geral o desnimo; dia a dia menos se acreditava num feliz desfecho da guerra. 
Entretanto a resoluo da defesa, a todo o transe, no parecia esmorecida. Quanto ao respeito pelo presidente, El supremo, cujo nome todos pronunciavam descobrindo-se, 
era sempre o mesmo.

Apenas pelo acampamento se espalharam tais notcias, s houve um grito: Ao Apa! Ao Apa! Atingiu o entusiasmo ao auge, deixando-se os mais prudentes arrastarem pela 
excitao apaixonada dos grupos que de todos os lados se formavam.

Anunciou-se neste momento a volta do 17. batalho que acompanhara o velho Lopes. Era geral o desejo de assistir ao primeiro encontro do pai e do primognito que 
lhe voltava aos braos.

Passando pelos postos avanados soubera o nosso guia da grande notcia.

Vinha plido, lacrimejante, em direo ao filho que, respeitosamente, o esperava, descoberto. No descavalgou; estendeu a destra trmula ao filho, que a beijou; 
depois o velho guia deu-lhe a bno e passou sem proferir palavra.

Foi uma cena patriarcal, e como seja o corao humano sempre sensivel aos grandes lances, atnitos, olhvamos uns para os outros, como a indagar se no seria fraqueza 
entre soldados nem sempre poder conter as lgrimas.

Que emoo devia sentir o velho vendo o filho escapo ao inimigo! E quanta dor, ao pensar que os outros membros da famlia, ainda cativos, haviam perdido o mais valente 
defensor! Quando em tal lhe falamos tomou longa pitada e disse: "Deus tudo faz. Deus assim o quis. Fui outrora feliz, tive casa e famlia. Hoje durmo ao relento; 
estou s, e como do que a caridade d".

- Vamos encontrar casa em Bela Vista, lhe respondemos. Tem o senhor a seu lado filho e genro. Come em companhia de amigos e at ainda  quem lhes d a comer de seu 
gado.

Com melanclico sorriso meneou a cabea, dizendo: "Nunca mais ser minha a estancia do Jardim! . . . "

Entrementes, depois de haver combinado com Barbosa os meios de ainda obter gado do sogro, ordenou o Coronel que se avanasse.


CAPTULO VI

Em marcha. Formatura da coluna. A vista da fronteira.

Fortalecido em sua primeira resoluo, no pde entretanto, o coronel Camiso execut-la sem deixar perceber algumas das antigas hesitaes. Fora ele prprio que 
para 13 de abril marcara a partida; adiou-se para o dia imediato, embora, desde o romper d'alva, tudo estivesse pronto e o corpo do exrcito em ordem de marcha. 
S em hora avanada tornou conhecida a nova determinao, a tal respeito estendendo-se em explicaes que a todos espantavam, provocando malignas interpretaes, 
principalmente a propsito dos pousos, que fixara. Dispusera-os com efeito de modo que a coluna chegsse a Bela Vista, ou em suas imediaes, isto  na fronteira, 
no sbado de Aleluia ou domingo de Pscoa, para que ali se celebrasse esta solenidade. - "Assim diziam os crticos, os tiros de pea, iniciais de nossa entrada em 
fogo, sero os mesmos que geralmente acompanham a cerimnia religiosa: a iniciativa da campanha ser coberta pela festa".

Treze de abril foi, pois, ainda um dia perdido: gastaram-se as horas da manh em preliminares de viagem, inteiramente suprfluos, e cujo nico objetivo parecia procurar 
entreter os soldados. Estes, alis, a tudo se prestavam com a melhor disposio. Fizera-se ouvir o hino nacional e uma exploso de entusiasmo o acolhera. Vrios 
ajudantes-de-ordens se despacharam ento, cada qual do seu lado, a ler uma ordem do dia. apelando para o patriotismo da coluna e a lhe relembrar a confiana nos 
chefes. Enrgicas aclamaes estrugiram ainda, aps esta proclamao,  repetindo-se vrias vezes: chegara ao auge a animao. No entanto cara a noite, que se passou 
sem que nos houvssemos movido. Viram todos o comandante, meditativo como sempre,  passear na sombra, em frente  sua barraca, por mais tempo e mais tarde do que 
geralmente fazia.

No dia seguinte, desfilou o corpo diante dele; com isto pouco a pouco se animou. J a vanguarda, contudo devia dar-lhe motivos de reflexo, composta como era de 
homens de nossa cavalaria desmontada. E com efeito j relatamos que no tnhamos mais cavalos, todos vitimados na regio de Miranda por uma epizootia do gnero da 
paralisia reflexa que a ns mesmos, to cruelmente, viera provar. Quando muito pudera o servio de faxina conservar alguns muares. Faltava-nos o elemento primordial 
da guerra nestes terrenos, a cavalaria; e no havia quem com isto se no impressionasse.

Malgrado a diferena de feio, a que se tinha de resignar, nada perderam os nossos caadores do aspecto marcial. Aps eles marchava o 21. batalho de linha, precedendo 
uma bateria de duas peas raiada depois o 20. batalho, outra bateria igual  primeira acompanhada pelo 17. de Voluntrios da Ptria; e afinal as bagagens, o comrcio, 
com a sua gente e material, as mulheres dos soldados, bastante numerosas.

Ocupava o gado o flanco esquerdo, com as carretas de munies de guerra e de boca, massa confusa protegida por forte retaguarda.

Tnhamos o Miranda  frente; os soldados o atravessaram; uns levantando acima d'gua armas, cintures e patronas; outros sobre uma ponte volante que os eng nheiros 
acabaram de construir, auxiliando-os neste trabalho urgente um 2. tenente de artilharia, Nobre Gusmo, jovem oficial, cheio de inteligncia, que nesta ocasto demonstrou 
o zelo que mais tarde sempre ps em destaque (1).

Mais de duas horas tomou esta travessia; neste nterim havia o coronel Camiso e seu estado-maior lido noticias que o correio de Mato Grosso acabara de trazer: Nenhum 
comunicado, oficial ou privado, relativo  invaso do Paraguai pelo sul viera ao nosso comandante, nem coisa alguma que a tal fato se ligasse. Seriam, entanto, informes 
do mais alto interesse, at mesmo indispensveis no momento em que nos aventurvamos  perigosa operao, sem que colimssemos prefixado fim. s duas horas da tarde 
recomeou a marcha, e, lentido era extrema: regulvamos o passo pelo dos bois que puxavam a artilharia e ainda, de tempos a temto todos estacavam, porque o prprio 
Coronel, indo e vindo com o seu estado-maior, da frente  retaguarda, punha-se com o culo de alcance, a examinar as cercantas, ora distrada ora muito atentamente. 
Surpreendia-nos isto porque se jamais houve campos sem mistrios eram os que atravessvamos. Estavam, ento, inteiramente despidos; recentemente incendiados neles 
perecera at a erva rasteira, de modo que os atiradores distribudos, no momento da partida, ao longo da nossa coluna, para guard-la, a ela se haviam incorporado, 
dispensados dum servio sem razo de ser.

Ao cair da noite atingimos elevado cmoro. A 16, recomeou a marcha na mesma ordem, somente deviam os diferentes corpos alternar, de um dia para outro,  testa, 
ao centro e  retaguarda.

Seguamos uma estrada formada de dois trilhos paralelos, espaados por trs ou quatro palmos de capim e estendendo-se a perder de vista pelas plancies desnudadas. 
Uma outra molta, ou arbusto, quando muito, surgiam de vez em quando. S no horizonte se divisavam uns capes. Estavam os dois trilhos bem batidos, tornando-se visvel 
que havia pouco por eles tinham passado e tornado a passar cavaleiros e em contingentes avultados.

Desta estrada partiam, de distncia em distncia, outros rastos de cavalos encaminhados para os acidentes do solo, que permitiam a viso ao longe. No se podia mais 
duvidar que o inimigo nos observava a marcha.

Fomos acampar perto do morro do Retiro, onde ocupamos a vertente em cuja base nasce o volumoso ribeiro do mesmo nome.  nesse lugar admirvel a natureza; corre a 
gua emoldurada de palmares, entre margens ligeiramente sinuosas, revestidas de relva curta e fina, da mais bela cor esmeraldina.

No longe dali residira outrora esta mesma D. Senhorinha, cuja hospitalidade j gabamos. Achava-se, ento, casada, em primeiras npcias, com um Lopes (Joo Gabriel), 
irmo do nosso valente guia Jos Francisco, e falecido em 1849. Residindo s, com os filhos, ento crianas, numa zona fronteiria, onde no h a mnima segurana 
para os fracos, j fora outrora a viva presa e levada por um magote de paraguaios. Reclamada, ao cabo de algum tempo, pela legao brasileira em Assuno e liberta, 
em 1850, contrara, segundo o costume generalizado naquela terra, segundo casamento com o cunhado, o nosso guia, que a estabelecera em sua estncia do Jardim. Ali, 
ao comear a invaso, de 1865, fora de novo presa e internada no Paraguai.

A 17 de abril, pela manh, deixamos o Retiro e, duas lguas  frente, encontramos uma construo em forma de galpo ou cabana que evidentemente acabava de ser abandonada 
por uma ronda inimiga. Erguia-se-lhe ao lado um destes mastros de vigia a que os paraguaios chamam mangrulhos, grosso esteio ou travejamento de toscos madeiros, 
pelos quais trepam para descortinar, ao longe, os terrenos circunvizinhos. Havia os nossos ndios Guaicurus avanado at ali, anteriormente, num reconhecimento do 
tenente-coronel Enias Galvo. Desta vez fizeram os selvagens, nossos aliados, alegre fogueira do tal mastro e da choupana.

Avisaram neste momento ao Coronel que o nosso comboio se atolara  sada do Retiro. Decidiu imediatamente que, sem interromper a marcha, iramos esper-lo a alguma 
distancia,  vanguarda. Foi o que fizemos assentando acampamento exatamente no local onde existira a fazenda de Joo Gabriel. Grosso contingente da vanguarda colocou-se 
em observao sobre uma culminncia que dominava a campina.

Quem comandava este destacamento era um capito da guarda nacional do Rio Grande do Sul, Delfino Rodrigues de Almeida, mais conhecido pelo apelido paterno de Pisaflores, 
homem enrgico, a cuja bravura todo prestvamos homenagem. Vimo-lo olhar fixamente para oeste; de repente, partido de diferentes pontos, reboou um grito: A fronteira! 
Da elevao onde se achava destacamento avistava-se com efeito a mata sombria do Apa, limite das duas naes.

Momento solene este, em que entre oficiais e soldados no houve quem pudesse conter a comoo! O aspecto da fronteira que demandvamos a todos surpreende que realmente 
era novo. Podiam alguns j t-la visto mas com olhos do caador ou do campeiro, indiferente. A maior parte dos nossos dela s haviam ouvido vagamente falar; e agora 
ali estava  nossa frente com ponto de encontro de duas naes armadas, e como campo de batalha.


__________
(1) Por ocasio da travessla dos pantanais e da Retlrada da Laguna prestou este oficial, Cesrio de Almelda Nobre de Ousmo, prodigiosos servlios _ Vd D1.Y de Guerra 
e de Serto nelo A.



CAPTULO VII

Passagem do Apa. Primeiro embate. Ocupao da Machorra.

Haviam as nossas carretas retardatrias chegado ao acampamento a 17. No dia 18, pelas nove da manh, fez-se a rendio das guardas avanadas. Reinava em nossas linhas 
a maior tranqilidade quando, de repente, pelas onze, ouviu-se o grito de alarma: "Cavalaria inimiga!". Armam-se os batalhes; expede o comandante os engenheiros 
aos postos avanados; o ajudante-general  retaguarda; o assistente do quartel-general aos diversos corpos para lhes examinar as condies e remediar ao que possa 
faltar. Para a vanguarda marcha ele prprio, acompanhado pelo batalho de voluntrios, com as bocas de fogo do major Canturia e do tenente Marques da Cruz, o mesmo 
que havia de morrer combatendo nas Linhas de Humait. Por ns passou, com a espada nua, no querendo, dizia, tornar a embainh-la seno depois que houvesse travado 
conhecimento com os paraguaios.

Estavam os inimigos, ento, a pequena distncia de ns, perto da mata que beirava um ribeiro. Avanavam sensivelmente estendendo-se em linha de atiradores, correndo 
de um lado para outro, sob as ordens de um oficial, que entre eles se destacava; e sbito mandou se retirassem: perdemo-los de vista. Aps to prolongada espera 
ordenou o comandante que volvssemos s nossas posies.

Pela manh de 19 deixamos o acampamento. O Coronel destacou o 21. batalho para a vanguarda com a recomendao de nunca perder de vista o grosso do corpo do exrcito, 
durante a marcha, embora sempre a ganhar terreno. Seguia o resto em destacamentos, prximos uns dos outros, mas, como a animao dos soldados e a dos oficiais corressem 
parelhas, avanaram os corpos sem prestar grande ateno s ordens dadas, achando-se por vezes separados por distncias maiores do que a prudncia aconselhava.

 passagem do Taquaruu, cuja ponte acabavam os paraguaios de destruir, deu-lhes a vanguarda uma descarga, embora quase estivessem fora de alcance. Viu-se um de 
seus cavaleiros cair ferido. Tomou-o um dos camaradas  garupa, enquanto o terceiro lhe laava a montaria que fugia, sentindo-se solta. Ao presenciar esta primeira 
cena de guerra, queriam os nossos soldados deitar-se  gua para perseguir o inimigo, quando um toque de clarim do quartel-general os fez estacar. Toda a coluna 
achou-se logo agrupada atrs deles. Neste entrementes os engenheiros restabeleciam a ponte; bastou-lhes uma hora. Efetuou-se a passagem e a marcha recomeou  outra 
margem.

Vencendo pequenos planaltos interpostos s depresses paralelas que sulcam aquela campina, avanamos at a base de uma colina que domina toda a vizinhana. Achara 
a nossa vanguarda esta posio ocupada por um piquete de cavaleiros; estacou ento, e todas as nossas unidades, isoladas, assim fizeram tambm, uma aps outra. Examinaram-nos, 
ento, os paraguaios: nada entre ns e eles se interpunha; podiam contar-nos  vontade. Foi para ns grande desvantagem. At ento julgavam, dando crdito aos nossos 
refugiados, que a coluna brasileira contava nada menos de seis mil homens, e nosso comandante, como regra de guerra, esforara-se por lhes alimentar a abuso. Desfizera-se-lhes 
a iluso, desvanecida ao primeiro olhar lanado sobre ns.

Mais uma razo para que logo e logo os atacssemos, mas o comandante manteve-nos imveis.

S mais tarde soubemos por qu: provinha de intimo motivo: estvamos em Sexta-Feira Santa e a iniciativa de uma aao de guerra, no prprio dia da morte do Salvador, 
repugnava a um corao religioso como o do nosso chefe, escravo de todos os nobres sentimentos, a ponto de os exagerar at  contradio, inquieto e como perturbado 
pelo pressentimento do fim prximo.

Durou-lhe a hesitao bastante para que o destacamento paraguaio no mais receando ser atacado e, cheio de desprezo, talvez, pela nossa nossa pequena fora atirada, 
sem cavalaria alguma, em vastas plancies encharcadas, onde todo o homem a p  assunto de escrnio, se lembrasse pela atitude, de nos dar insolentes mostras de 
desdm que lhe inspirava a inferioridade de nossos recursos militares e, por meio de demonstraes ruidosas, nos fazer ver quanto considerava inteis quaisquer precaues 
contra ns. Descavalgaram todos os homens, assentando-se uns  sombra das macabas, ao passo que outros faziam tranqilamente pastar os cavalos. Fazia-nos ferver 
o sangue aquele afetado descuido. Felizmente, afinal, at ao nosso chefe atingiu esta indignao. Decidiu-se a agir. S havia um meio de rpido emprego e deste lanamos 
mo. Fez Marques da Cruz avanar a sua pea e uma granada silvou ao meio das aclamaes dos nossos soldados. Atingiu a base de alta palmeira, que abrigava bom nmero 
de cavaleiros e depois de ricochetear explodiu no ar.

Foi, pelo menos, para ns, um prazer vermos o efeito produzido, a surpresa, o alarma, a confuso. Correram uns para os animais que a detonao dispersara; calvagaram 
outros, precipitadamente; e sem mais detena dispararam pelo campo, a todo o galope. Passados poucos minutos desaparecera o destacamento inteiro. Lanou-se-lhe segundo 
projetil, e logo em seguida terceiro, que alcanou mais de meia lgua e deu a conhecer ao inimigo a fora de nossa artilharia. Toda esta tropa fugidia s haveria 
de reaparecer diante da fazenda da Machorra, na fronteira.

Chegados esta tarde,  margem de um ribeiro, que os espanhis chamam Sombrero, fomos acampar no tringulo que ele ali forma, confluindo com o Apa. Admiramos este 
belo rio, fronteira dos dois pases e cujo aspecto, com sua mata cerrada, tanto nos impressionara quando de longe o avistramos. Grande futuro lhe est reservado 
aps a guerra.

Desce o Apa por trs galhos, logo confluentes, da serra dos Dourados, um pouco abaixo da colnia militar deste nome, a doze lguas, este-sudeste da de Miranda. Corre 
a principio para Oeste, 10 N. at o forte de Bela Vista, que se acha no paralelo 22, e dai, descambando para Oeste 10 S., vai com um curso levemente sinuoso banhar 
Santa Margarida, Rinconada e outros pontos fortificados at o Paraguai, em cujo leito se despeja.

Ao chegar pediu o Coronel que lhe dessem gua do Apa, e, ou porque lhe viessem  mente vagas reminiscncias histricas, a propsito de caudais clebres, ou porque, 
aps tanto abalo de esprito, experimentasse como que uma agitao febril, disse sorrindo: "Notemos a que hora provamos a gua deste rio". Puxou o relgio, bebeu 
e acrescentou a gracejar: "Desejo que este incidente seja consignado na histria desta expedio, se algum dia a escreverem". Pareceu empenhado que se lhe fizesse 
uma promessa em tal sentido. Foi o autor desta narrativa quem, em nome de todos, a tanto se comprometeu, e hoje o cumpre com religiosa exao porque a morte, de 
que estava o nosso chefe to prximo, sabe, pela prpria natureza enigmtica, tudo enobrecer, tudo absolver e consagrar.

 neste ponto o Apa correntoso; mas as grandes lajes que lhe calam o leito como que convidam a entrar em suas belas guas. Foi o que fizeram muitos soldados; passaram 
vrios para a outra margem a dizer que iam conquistar o Paraguai.

 noite chegaram dois oficiais que  hora do perigo vinham procurar-nos para conosco dele compartirem. A marchas foradas acudiam de Camapu. Adiantando-se  escolta 
haviam atravessado, no sem correr o risco de algum acidente, as nossas linhas de vanguarda. S no dia seguinte apareceram os seus soldados ao acampamento, com um 
viajante por nome Joaquim Augusto, homem corajoso, mas que ao nosso contato s incitava o interesse pessoal.

No dia imediato, s nove da manh, ps-se a coluna em movimento e, atravessando o Sombrero, avanou sobre a margem direita do Apa, tendo  vanguarda o batalho de 
voluntrios. Muito tempo nos custou vencer uma lgua, apenas. Sucedia a cada momento algum acidente s carretas das munies. Delas no nos podiamos afastar, prximos 
como nos achvamos do inimigo. Atingiramos quase, segundo a opinio dos refugiados, a primeira guarda paraguaia, a saber, o forte e fazenda da Machorra, situada 
em territrio brasileiro, a uma lgua e quarto para c do forte de Bela Vista, que est construdo na margem paraguaia.

Espervamos, a cada passo, encontrar resistncia. No entanto marchava sempre o nosso batalho da vanguarda sem perceber ou sem medir a distncia que as paradas continuas 
dos demais corpos punham entre ele e as outras unidades. Em vo soavam os clarins; j se afastara demais para que os pudesse ouvir. Deix-lo assim isolado no era 
prudente; tornava-se indispensvel mandar um prprio chama-lo. Ofereceu-se o tenente-coronel Juvncio e partiu logo com seus dois ajudantes-de-campo e Gabriel Francisco, 
o genro do guia, que conosco quis ir. Felizmente, tnhamos bons cavalos, dos que haviam resistido  epizootia; safaram-se de perigoso atoleiro, que pela nsia de 
chegar no quisramos contornar. Perdemos logo de vista o corpo de exrcito, mas no percebamos, ainda, nossa tropa j empenhada em combate, ao que supnhamos, 
pelas descargas e disparos isolados dos atiradores. Vamos perfeitamente, por vezes, tremular a bandeira nacional, a que depois encobriam elevadas moitas. Parecia-nos, 
alis, que no avanava. Em poucos instantes a rapidez da carreira dela nos aproximou e, como eletrizados pela sua vizinhana, atiramos os cavalos s guas do volumoso 
ribeiro, que nos barrava o passo, o Jos Carlos, e afinal nos achamos reunidos aos nossos que, em lugar fechado, combatiam  entrada da Machorra.

Uma linha de paraguaios, assaz extensa, fazia frente ao ataque, ao passo que grande nmero dos seus se encarniava, com uma espcie de furor, em destruir a fazenda, 
incendiando quanto parecia poder arder. Ocupava-se o nosso comandante da vanguarda (1) em examinar uma ponte que cumpria atravessssemos para envolver o inimigo. 
Foi ento que o tenente-coronel Juvncio lhe comunicou a ordem de estacar. No permitiam as circunstncias, porm, que a ela atendssemos. Concordaram os oficiais 
na imprescindvel necessidade de se ocupar a posio, custasse o que custasse.
Imediatamente a nossa linha de atiradores atirou-se a correr para a frente oposta, e pela prpria ponte, porfiando todos em ardor.

Recuaram os paraguaios, mas em boa ordem. Tinham ordens, certamente, para no empenhar combate, mas somente reunir e tanger  retaguarda cavalos e bois que no queriam 
deixar-nos; e deviam ser numerosos, tanto quanto nos permitia avaliar a poeira que sua marcha ocasionava.

Foi o recinto ocupado: o tenente-coronel Enias, ali, deu imediatamente nova formatura ao seu batalho e o manteve numa srie de posies que lhe valeu, posteriormente, 
no s a aprovao do Coronel como gerais parabns. Foram os nossos os primeiros recebidos. Aplaudiram todos o esprito de disciplina dos seus subordinados e o af 
com que, logo  primeira voz, comearam a desentulhar o terreiro de objetos que o atravancavam, sem coisa alguma subtrair, assim como de quanto estava no interior 
das casas.

Neste nterim apareceu o prprio comandante. No vendo voltar nenhum daqueles que  vanguarda mandara, s pressas partira para constatar o que havia. O entusistico 
acolhimento que neste momento lhe fizeram, e as aclamaes dos soldados lhe causaram uma satisfao cuja expresso, malgrado a reserva habitual, a todos se patenteou.

Os auxiliares ndios, Guaicurus e Terenas, no foram os ltimos a se apresentar para o saque. To pequena disposio para o combate haviam mostrado que, na nossa 
carreira, ao lhe tomarmos a frente, lhes bradramos: Vamos! Avante! Valentes camaradas! Agora se lhes transmutara a indolncia num ardor sem limites para o saque. 
J se haviam disseminado pelas roas de mandioca e de cana, de l trazendo, imediatamente, cargas sob as quais vergavam, sem, contudo, encurtar o passo.

Vislumbrava-se um resto de crepsculo, ainda quando o grosso da coluna chegou. Foi este o momento do atropelo e da balbrdia: tantos objetos se avistavam sem dono, 
misturados e fadados  destruio. Cada qual tomou o seu quinho, sendo exatamente os menos beneficiados aqueles que  presa tinham mais direito, pois o haviam conquistado 
sob o fogo inimigo e guardado, como propriedade pblica, at o momento da depredao geral. Era este saque, alis, legitimo, e no se teria podido, sem manifesta 
injustia, recusar tal prazer aos soldados, que o haviam comprado e adiantado por uma srie de meses de privaes e fome.

Das oito ou dez casas da Machorra, duas estavam reduzidas a cinzas pelo fogo que os prprios paraguaios lhes haviam posto. Foram as outras preservadas pelos nossos 
soldados. Alguns pedaos do madeiramento, alguns moures abrasados serviam para cozinhar as batatas, a mandioca e as aves do inimigo. A Machorra, denominada fazenda 
do marechal Lopez, no passava realmente de terra usurpada, cultivada por ordem sua, alm da fronteira.

O trabalho dos invasores, frutuoso como fora, vinha acrescer ao banquete a satisfao de um sentimento de reivindicao nacional. Autorizou-o o Coronel com um ar 
prazenteiro que jamais at ento lhe percebramos.



CAPTULO VIII

Ocupao de Bela Vista. Devastaes dos paraguaios em torno da coluna. Tentativa de negociaes. Seu malogro. Tornam-se os viveres escassos. Marcha sobre Laguna.

 dia seguinte, 21 de abril, s 8 da manh, deram os clarins do quartel-general o toque de marcha: nada menos significava do que transpormos a fronteira, entrar 
em territrio paraguaio e atacar o forte de Bela Vista, que, deste lado,  a chave de toda aquela regio. No havia quem no compreendesse o alcance da operao, 
redobrando por este motivo a animao geral. Cada qual envergara o mais luzido uniforme; e como as nossas antigas bandeiras no prestigiasse ainda feito notvel 
algum, foram substituidas por outras, cujas cores vivas se destacavam no cu formoso das campinas paraguaias.

Deixando a Machorra, adotara-se a ordem compacta. Dos dois lados da coluna, e para lhe facilitar o movimento, os atiradores, que a flanqueavam, cortavam a macega; 
pois mudara a natureza do terreno. No mais tnhamos a grama curta e fresca dos prados que acabvamos de atravessar. Estava o solo coberto desta perigosa gramnea 
que atinge a altura de um homem, e a que chamam macega, e cujas hastes duras e arestas cortantes tornam, em muitos lugares do Paraguai, a marcha to penosa. Transpusemos 
o Apa em frente  Bela Vista; o 20. de infantaria de Gois formava a vanguarda, sob o comando do capito Ferreira de Paiva. Avanando  frente dos batedores, a 
quem comandava, jovem e valente oficial, de nome Mir, fadado  morte prxima, vamos o velho Lopes, apressurado, montando belo cavalo baio, um daqueles animais 
que o filho e os companheiros deste haviam tomado aos paraguaios.

Estava no auge da alegria, o olhar como o de um rapineiro, a fitar Bela Vista, que comevamos a avistar. De repente, no momento em que acabvamos de chegar ao seu 
lado, percebemos que a fisionomia se lhe anuviara: "A perdiz, disse-nos, voa do ninho e nada nos quer deixar, nem os ovos". Mostrava ao mesmo tempo tnue fumo que 
subia aos ares. "So as casas de Bela Vista que incendiaram".

Foi a noticia levada ao Coronel que, avisado tambm por um sinal do alferes Porfirio, do batalho da frente, fez acelerar a marcha. Comeamos a correr, precipitando-se 
a linha dos atiradores do 20. para o rio; mas a sua frente j se antecipara pequeno grupo de que fazia parte o nosso guia. Com grande espanto nosso no pareciam 
os inimigos pretender disputar-nos o passo; retiravam-se do Apa como j se haviam afastado da Machorra, indo estacar a uma distncia bastante grande, imveis sobre 
os cavalos.

Cabia-nos, pois, o feliz ensejo de ser os primeiros a atravessar a fronteira, pisar  esquerda do Apa e sentir sob os ps o solo paraguaio. 

Transposto o rio, galgamos num pice uma eminncia que nos ficava fronteira, e nos proporcionou a vista prxima da fortaleza e da aldeia: ambas ardiam. Pelo interior 
e vizinhana vagavam ainda paraguaios a p, retardados pelo pesar da presa que nos abandonavam e a ira que os levava a tudo devastar. Outros, em maior nmero, e 
 cavalo, retiravam-se desordenadamente.

Ps-se o nosso guia a provoc-los com assobios e apstrofes de desprezo, ante as quais difcil nos foi conter o riso. Teriam podido volver sobre ns estes robustos 
cavaleiros, e com as possantes montarias e pesados sabres facilmente destroar o nosso pequeno grupo, a meio montado e mal armado, como nos achvamos.

Mas tal idia no nos ocorria e a Lopes ainda menos. Este intrpido velho quase sempre nos precedera na carreira, a galope; e por mais esforos que fizssemos, a 
todo o instante redobrava de velocidade, pensando na mulher, duas vezes agarrada e arrastada prisioneira para o Paraguai, em todos os seus, nos amigos e companheiras 
de existncia, com ela prisioneiros. Mil recordaes de atrocidades antigas e recentes lhe incutiam violenta sede de vingana.

Uma vez efetuada a passagem pelo corpo de exrcito, o forte, que apenas consistia em slida estacada de madeira, foi ocupado, assim como a vila, por grande destacamento. 
A linha de atiradores do 20. batalho, formada  esquerda, ps-se em movimento para ir atacar os paraguaios imveis. Vimos, ento, que haviam arvorado alguma coisa 
branca. No tardamos, porm, a perceber que se afastavam devagar, tendo em mente, atrair-nos para algum mato, onde caro pagaramos excesso de confiana em sua lealdade. 
Soubemos tarde que tal lhes fora, com efeito, o plano. Acreditavam precisar de algumas vitimas para coonestar uma retirada por demais precipitada e que no podia 
deixar de atrair a clera dos chefes fossem quais fossem, alis, as ordens deles recebidas.

Assim se passou 21 de abril; os dias imediatos consagramo-los ao repouso e exame da situao. Todo o corpo de exrcito transpusera a fronteira e acampara ao sul 
da fortaleza, ali apoiando a ala direita, ao passo que a esquerda se prolongava pela mata do rio. Reinava, ento, no acampamento abundncia de vveres frescos. Deles 
tnhamos a maior nccessidade; e a nossa gente pde gozar dos ltimos bons momentos que a sorte nos reservara. Parecia nosso chefe mais sereno do que habitualmente, 
mostrando-se at confiante. Comeou qualificar a coluna expedicionria: Foras em operaes Norte do Paraguai e todos os seus ofcios, como alis, imita-lo, todas 
as nossas cartas, destinadas a Mato Grosso, Gois e ao Rio de Janeiro (confiadas a Loureiro, que ento de ns se despediu) traziam no sobrescrito: Imprio do Brasil.

No entanto, do alto do morro da Bela Vista, viam-se de dia numerosos cavaleiros inimigos, de sentinela ao p de grandes buritis.  noite ousavam alguns acercar-se 
do acampamento ainda mais.

Esta contnua vigilncia tanto mais nos incomodava, quanto tambm tinha em vista subtrair do nosso alcance o gado da campina, sempre que as nossas guardas avanadas 
pareciam querer captur-lo. E a nossa inquietao a tal respeito crescia sempre. Haviam os refugiados exagerado a facilidade do abastecimento nestas pastagens; nada 
vamos do que nos fora anunciado; e at mesmo dois dias depois de nossa chegada a Bela Vista, ordenando o Coronel um rodeio, protegido pelo 21. batalho, e levado 
a mais de uma lgua, dai se no auferiu  resultado algum. Ficamos todos convencidos de que nada havia a esperar, pelo menos agora, de tentativas neste gnero. Se 
 exato que os paraguaios haviam desaparecido ao avistarem os nossos, desde o dia imediato estavam de novo no posto, ao p da palmeira. 

Quase insultuosa chegava a ser tal permanncia. Poderamos livrar-nos dela atirando algumas granadas, mas pensamento diverso veio contrariar esta ideia, inclinando-se 
o esprito do comandante a outra ordem de sugestes.

Neste pressuposto fez partir, escoltado pelo 17. Batalho, um oficial parlamentrio, portador de proclamao escrita em espanhol, portugus e francs, que se fincou, 
presa a uma bandeirola branca, a lgua e meia do acampamento.

Assim se redigia:
"Aos Paraguaios:

Fala-vos a expedio brasileira como a amigos. No  seu intuito levar a devastao, a misria e as lgrimas ao vosso territrio. A invaso do Norte como a do Sul 
de vossa Repblica significa apenas uma reao contra injusta agresso nacional. Ser conveniente que venha um de vossos oficiais entender-se conosco. Poder retirar-se, 
desde que assim entenda; e bastar que manifeste simplesmente tal desejo. Jura o comandante da expedio pela honra, pela santa religio professada por ambos os 
povos, que todas as garantias se oferecem ao homem generoso que em ns confiar. Disparamos tiros de pea como inimigos, queremos agora nos entender como amigos reconciliveis. 
Apresentai-vos empunhando a bandeirola branca e sereis recebidos com todas as atenes que os povos civilizados, embora em guerra, mutuamente se devem".

A resposta, no dia seguinte encontrada, fora traada sobre um papel preso a uma varinha e era do teor seguinte:

"Ao Comandante da expedio brasileira:

Estaro os oficiais das foras paraguaias sempre atentos a todas as comunicaes que se lhes quiserem fazer; mas no atual estado de guerra aberta entre o Imprio 
e a Repblica, s de espada desembainhada poderemos tratar convosco. No nos atingem os vossos disparos de pea e quando tivermos ordens de os obrigar a calar, h 
no Paraguai campo de sobra para as manobras dos exrcitos republicanos".

Era a letra de mo firme e corrente. Apunha-se-lhe o selo da Repblica: barrete frgio por sobre um leo rampante.

As frmulas empregadas em tal resposta atestavam certo grau de cultura intelectual e boa educao. Mas veio logo o insulto. Recebeu o comandante uma folha de couro 
na qual se estampavam os seguintes versos, mais grosseiros do que ingnuos:

"Avana, crnio pelado!
Mal-aventurado general que espontaneamente
Vem procurar o tmulo".

A isto se ajuntava:

"Crem os brasileiros estar em Concepcin para as festas; os nossos ali os esperam com baionetas e chumbo".

Bravatas sem alcance, nada tendo de srio. Mas o que o era, e no mais alto grau, viam-no todos, vinha a ser a impossibilidade de nos abastecermos. O 21. batalho 
mandado novamente, a 27, para ajuntar e trazer gado, nada conseguira; e embora a ningum perdesse numas escaramuas de cavalaria, voltava com a triste certeza de 
que a regio estava para conosco nas disposies as mais negativas e hostis.

Assim, pois, tomou o comandante a resoluo de manter, por algum tempo, na Bela Vista; e numa expedida pelo viajante Joaquim Augusto, que determinou que a Nioac 
lhe enviassem munies, a bagagem dos soldados e o arquivo da coluna. Avisara aos oficiais que, a seu turno, deviam mandar vir tudo quanto haveriam de precisar para 
uma assaz larga estada. Mas a falta de gado tornava insustentvel a prpria posio de Bela Vista. Comevamos a sentir a penria nas distribuies de viveres. Era 
preciso sem mais detena procurar uma soluo ou avanar na esperana de bater o inimigo, que,  nossa frente, no podia ter grandes contingentes, visto como a guerra 
ao Sul da Repblica para ali atraira a maior parte das suas foras (e ento, aps algum feito feliz, teriam as nossas patrulhas mais largo raio de ao sobre o gado 
errante nas campinas); a no ser assim convinha retrogradar para os distritos da fronteira, menos desprovidos de recursos.

Esta alternativa, semelhante opo, veio por completo arrancar a calma ao nosso comandante. Tornou-se-lhe a agitao do esprito visivelmente violenta. Ps-se de 
novo a imaginar a calnia a abocanh-lo em toda a provncia de Mato Grosso, sobretudo na capital, e assim, pois, como a refletir, em voz alta, deixava escapar exclamaes 
que debalde tentava sufocar: "Por toda parte me atassalham, dizia, apregoam que at agora nunca tivemos encontro srio com o inimigo e apostam que jamais o teremos".

Nesta perturbao e  falta de dados exatos para a escolha de um alvitre, os refugiados, indiretamente consultados, comearam, com maior insistncia do que at ento 
o haviam feito, a falar de uma fazenda chamada Laguna, cerca de quatro lguas de Bela Vista, pertencente aos domnios do Presidente da Repblica e destinada  criao 
do gado.

Ali acharamos, afianavam, grandes rebanhos, posies firmes e base para operaes. Depois, como esta sugesto no parecesse desgostar ao Coronel, vrios oficiais 
que o cercavam, e a quem parecia consultar, deixaram convencer-se. "Por que, exclamaram, no haveremos de ir at Concepcin como nos desafiam? Viemos parar to longe 
para recuar? Contanto que possamos contar com um quarto de rao, no h um nico soldado que hesite em seguir os chefes, e com eles no deseje tentar a fortuna 
do Brasil".

 testa dos mais ardentes via-se o capito Pereira do Lago, oficial to ousado quanto positivo e obstinado. Dotado desta coragem que facilmente se exalta, e jamais 
decai do nvel a que se alou, coube-lhe, certamente, a maior responsabilidade nas nossas temeridades. Mas, tambm, soube sempre, mais tarde, nos transes mais difceis 
de nossa retirada, fazer frente a todas as necessidades do momento, pela atividade, poderosa iniciativa e perspiccia do descortino, grandes qualidades que lhe vinham 
realar a doura, a singeleza e o bom gnio.


CAPTULO IX

Ordem de marcha. Formatura do corpo expedicionrio. O mascate italiano. O major Jos Toms Gonalves.
Surpresa e tomada do acampamento paraguaio da Laguna.

Acabara o coronel Camiso de determinar que marcharamos sobre a Laguna. A 30 de abril levantamos acampamento para estacar  margem do Apa-Mi, ribeiro que dista 
uma lgua do forte da Bela Vista.

Pareciam os soldados ressentir-se da insuficincia do rancho. Corria a marcha silenciosa e como ensombrecida pela tristeza. Para a animar ordenou-se que as cornetas 
de todos os corpos alternadamente tocassem; e a tropa gostou disto. Era como um desafio, uma provocao lanada aos paraguaios, que de longe viam seguir a coluna.

Avanavam os nossos diferentes corpos em quatro divises distintas, formadas na previso dos ataques de cavalaria que, com efeito, deveramos esperar. Em conselho 
de guerra, anterior  nossa ocupao de Bela Vista, fizera o Coronel adotar uma ordem de marcha apropriada  feio da zona atravessada e da campanha. Propusera, 
ao mesmo tempo, duas disposies de defensiva para duas hipteses: de plancie descampada, ou coberta de capes de mato, combinaes de grande simplicidade que, 
na prtica, nos prestaram grandes servios, obstando qualquer confuso ao se travarem os combates. Se, realmente, foram em geral as cargas da cavalaria inimiga frouxas 
e impersistentes,  de se supor, contudo, que o seu nico fito no vinha a ser simplesmente avaliar-nos a resistncia. Poderia um primeiro momento de hesitao, 
ser sempre decisivo e trazer-nos o completo destroo.

No caso, pois, em que estivssemos pelas proximidades de alguma moita, ou cerrado, ou ainda de algum ribeiro, devamos convergir para este amparo natural, nele apoiar 
as carretas de munies e de feridos, com as bagagens, e cobrir-lhes a testa com uma curva formada pelas quatro divises da coluna, levando cada uma a sua boca de 
fogo. Em campo raso e desabrigado formariam estes corpos, sempre alternados com as peas, quadrado em volta do nosso material. Em todo o caso deviam os comandantes 
ser avisados pelos ajudantes-de-campo ou por prprios, da formatura escolhida, de acordo com as circunstncias.

Primeiro de maio. Aps uma noite tranqila recomeamos a marcha, e sem incidente, at a fazenda da Laguna, a localidade designada pelos nossos refugiados do Paraguai. 
Ali havia, ento, apenas uma choupana de palha que o inimigo, retirando-se, desdenhara incendiar. Ao chegarmos vimos um dos nossos soldados dirigir-se ao nosso encontro 
trazendo um papel que achara pregado, com um espinho, ao tronco de uma macaubeira; variante da primeira ameaa em verso. Dirigida ao comandante, assim dizia: "Malfadado 
o general que aqui vem procurar o tmulo; o leo do Paraguai, altivo e sanguissedento, rugir contra qualquer invasor".

Domina este planalto vasta extenso de terras, como que convidava o Coronel a que ali acampasse; mas ainda desta vez fizeram os refugiados preponderar a sua opinio 
que era a seguinte: sem mais detena, nos dirigssemos exatamente para o centro do estabelecimento, onde, mais facilmente, poderia o gado ser rodeado e cercado. 
A vista disto resolveu-se que a marcha prosseguiria, indo-se, sem que dai proviesse nenhum dos resultados acenados, acampar a meia lgua dali, num terreno triangular 
de marga nitrosa, entre dois regatos que confluem antes de se lanar no Apa-Mi; e onde os rebanhos, atraidos pelas propriedades salinas do solo, costumam 
geralmente concentrar-se na estao das grandes cheias:  lugar denominado Invernada da Laguna.

Mostrou-nos o primeiro relance de olhos que, tanto ali como em qualquer parte, o inimigo nos cerceava sobretudo os viveres. Ao colocarmos guardas avanadas pudemos, 
a certa distncia, divisar um acampamento paraguaio dispondo de grande boiada e cavalhada tangida para o Sul, enquanto a sua vanguarda nos vigiava os movimentos. 
Que podamos fazer sem cavalaria?

No entanto os dias 2 e 3 se empregaram em diversas tentativas para a obteno de gado ou pelo menos para surpreender algumas sentinelas de quem se pudesse obter 
informaes sobre o estado do interior da Repblica. Malogrou-se-nos, contudo, o duplo intuito.Quanto  grande boiada que avistramos, desaparecera. Fizemos ainda 
algumas avanadas em busca dos animais tresmalhados em tais pastagens. Ainda nos falhou este expediente precrio. No dia da chegada, tivera o 21. batalho a sorte 
de apanhar apenas umas cinqenta cabeas, malgrado os esforos dos cavaleiros inimigos, que nada pouparam para lhas retomar. Nenhuma outra batida pelos arredores 
teve resultados; muito embora para tal servio partissem os demais corpos, uns aps outros. O que deste trabalho penoso lucramos foi que levando nossos soldados 
sempre vantagens nas escaramuas parciais que dai provieram, completou-se-lhes a educao militar no fogo, sem demasiados sacrifcios. No s ganharam confiana 
em si como nos chefes.

A 4 vimos chegar ao acampamento um mascate italiano, Miguel Arcanjo Saraco, que de Nioac viera, seguindo-nos as pegadas, com duas carretas de provises, recurso 
para ns insuficiente. Passara o Apa, atravessando as trs e meia lguas que nos separavam, acompanhado de um nico camarada que o ajudava a conduzir os veculos. 
O maior terror o perseguira durante todo o trajeto; mas a ele contrapusera o inato pendor para o cmico. Por uma fantasia armada para se incutir coragem, rodeara-se, 
contava-nos, de imaginrios batalhes a quem, de tempo em tempo, dava ordens em voz alta, simulando manobras. Entre outras cenas deste gnero relatava que s dez 
horas de uma noite trevosa, ao transpor o Apa-Mi mandara, com todo o flego dos pulmes, cruzar baionetas,  vista de um capo de mato que lhe inspirava receios.
No meio da alegria da chegada, e das emoes de toda a natureza, no esqueceu, contudo, a noticia positiva, afirmava, da aproximao de longa fila de comboios a 
que se adiantara, e rodava pela estrada de Nioac ao Apa, apesar de todos os perigos de uma linha de perto de trinta lguas a percorrer em completo descampado. Seja-nos 
relevada esta diverso cmica no momento de encetarmos a narrao de cenas sempre dolorosas. Traria esta mesma noite srio motivo de inquietao. Verificara-se a 
ausncia de um soldado do batalho de voluntrios. Este miservel, de ndole viciosa e semi-imbecil, havendo roubado a um dos camaradas, furtara-se ao castigo desertando. 
E sobejas razes tnhamos de recear que o comandante paraguaio por ele viesse a ter informaes, as mais completas, sobre a nossa falta de viveres e a necessidade 
em que j nos achvamos de bater em retirada.

E efetivamente tivera o Coronel de dar neste sentido ordens impostas pela necessidade. No sabemos se ainda tentava engodar a si prprio como procurava faz-lo em 
relao a ns outros, ao qualificar o movimento retrgrado de contramarcha sobre a fronteira do Apa, para ali ocuparmos forte base antes de prosseguir na invaso 
do Paraguai. No houve, porm, quem se iludisse. Principiava a retirada.

Pretendeu pelo menos disfar-la com algum brilhante feito d'armas, pois punha empenho em demonstrar aos inimigos, aos do Brasil e aos pessoais, que se retrocedamos 
no era porque a tanto estivssemos forados pela superioridade do adversrio. Conhecendo a excelente disposio de nossa gente, resolveu apossar-se do acampamento 
paraguaio; e para a execuo deste assalto designou o 21. de linha e o corpo desmontado de caadores. Fixara-se a manh de 5 para esta ao; no entanto s se realizou 
um pouco mais tarde.

A causa de tal demora foi que, exatamente nesta mesma noite, s nove horas, tremendo furaco se desencadeou sobre o acampamento. Torrentes de chuva transformaram 
logo o solo em lamacento pantanal. No so raros no Paraguai estes terrveis fenmenos; jamais vramos, porm, coisa igual. Os relmpagos que continuamente se cruzavam, 
os raios que por todos os lados caiam; o vendaval a arrebatar tendas e barracas, formaram um caos a cujo horror se uniam, de tempos a tempos, os disparos de nossas 
sentinelas contra os diablicos inimigos que, apesar de tudo, no cessavam de aferretoar-nos: interminvel noite em que para ns tudo representava a imagem da destruio. 
A merc de todas as cleras da natureza, sem abrigo nem refgio, quase nus, escorrendo gua, mergulhados at a cinta em correntezas capazes de nos arrebatar, ainda 
precisavam os nossos soldados preocupar-se em subtrair da umidade os cartuchos. Veio a manh encontrar-nos em tal situao. Dois dias mais tarde, contudo, antes 
dos primeiros albores, e apesar de se haver renovado a tormenta daquela noite, puseram-se em movimento os dois corpos designados.

Era o comandante do 21. um major em comisso, por nome Jos Toms Gonalves, homem resoluto e audaz, alm de tudo popular, tanto pelo mrito como pela estima que 
facilmente conquista uma fisionomia aberta e simptica. Haveremos de v-lo  testa da nossa expedio, aps a morte do coronel Camiso, guiando-a ao termo desejado.

Gozava o comandante do corpo de caadores, capito Pedro Jos Rufino, de grande reputao de bravura e atividade. Se alguma coisa devssemos recear, era o excesso 
de ardor por parte de ambos, a comprometer a empresa; e assim deitar a perder toda a coluna. Foi, pelo contrrio, a reunio de tais qualidades que facilitou o xito 
de uma combinao a que o comandante, com razo, ligara o maior apreo. 

Ignorvamos com que foras iam eles medir-se. Fornece o Paraguai menos espies ainda do que guias; e por falta de cavalos no pudramos efetuar reconhecimentos.

Nada vramos ou ouvramos, rudo, poeira ou fumaa, que nos permitisse presumir da chegada de reforos inimigos. Ns lhes reconhecamos, contudo, a habilidade em 
encobrir os movimentos considerveis de tropas. Assim, pois, deu o coronel ordens para que os oficiais, comandando a coluna de ataque, s entrassem em fogo quando 
o corpo de voluntrios estivesse em condies de os sustentar.  hora aprazada, destacou este corpo com uma das peas de nosso parque em direo ao acampamento inimigo.

Neste entrementes, aps grande rodeio, e a travessia de uma lgua de banhado, chegara a tropa do major Gonalves s posies dos paraguaios. Era noite ainda, uma 
hora antes do nascer do Sol; e tudo se fizera no maior silncio. Verificou-se, ento, que a bateria inimiga fora ali assestada para defender a passagem do fosso. 
Na posio que lhe fora marcada, teria Jos Toms Gonalves, desde o romper da alva, de sofrer o fogo do inimigo. Assim, pois, compreendendo que no havia um momento 
a perder, mandou calar baionetas sobre os canhes; investida favorecida pela negligncia do inimigo. E, realmente, de toda a cavalaria acumulada por trs do entrincheiramento 
no havia uma s patrulha para a guarda das peas.

A toque-toque chegou nossa infantaria sobre os canhes, sem deixar tempo aos seus animais de tiro de no-los subtrair. Forou-se num pice a entrada do acampamento, 
mal defendido contra a impetuosidade desta surpresa, havendo o capito Jos Rufino e os seus caadores tambm entrado em ao. Penetraram todos de roldo no recinto, 
levando e derribando quanto pela frente encontravam, no acanhado recinto em que oficiais e soldados, homens e cavalos, mutuamente se embaraavam, tratando muito 
menos de resistir do que de escapar para o campo. Tudo o que no foi morto ou ferido, salvou-se pela fuga.

Estas boas noticias, trazidas por um prprio, encontraram-nos no alto de um cmodo que domina a plancie e para onde se encaminhara o comandante, com o seu estado-maior, 
a fim de poder fazer entrar em fogo toda a sua gente, se assim se tornasse necessrio.

Iluminados por uma aurora magnfica percebamos, aos nossos ps, os nossos soldados correndo pelo campo, para o local do combate; mais longe, os ndios Terenas e 
Guaicurus, que depois de se haverem comportado nesta refrega como bravos auxiliares, carregavam agora aos ombros os despojos dos cavalos tomados aos paraguaios. 
Haviam os comandantes deixado sua gente tomar um pouco de flego e como no recebessem, alis, a ordem de ocupar as posies e vissem, ainda, que o Coronel, sabedor 
do triunfo, no deixava a eminncia para vir ao encontro, pensaram que teriam de evacuar o posto recm-conquistado. Comeavam a mover-se em nossa direo, quando 
os paraguaios, rpidos como cossacos, trouxeram a todo o galope a sua artilharia, ento sustentada por numerosa cavalaria.Abriram o fogo at que de nosso lado, entrando 
em linha todo o nosso parque, com as boas pontarias feitas pelos nossos oficiais, tivessem de calar-se, aps alguns disparos.

O pequeno nmero de baixas que tivemos, as perdas considerveis dos paraguaios, sua inferioridade no combate em relao a ns, demonstrada pelos fatos, restabeleceram 
a calma, incutindo ao esprito do Coronel uma apreciao mais exata das circunstncias e das coisas. "Estes selvagens, exclamou, que a tanta gente assassinaram e 
tanto assolaram esta regio, quando indefesa, no mais diro que os tememos. Sabem que dentro do prprio territrio, podemos obrig-los a pagar o mal que nos fizeram. 
Vamos  fronteira aguardar algumas probabilidades de nos abastecer e gozar de pequeno repouso que me no poder ser exprobrado". 



CAPTULO X

Retrocesso sobre o Apa-Mi. Escaramuas e combates com a cavalaria inimiga que envolve completamente a coluna.

amos, apesar de tudo, encetar a retirada. Sabia o inimigo que os movimentos de nossa coluna, fosse qual fosse o sentido tomado, tinham motivos a que era alheia 
a sua superioridade militar sobre ns. O combate que nos entregara o seu acampamento abatera-lhe a presuno, elevando ao mesmo tempo a confiana de nossa gente, 
em si prpria,  altura das provaes que o futuro nos reservava, assim como das que j experimentramos.

Era indispensvel a vantagem obtida sobre os paraguaios para que a realidade de nossa situao se fizesse, sem murmurao, aceita dos nossos soldados, distraindo-os 
da imprevidncia causadora de to premente momento. Fcil sem dvida achar pretextos para a falta de vveres, tendo as informaes dos refugiados podido iludir-nos 
acerca dos recursos da regio, mas a insuficincia de munies, logo em comeo de campanha, no podia deixar de constituir motivo de injustificvel censura pelo 
fato de que tudo de antemo devera estar calculado pelos nossos chefes, muito embora os exaltassem o entusiasmo, a paixo da glria e o amor da Ptria.

Quando, no dia seguinte, 8, o Sol se levantou, era um dia dos mais serenos, j estvamos em ordem de marcha com as mulas carregadas, os bois de carro nas cangas, 
e tudo quanto restava de gado encostado ao flanco dos batalhes, de modo a seguir todos os movimentos da coluna.

As sete da manh, o corpo de caadores desmontados, a quem competia o turno da vanguarda, abriu a marcha, tendo a seguir bagagens e carretas, circunstncia que nos 
impediu de transpor facilmente um riacho avolumado pelas chuvas dos dias antecedentes. Caindo um de nossos canhes  gua s o tiramos com grande dispndio de tempo 
e esforos. Nesta ocasio os mpetos de sofreguido do coronel Camiso ameaaram reproduzir-se. Conseguiu, contudo, refre-los; e desde a jamais lhe notamos vestgios 
sequer da antiga agitao; e sim, unicamente, uma solicitude sempre devotada  salvao comum.

Avanvamos em boa ordem quando subitamente viva fuzilaria se fez ouvir: era a nossa vanguarda que renteando um capo de mato fora atacada por uma partida de infantaria, 
ali emboscada. Tinham algumas balas vindo cair por cima das fileiras num grupo de mulheres que marchavam tranqilamente ao lado dos soldados; tal algazarra provocaram 
que no sabamos o que poderia ter sucedido. Pouco durou este terrvel tumulto; investindo resolutamente com o inimigo, nossa gente o desalojou impelindo-o at o 
primeiro declive do planalto, onde estava a fazenda da Laguna. Mas ali formaram-se os paraguaios novamente, resistindo algum tempo, achegando-se logo depois, passo 
a passo, dos cavalos; afinal, enquanto alguns, j montados, disparavam, a todo dar de rdeas, outros fingiam resistir para proteger os camaradas que fugiam a bom 
fugir, inteiramente derrotados.

Continuando a simular esta desordem aparente, pela qual procuravam separar-nos uns dos outros, o mais que pudessem, vimo-los, pouco a pouco, estacar com mais freqncia, 
sempre mais numerosos,  medida que os reforos lhes chegavam. Ao mesmo tempo o nosso corpo de caadores, contra eles lanado, cada vez mais se isolava do resto 
da coluna. Redobrou, ento, de intensidade a fuzilaria. 

O capito Pedro Jos Rufino, que  testa dos caadores atravessara o ribeiro, depois da bagagem, e se encontrava mais perto da vanguarda, embora ainda bastante 
longe, percebeu logo o estado de coisas. Depois de expedir um oficial para pedir socorros, deu voz de avanar; e ele prprio atirou-se, sem atentar a quem o acompanhava, 
ao ponto do mais renhido entrevero. Chegou no momento em que os paraguaios, aps todas as suas evolues de cavalaria, simulando a fuga para depois ganharem terreno, 
subitamente voltaram, carregando furiosamente. A principio surpresos, e algum tanto perturbados, mas logo confiantes  voz de Rufino, formaram os nossos quadrado 
em torno dos oficiais, segundo a ordem recebida; e destes grupos, fora dos quais s havia morrer miseravelmente, sob o sabre e a lana, despejaram-se descargas acompanhadas 
de aclamaes estrepitosas.

Enfim, cerrando fileiras, retomaram os caadores movimento para a frente no meio deste turbilho de homens e cavalos, para se encostar aos capes de mato aqui e 
acol, se viam pelo campo. Encarniada onde, de ambos os lados, muitos mortos e feridos.

O imediato do corpo de caadores, Antnio da Cunha deveu a vida  dedicao de um dos seus soldados. Deu-se em outro ponto um episdio freqentemente relatado mais 
tarde. Parecia o capito Costa Pereira o alvo dileto dos assaltos de possante cavalariano; quis com isto e, abrindo espao, lanou-se fora do movido de tal mpeto 
que o adversrio, intimidado, deu de rdeas a fugir, com grande aplauso dos nossos.

Neste nterim chegara, a toque-toque, o reforo pedido por Jos Rufino; e isto precisamente quando lhe iam os cartuchos acabar. Trazia um canho a primeira companhia 
que entrou em linha; e uma de suas granadas foi arrebentar no ponto em que mais se adensavam os assaltantes. Esta arma, introduzida inesperadamente na ao, produziu 
o costumeiro efeito. Espalhou imediatamente a desordem na tropa j abalada pela apario do socorro; e toda a cavalaria paraguaia desapareceu, deixando um segundo 
acampamento em nosso poder. Custou-nos isto quatorze mortos e muitos feridos.

Entre estes ltimos no podemos esquecer um jovem soldado, Laurindo Jos Ferreira, que, cercado por quatro inimigos e apenas tendo o fuzil para se defender, todo 
golpeado de sabraos, com a mo esquerda atingida, brao direito profundamente retalhado em diversos lugares e o ombro quase arrancado por um lanao, assim mesmo 
se no rendeu. S muito mais tarde veio a restabelecer-se de tantas feridas; a firmeza na ambulncia em nada lhe desmentira a bravura ante o inimigo.

Fra o pessoal do nosso servio mdico muito perseguido pelas febres palustres de Miranda. Haviam-nos deixado vrios de seus membros; alm de tudo as nossas caixas 
de cirurgia e de farmcia tinham-se todas perdido ou deteriorado, devido aos acidentes da viagem.

Puderam, contudo, os nossos feridos receber ainda todos os socorros de que precisavam, graas aos esforos da engenhosa humanidade de que foram alvos. Superintendera 
o comandante, sempre, este servio, e tivramos a felicidade de conservar dois hbeis clnicos, os doutores Quintana e Gesteira. Pertencia este ltimo ao corpo empenhado 
no embate de 6, e, sob as balas, dera provas de dedicao e sangue-frio, como verdadeiro discpulo do grande Larrey.

Os cadveres paraguaios no arrastados pelo lao dos compatriotas foram, todos, achados mutilados e de modo hediondo. A propsito de tais profanaes fez o Coronel 
violentas exprobraes aos ndios, acenando-lhes at com a pena capital, se acaso, dai em diante, desrespeitassem os mortos. Tais a sua indignao e o pavor aos 
selvagens incutido, que at o fim da campanha, ficamos livres de semelhante espetculo, e isto quando j o nosso chefe deixara de existir.

Juntando o exemplo s palavras fez o coronel Camiso inumar, sem exceo, todos os corpos achados no campo de batalha, com o zelo da escrupulosa piedade que tanto 
era da sua ndole. Duas horas se consagraram  triste contingncia de entregar os nossos infelizes patrcios  terra inimiga. Que tristeza v-los assim desaparecer; 
e que choque no deveria ter sentido um de nossos oficiais ao fazer questo de sepultar, ele prprio, o irmo mais moo, Bueno, voluntrio paulista!

Cumprido este dever, recomeamos a marcha, desta vez seguindo a ordem recentemente adotada. 

Dera-se uma pea ao corpo de caadores, que ainda formava a vanguarda; o 17. batalho, dos voluntrios de Minas, que tambm tinha um canho, compunha a retaguarda. 
No centro, o 20. batalho e o 21.o, cada qual com a sua boca de fogo, escoltavam,  direita e  esquerda, a bagagem flanqueada de duas filas de carretas puxadas 
por bois. O conjunto desta massa movedia parecia um grande quadrado que, em cada face, tinha um menor diante de si; judiciosa formatura para nos proteger das cargas 
de cavalaria; porquanto podiam as quatro frentes ser varridas pelo fogo cruzado de nossa infantaria. Enfim, para maior segurana, linhas de atiradores circulavam 
em torno do corpo do exrcito. Desde este primeiro dia verificou-se quo vantajosa era tal disposio porquanto estava a cavalaria inimiga, por toda a parte, em 
torno de ns:  frente, sobre os flancos; atrs, ora longe, ora quase a nos tocar. Nossos soldados, marchando sempre, afastavam-na por meio de descargas, freqentes, 
e tanto mais proficuas quanto ao resultado quanto mais se aproximavam os paraguaios. Algumas de suas balas tambm atravessavam as nossas fileiras, mas sem grande 
dano pela incerteza do tiro disparado a galope. Entretanto, acabaram as balas de artilharia por visitar-nos.

Atravessvamos, ento, o terreno lamacento, fundo, de plancie cortada de estreitas esplanadas, paralelos umas s outras, e uma pea paraguaia de 3, sucessivamente 
assestada nestes pontos, abriu fogo contra ns; mas, ou porque a sorte neste particular ao menos nos favorecesse, ou graas  inexperincia dos artilheiros inimigos, 
iam-lhe os projetis enterrar-se na lama que nos rodeava; ou, ento, os menos inofensivos caiam no meio do nosso gado com mais estrpito do que prejuzo.

Os nossos soldados, cuja primeira impresso fora bastante viva, no tardaram a rir do que viam e at as prprias mulheres acharam nisto assunto de mofa comparando 
estas balas, que faziam repuxar a gua, aos limes-de-cheiro do velho carnaval brasileiro. Demais tinhamos boa rplica  "palavra do bronze"; da linguagem imaginosa 
do velho Lopes.

Ainda neste dia no desmentiu a nossa artilharia sua superioridade. As nossas peas raiadas de calibre 4, La Hitte, bem assentes, perfeitamente slidas, eram manobradas, 
com a maior regularidade, por suas guarnies que, desde o Taboco, com elas se exercitavam. Havia entre elas bons artilheiros.  preciso acrescentar os nossos oficiais 
da arma de artilharia, to hbeis quanto bravos, todos dignos mulos uns dos outros, cada qual se esforava por melhor manobr-las: Joo Toms Canturia, Marques 
da Cruz, Napoleo Freire e Nobre Gusmo. Tal porfia sobremodo interessava aos soldados, incutindo-lhes ardor novo cada tiro que bufam ao seu artilheiro predileto. 
Assim caminhamos dia todo num caos de fumaa e poeira, com grande trpito, e no meio das aclamaes dos nossos, de agudos e ferozes do inimigo, mugidos do gado, 
da plvora, desordem dos homens e das coisas.

Declinava o Sol quando percebemos distintamente morro da Margarida, o mesmo que j de outro ponto observramos do forte de Bela Vista, marco de reconhecimento que 
desta vez nos brilhou aos olhos com um raio de esperana. Fizramos duas e meia lguas sob o fogo continuo e cansativo, muito embora pouco mortfero.

A mata da margem do Apa-Mi ns a escolhramos para o pouso daquela noite. amos atingi-la quando verificamos que a bateria montada dos paraguaios desde muito se 
adiantara pela esquerda, achando-se agora postada em frente  nossa vanguarda. Varriam suas balas a margem onde amos ficar encurralados, pois havia pouco fora destruida 
a ponte ali existente. Era tempo que os nossos canhes, penosamente arrastados at o alto da eminncia aposta  que o inimigo ocupava, comeassem a fazer-se ouvir. 
No tardaram a obrigar que os paraguaios, cuja pea de 3 foi at desmontada, calassem  o fogo.
Este combate, que ps termo s refregas do dia, no durou menos de uma hora. No foram considerveis as nossas perdas, um morto apenas e alguns feridos. Podamos, 
pois, considerar como vantagem as provas que de sua firmeza, a proteger a bateria, nos dera o 20. batalho. Pareceu-nos o fogo paraguaio melhor dirigido do que 
at ento, mas nossa gente no arredou p. Eram, entretanto, simples recrutas valetudinrios, saidos de Gois, verdade  que comandados por valente oficial, o capito 
Ferreira de Paiva. Ficamos sabendo o que podiamos esperar da coragem e da abnegao de todos para o resto da retirada. Neste nterim, os membros da comisso de engenheiros 
estabeleciam a ponte. Trabalharam rapidamente, sob as vistas do comandante. Cumprimentou-os pelo servio e foi o primeiro a passar. Todo o resto da coluna o acompanhou 
sem maior detena e veio acampar  margem direita do Apa-Mi. Mas j patrulhas de cavalaria paraguaia, que haviam atravessado o rio, a jusante de ns, estavam a observar-nos.

Caira noite, profundamente escura. Estvamos estrompados de cansao, a vista escura e o esprito abalado por tantas e to variadas impresses cujas imagens acabavam 
por se confundir. No houve quem armasse tenda ou barraca. Dormimos em grupos, formados quase ao acaso, de trs, quatro ou mais, conchegados uns aos outros, cobertos 
em comum por capotes, ponchos, mantas, com quanto encontrramos; cada qual com o fuzil, o revlver ou a espada ao alcance da mo e o chapu desabado sobre os olhos, 
para se resguardar do orvalho, to copioso que tudo encharcava.


CAPTULO XI

Rebate falso. ltimas iluses. O tenente Vitor Batista. Passagem do Apa. Volta ao territrio brasileiro.

Algumas horas mais tarde, cerca de meia-noite, ouvimos horrvel fragor a que dominava um grito nico: Cavalaria paraguaia! Abriram fogo as sentinelas avanadas.

Tornara-se o acampamento teatro de geral balbrdia: tiros rasgavam a treva, deixando entrever formas fantsticas, ora de homens a empunhar o revlver ou o sabre, 
ora de animais, estes ainda mais perigosos, procurando por toda a parte como escapar, e numa excitao furiosa, ao passo que os seus guardas, no sabendo como os 
conter, pejavam os ares de imprecaes.

Alucinante terror se apoderara do gado no sitio em que estava preso. Averiguada a causa de tal pnico pusemo-nos todos a rir, tornando-se universal esta hilaridade. 
Est a vida da guerra cheia dos mais inesperados contrastes.

O extremo frescor das noites de inverno, na Amrica do Sul, mesmo entre os trpicos, obrigou-nos logo a voltar aos nossos improvisados abrigos onde as exigncias 
do sono reconquistaram todos os direitos durante as horas decorridas at o amanhecer.

Aos primeiros albores pusemo-nos novamente a marchar, expostos ao fogo da artlharia inimiga, mas sem que nos detivssemos em lhe responder. Levavam os nossos atiradores 
de vencida tudo o que diante deles achavam e no perdiam tiro. Haviam alguns cavaleiros inimigos cado, desde o comeo da fuzilaria e seus cadveres ficaram estirados, 
abandonados na estrada, no tendo seus camaradas tido tempo de os levantar e arrastar na carreira. Reconhecendo os nossos que um destes corpos era o de certo trnsfuga 
brasileiro, evadido de Nioac, muito antes da guerra, no foi possvel, apesar de todos os esforos dos oficiais, subtrair os despojos deste miservel ao furor dos 
soldados. A medida que pasmavam o golpeavam com a espada ou a baioneta.

Encaminhvamo-nos para as runas da Bela Vista. Abria-se diante de ns largo vale, quase plano, tendo  direita um renque de colinas de suave declive. Teria o inimigo 
podido aproveitar-se, contra ns, desta disposio do terreno; mas chegamos a tempo de a utilizar, ocupando a primeira destas eminncias. Dali o nosso fogo manteve 
os paraguaios a distncia, enquanto marchvamos, e nossas peas iam sucessivamente ocupar os pontos que melhor podiam cobrir-nos. Esta manobra, pela preciso com 
que foi diversas vezes repetida, levou-nos sos e salvos at um ltimo cabeo que domina o Apa e Bela Vista. Ali nos estabelecemos, naquela manh de 9.

L ainda ocupvamos a fronteira do Paraguai, embora batidos pelo pungente pesar de a deixar. To recentemente a haviamos atravessado, certos de realizar importante 
diverso, talvez at indispensvel  causa da Ptria!

Ns nos sentamos como corridos de vergonha, vendo nossas esperanas de glria to cedo desvanecidas. Escapara-nos a presa e no queramos ainda aceitar a absoluta 
necessidade de a abandonar. 

Assim, pois, iria confinar-se  regio dos sonhos a viso daquele territrio magnfico, aberto diante de ns, sob to belo firmamento? Dali nos era, pois, indispensvel 
sair, exatamente quando provramos superioridade em armas? Faltavam-nos, no havia dvida, as munies; mas de um momento para outro no poderamos receb-las? J 
no tinham, desde muito, sido pedidas a Nioac? - Acaso cheguem, explicava um oficial aos seus camaradas, o Coronel, que ainda se no conformou com o pronunciar a 
palavra retirada, ordenar logo nova ofensiva. E assim devanevamos sem ligar maior importncia a todos estes pensamentos.

Um homem, no entanto, avidamente acompanhara tais conversas: era o nosso infeliz guia. Absorto, sombrio, sem uma s palavra para quem quer que fosse, desde que retrogradvamos 
reconcentrava-se na contemplao dos sofrimentos da famlia, reduzida ao cativeiro, exposta aos tormentos, j os havendo sofrido talvez: mulher, filhos, parentes, 
amigos. Assumira, a seu ver, a marcha para a frente, o aspecto de um compromisso que, uma vez tomado sob a invocao do patriotismo e da humanidade, era definitivo, 
embora a todos ns custasse a vida! Agora, que se falava de penetrar novamente no Paraguai, tornara-se outra vez entusistico e expansivo. Do comandante, abroquelado, 
corria aos oficiais e destes aos soldados, garantindo se encarregava de abastecer o corpo de exrcito.

Se nos entregssemos  sua experincia, haveria conduzir-nos por caminhos que s ele conhecia, a seguro onde o esperaramos. Enganavam-se os que ditavam na exausto 
de recursos de sua fazenda. Ainda possuia reservas e tudo sacrificaria, como j tudo ficara. 

Ns lhe admirvamos a alma generosa: mas eram-lhe evidentes as iluses e exageraes. Destruindo-se por si mesmas contribuam para nos abrir os olhos  verdade. 
Se ainda algumas dvidas nos restavam, veramos demonstrada a nossa absoluta impotncia pelas noticias trazidas por um dos nossos oficiais, o tenente Vitor Batista, 
que, da colnia de Miranda, escoltado por doze soldados, viera ao nosso encontro. No se avistara com os paraguaios; mas quanto ao objeto de nossa principal preocupao, 
ou por assim dizer, o nico, contou-nos que nenhuma remessa de munies partira de Nioac. Um bom nmero de carretas do comrcio, carregadas de mercadorias, havia 
realmente atingido a Machorra. Ainda estavam algumas paradas  nossa espera; mas as outras, a maioria, ao saber de nossas refregas com o inimigo, tinham tornado 
atrs, certas de que no nos encontrariam mais.

A Machorra, como j dissemos, est situada a dez quilmetros de Bela Vista, em territrio brasileiro; e podamos supor que os inimigos, preocupados conosco, e com 
o que poderamos fazer, ainda se no haviam dirigido para ali. Interromper a nossa marcha, para atrasar a deles, ficar alm do Apa e fazer, entretanto, com que os 
mercadores tornassem o mais depressa possvel a estrada de Nioac, tais foram, pelo que pudemos julgar, as ideias do Coronel. Por elas se apaixonou. Considerava desonra 
ver apreender to rica presa pelo inimigo, que indo sempre  nossa frente, haveria de atingi-la antes de ns e no deixaria de arvor-la em trofu. Assim, pois, 
ordenou aos diferentes corpos que s a 11, dois dias mais tarde, levantassem acampamento.

Debalde apressaram-se vrios oficiais em lhe fazer ver que, para a execuo de uma retirada, j comprometida pela escassez de vveres que nos ameaava, havia a maior 
urgncia em atravessar o Apa, antes que os inimigos tivessem conseguido torn-lo para ns intransponvel; a no ser mediante sacrifcios de todo o gnero, e sobretudo 
o de uma delonga que infalivelmente nos perderia.

Mostrou-se irredutvel, abroquelando-se numa nica alegao: exigia a dignidade do corpo de exrcito a demonstrao de que a retirada se efetuava tanto sem precipitao 
como sem temor.

Restava-lhe mandar levar  Machorra a ordem para que os nossos mascates regressassem a Nioac; e foi ento que se lhe transmutou a funesta obstinao em verdadeira 
idia fixa. Chamando o tenente Vtor Batista, o portador das noticias recentes, dele indagou qual seria o melhor meio de entrar em comunicao com o comboio e quem 
poderia executar a comisso. Depois, como este valente oficial no hesitasse em oferecer-se, aceitou-lhe a proposta, sem nada querer ouvir das observaes que lhe 
foram feitas acerca dos inconvenientes de se arriscar assim a perder um oficial, de patente j distinta, to dedicado, e cuja perda podia trazer o desnimo  coluna. 
Continuou inabalvel, a tudo respondendo com o dizer que o filho de Lopes lhe serviria de guia, tomando atalhos que conhecia e impraticveis  cavalaria.

Tal ordem se executou. Dois dos nossos refugiados do Paraguai, os irmos Hiplito e Manuel Ferreira, arrastados pela confiana no filho de Lopes juntaram-se ao tenente 
Vitor. Partiram os quatro, deixando-nos cheios de apreenses as mais intensas.

Mal decorrera meia hora, ouvimos distintamente, ao longe, tiros de fuzil. Estremecemos, fitavam os nossos olhos o ponto onde os ausentes haviam desaparecido. Vimos, 
afinal, o filho de Lopes sair s, da mata do rio, correndo para ns, seminu e todo ensangentado.

Apenas cobrou alento, contou o que se passara. Os paraguaios os haviam cercado, matando o tenente e os irmos Ferreira. Ele prprio conseguira escapar graas a um 
espinhal denso onde se lanara e donde, por milagre, pudera atingir o rio.

A todos consternou este fatal acontecimento. Quanto no deve ter sofrido o infeliz coronel Camiso com o seu gnio to acessvel s angstias do arrependimento e 
do remorso! Dominou, contudo, a comoo: no disse palavra, e no tardou em ordenar aos engenheiros que, sobre o Apa, construssem uma ponte para a passagem das 
tropas. 

Tudo o que se pde fazer, por falta de material e ferramenta, foi uma pinguela e ainda assim vacilante e pouco segura. Felizmente, porm, baixara sensivelmente o 
nvel das guas e o rio mostrava-se vadevel. Comeou a passagem da coluna s seis da manh seguinte. Foi morosa e difcil. Os soldados atravessavam a gua, levantando 
acima das cabeas armas e bagagens, a lutar com a rapidez da corrente.

Os doentes, os oficiais, os msicos e as mulheres utilizaram-se da pinguela. Houvesse o destino determinado que os inimigos cuidassem em assestar a artilharia numa 
esplanada que nos ficava a cavaleiro, ou simplesmente espalhassem atiradores em torno de ns, caro nos teriam feito pagar a invaso do seu territrio, no momento 
em que o deixvamos. Felizmente adotaram outro plano; separados em dois grupos, um esperou-nos   frente, ao passo que o outro se dispunha a cair-nos  retaguarda, 
desde que entre ela e o resto da coluna visse o rio. No surtiu efeito a combinao, mantidos que foram a distncia respeitosa pelo fogo rpido, e hbilmente dirigido, 
de uma das nossas peas, a que, do alto da chapada, onde se estabelecera o nosso acampamento, podia varrer todos os arredores.

Depois dos batalhes do centro e seus canhes passou o gado costeado por dez ou doze homens, a quem comandava o capito da guarda nacional Silva Albuquerque. Nossa 
vanguarda com as peas que tinham protegido a passagem, transps o rio a seu turno, coberta pelo fogo de uma bateria que acabava de tomar posies defronte da margem 
paraguaia. 

s nove e meia, quando nos achvamos todos em territrio brasileiro, foi a nossa ponte improvisada cortada por alguns soldados que para este servio reservara o 
tenente Cato Roxo. Recomeou o corpo de exrcito a marchar, acompanhando a margem que o fogo do forte de Bela Vista, agora arruinado, podia outrora dominar. 

Tomou a dianteira o batalho de voluntrios do tenente-coronel Enias Galvo, indo o 21. de infantaria, comandado pelo major Jos Toms Gonalves, formar a retaguarda. 
Entre eles ficaram os corpos do centro:  direita o 20., comandado pelo capito Ferreira de Paiva; e,  esquerda, o corpo de caadores sob as ordens do capito 
Pedro Jos Rufino. Cobria toda esta fora duas linhas de carretas, no meio das quais iam as mulas carregando o resto de nossos viveres, munies e alguma bagagem 
de oficiais. Vinha depois o grupo das mulheres, dos enfermos e convalescentes. Nossas ltimas juntas de bois arrastavam as peas; a de Marques da Cruz, no ngulo 
da direita; a de Nobre de Gusmo, no da esquerda; a de Canturia  extrema direita da retaguarda; e a de Napoleo Freire  extrema direita.

 retaguarda do 20. batalho, e fora das linhas, tudo superintendendo iam o comandante e parte do seu estado-maior. A cada momento enviava, para todas as direes, 
os seus oficiais e ajudantes-de-campo, a fim de se regularizar o movimento. Por duas vezes ao chefe dos voluntrios,  vanguarda, avisou que os seus atiradores, 
por demasiado ardor, se isolavam da coluna, com grande risco para todos, como no tardaram os fatos a demonstra-lo.

Avanvamos; e nossos olhos se despediam de Bela Vista, dizendo-lhe adeus e para sempre. Muitos daqueles que conosco estavam, ento, no mais existem. O que podem 
desejar os seus sobreviventes  nunca mais regressarem quele teatro de tanta misria. J se no percebia um pedao de muralha branca, nico destroo ainda de p 
do que fora a fortaleza daquela fronteira; nada mais se via alm das franas da mataria do Apa.

Aberta de todos os lados, estendia-se a campina acessvel aos olhos, exceto num ponto a alguma distncia,  nossa frente, e ponto que os nossos atiradores no haviam 
reconhecido. Uma espcie de escarpa ali mascarava o que verificamos ser profunda depresso do solo, embaixo de suave declive que tornava a subir para a Machorra, 
cujo caminho seguamos. Ascendia o Sol, eram doze horas.


CAPTULO XII

Ataque vigoroso do inimigo. Ns o repelimos, mas, com o fragor do combate, nosso gado se dispersa. Cenas do campo de batalha. A preta Ana. O ferido paraguaio. Vo 
os vveres faltar.

De repente, do fundo da que a estrada contornava, irrompeu um corpo de infantaria paraguaia que se lanou sobre a nossa linha de atiradores, atravs, dirigindo-se 
para o 17. batalho dela distante uns cem passos. Enquanto este se preparava para receber o ataque, os nossos atiradores, tornando a si da surpresa que ao inimigo 
permitira penetrar em nossas linhas, haviam-se voltado e o carregavam pela retaguarda Foi quando numerosos grupos de cavaleiros apareceram, a galope, derribando 
e acuilando a quantos encontravam.

Travou-se, por toda parte, terrivel entrevero e tal que o nosso batalho de voluntrios de Minas hesitou a principio em fazer fogo, receoso de atingir amigos e inimigos. 
Acabou, afinal, por faz-lo, juncando o solo de mortos e feridos. Isto pelo menos obrigou os paraguaios a recuarem e a fugir, mas somente para se reformarem a alguma 
distncia.

No podiamos deixar de esperar um ataque geral Formaram os corpos quadrado e os canhes assestados nos ngulos despejaram nutrido e vivo fogo, cujos projteis atingiram 
a grota onde se alojara o grosso do inimigo.
Novo panico de nosso gado, agora de efeitos mais graves do que da primeira vez, veio, ento, comprometer-nos a situao, no s no momento como para todo o resto 
da retirada. Espavorida pelos estampidos do canhoneio, o mais forte que at ento ouvira, apossou-se de nossa boiada vertiginoso terror. Abrindo passagem atravs 
de guardas e soldados, precipitaram-se os animais sobre as nossas fileiras, sobretudo  retaguarda, mais prxima de seu retiro. Produziu a principio esta irrupo 
uma desordem que o comandante inimigo notou, trazendo-lhe provavelmente a sugesto da idia da manobra que imediatamente executou. Distribuida em duas colunas profundas, 
toda a sua cavalaria arrancou, vindo rentear as faces laterais de nossos quadrados, como a convergir sobre a nossa retaguarda, para a esmagar. Poderia esta manobra 
ter ocasionado a nossa perda; mas malogrou-se, sobretudo, graas  nossa infantaria que, colocada como estava, teve durante minutos o inimigo sob os seus fogos cruzados 
e lhe causou avultadas baixas. Amorteceram estes claros o impeto das massas, a quem os feridos e mortos, alis, atrapalhavam. A arma branca no as poupava menos 
que as balas e a metralha. Vimos cavaleiros traspassarem-se sobre as nossas baionetas e assim pereceram acutilados. Sobressaiu o 21. batalho nesta encarniada 
pugna, que  nossa retaguarda deu tempo de se consolidar contra o choque que a ameaava. No foi, contudo, a violncia to grande quanto a espervamos, porque os 
inimigos, imaginando que nos achariam meio abalados, mas sentindo pelo contrrio a nossa coeso, graas ao vigor da resistncia, no persistiram no ataque, acabando 
por circunscrever o seu esforo em apanhar o nosso gado que, espavorido, disparava pelo campo. Cerc-lo, domin-lo, tang-lo para a frente, foi para estes vaqueiros, 
os primeiros do mundo, obra de instantes. Depois, tudo desapareceu: estava o campo limpo e cessara a peleja. Foram os primeiros movimentos consagrados ao contentamento 
da vitria; e as aclamaes que espontaneamente estrugiram em toda a nossa linha abafaram o estridor dos clarins e fanfarras.

A esta cena de entusiasmo e alegria, outra seguiu-se de desolao. Estava o terreno coalhado de moribundos e feridos inimigos. Vrios dos nossos soldados, brios 
da plvora e do fogo, queriam acab-los. Horrorizados, debalde esforavam-se os nossos oficiais em lhes arrancar as vtimas s mos, exprobrando-lhes a indignidade 
de semelhante chacina (1) .

Felizmente, dominados pela impresso das ameaas do Coronel, a propsito das mutilaes infligidas aos cadveres, abstiveram-se os nossos indios de tocar em qualquer 
forma humana animada ou inanimada. Por isto mesmo redobraram de crueldade para com os cavalos, dos quais no pouparam sequer um s, estivessm ele estendido no cho, 
a dar sinais vida, ou, ento, ligei mente ferido, a pastar, todo ajaezado ainda.
_______________
  (1) Perderam os paraguaios cento e oitenta e quatro homens, nimero inscrito numa grande cruz que, por ordem do major Urbiets, ali se fincou.




Via-se, alis, como inevitvel conseqncia destas cenas deplorveis, o saque desenfreado a que se entregavam os mascates e os acompanhadores do exrcito tambem, 
reclamando as mulheres o seu quinho. Eram os corpos despidos e revistados; despojos sanguinolentos passavam, de mo em mo, como mercadorias, muita vez com violncia 
disputadas.

Os cadveres paraguaios, objeto dos primeiros esbulhos, ficaram assim nus, estendidos ao sol. Notamos um, o de um rapaz de formas atlticas, cuja cabea, de uma 
tmpora  outra, perfurara uma bala. Tinha os olhos tumefatos nas rbitas e, apesar de todo o sangue que em abundancia correra ainda, de sob a fronte, lhe gotejavam 
grossas bagas, que pareciam lgrimas. Pungente emblema da passagem exterminadora da guerra sobre a sua valorosa nao, aniquilada pelo chefe implacvel que a regia.

Quanta idia lgubre evoca um campo de batalha! Sobretudo nestas solides imensas, onde o prprio gnio do mal parecia ter penosamente convocado e reunido ali milhares 
de homens para que mutuamente se exterminassem, como se terra lhes faltara para viverem em paz do fruto do seu labor. 

Deixaram os inimigos no cho mais de uma centena de mortos, entre os quais divisamos um capito e outro oficial, cujo posto, por falta de divisas, no pde ser identificado. 
Raro que se veja to grande nmero de cadveres paraguaios num campo de batalha. Carregam os sobreviventes quantos podem e mesmo tomam alguns dentre eles a precauo 
de se atar pela cintura a uma das pontas do lao que sempre trazem consigo, prendendo solidamente a outra ponta ao aro da sela, a fim de que caso caiam mortos 
ou gravemente feridos, possa o cavalo, acompanhando os demais na volta, lev-los ainda que em pedaos - feroz precauo que no deixa de ter tal ou qual grandiosidade.

Contamos do nosso lado muitos mortos, todos do batalho da vanguarda ou dos atiradores que o precediam. O tenente Palestino, que a estes comandava, tivera o peito 
atravessado por um lanao de que dias depois velo a morrer.

O tenante Raimundo Monteiro foi durante a ao apanhado a esvair-se em sangue. Levaram-no numa padiola; ao passar diante da companhia que comandava bradou-lhe que 
lhe vingasse a morte. Recebera oito lanaos, dos quais o primeiro o derribara; e, mais ainda tivera que sofrer do pisar dos cavalos. Restabeleceu-se entretanto, 
e tivemos o prazer de ver rapidamente curado este valente filho da provncia de Minas.

Grande nmero de feridos brasileiros se transportaram de vrios pontos; foram todos levados  ambulncia provisria, onde os nossos mdicos os puseram nos carros 
de bois, apertados, no h dvida, e uns sobre os outros, mas recebendo todos os socorros que as circunstancias comportavam. Uma mulher de soldado, a preta Ana, 
antecipara nesta obra caridosa os cuidados da administrao militar. Colocada, durante a ao, no meio do quadrado do 17., desvelara-se por todos os feridos que 
lhe traziam, tomando ou rasgando das prprias roupas o que lhe faltava para os pensar e ligar, proceder tanto mais digno de nota e admirao quanto fra o da maioria 
das companheiras miservel. Escondidas quase todas sob as carretas, ali disputavam lugar com horrivel tumulto.

O nico ferido inimigo, encontrado vivo, tinha uma perna fraturada. Quis o Coronel v-lo, e a fim de o interrogar chamou o filho de Lopes, que falava o espanhol 
paraguaio. Parecia sentir horriveis dores e pediu gua que avidamente bebeu. A sombra com que o cobrimos, rodeando-o, pareceu dar-lhe maior alvio ainda. Respondendo 
a algumas perguntas contou-nos que o comandante das foras com quem combatramos se chamava Martim Urbieta, o mesmo de quem j falamos; que o corpo de cavalaria, 
com quem acabvamos de pelejar, era de 800 praas, estando ainda outro a chegar brevemente. Quanto s informaes que lhe pedimos sobre a artilharia, respondeu nada 
ter a contar: nada sabia. Entretanto, espontaneamente, deu-nos noticias da Guerra do Sul. Havendo o filho do guia indagado se Curupaiti fora tomada, respondeu pelo 
monossilabo: "No!"-E Humait? "Nunca!" Ento a guerra no est para acabar? - Aps uma pausa, em que se lhe repetiu a pergunta, replicou o moo, como saindo de 
um sonho, e no tom de nfase prprio da lingua de sua gente: "A terrvel guerra est dormindo!" Delirava. Levaram-no, ento, para uma das carretas da ambulncia.

O que a este incidente se seguiu (triste ocorrncia que no quisemos, alis, averiguar) foi, segundo o boato espalhado, que o desventurado, posto num carro atravancado 
e onde foi aumentar o incmodo de outros feridos e moribundos, desvairados pelo dio e sede de vingana, acabou estrangulado. Certo  que poucas horas mais tarde, 
durante a marcha, foi lanado morto  estrada. Enterramos todos os nossos cadveres em covas que mandamos abrir pelos indios. Quanto aos paraguaios, deixamos tal 
encargo aos seus compatriotas. Bem sabiamos haveriam de voltar logo quele local, aps a nossa partida. Com os seus sentimentos de homem profundamente religioso, 
teve o Coronel real desgosto deste abandono. Era, porm, o nmero dos cadveres muito avultado, ia o dia alto e o calor tornava-se acabrunhador. Assim recomeamos 
a marcha. 

Tal foi o combate de 11 de maio, o mais importante da Retirada (1). J o de 6 mostrara aos paraguaios o que valia a nossa gente; veio este confirmar o efeito em 
seu animo; e tal impresso se traduziu pela hesitao e a moleza que, dai em diante, mais do que nunca, lhes caracterizou os cometimentos. Ficou-nos, alm de tudo, 
patente que, alm da prtica da guerra, faltava-lhes a inspirao ttica, a que sabe apreciar os fatos, no momento em que se produzem e adivinhar os obstculos pare 
os vencer. O seu ataque de infantaria tivera como fim lever a confuso  nossa vanguarda, de modo a entreg-la, no primeiro movimento de surpresa  merc da cavalaria. 
Baldado este plano, deveriam ter compreendido que a nica probabilidade de triunfo restante residia nas cargas de cavalaria, cada vez mais impetuosas, e sustentadas 
por sucessivos reforos. Um pouco mais de hbito da guerra lhes teria dado a conhecer, alis, quanto era a nossa disposio geral excelente e que, para a derrocar 
se tornava preciso combinar o emprego da artilharia, de que dispunham, com a ao da cavalaria. Sob este reforo simultneo ter-nos-ia sido impossvel, a principio, 
defender as nossas bagagens e as munies que as acompanhavam; e depois os nossos quadrados, que s balas ofereciam dilatado alvo. E, ento, as nossas fileiras, 
clareadas e combalidas pelo prprio fato de seu desenvolvimento, no teriam resistido  sua cavalaria, poderosa como era, com os pesados sabres de que dispunha.

Seja como for, vencramos e ainda com este resultado excelente: crescera o coronel Camiso no conceito dos soldados pelo sangue-frio de que dera mostras.

Mas, infelizmente, no bastava isto: perdramos o gado. Que seria de ns sem vveres? Mandou o comandante chamar vrios oficiais, uns aps outros e, depois, longamente 
conferenciou com o velho Lopes, que, intrpido e at terrvel, pode-se diz-lo, em combate apenas travado, mostrava-se nas deliberaes, mais do que ningum, o homem 
dos bons conselhos e inspirados expedientes. E s deste lado havia agora salvao a esperar.

___________
(1) Houve mais de 230 mortos. Travara-se a luta entre duas colunas cujo total, quando muito atingia 3000 homens. (N. do A.)
A esta refrega deram os paraguaios o nome do combate de Nhandip. (N. do T.)


CAPTULO XIII

Deliberao sobre o caminho a seguirmos;  Primeiro incndio no campo.

Dirigia-se pare leste a estrada que diante de ns se abria. Passadas seis lguas, neste rumo, voltava-se pare o norte, at a colnia de Miranda, de que nos separavam 
ainda quatorze lguas, s quais cumpria ainda ajuntar mais dez para atingirmos Nioac. S ali, a vinte e quatro lguas da fronteira, poderamos nos reabastecer de 
"gado. De quinze dias, no mnimo, precisaramos para transpor esta distncia, na marcha em que caminhramos, para o Apa.

Conhecia o inimigo bem esta estrada e j se pusera  nossa frente. Seria sua entrada em Nioac muito antes da nossa, ocasionando-nos, qui, a perdio, ao cabo de 
tantos esforos.

Logicamente era, pois, tal caminho impraticvel. Lembraram-se alguns, ento, do que propusera Lopes, quando se tratava de invadir o territrio paraguaio e escolher 
a melhor via para o realizer. Na opinio do guia, prefervel a qualquer outra, era a passagem pela sua fazenda do Jardim, situada a trs dias de marcha a sudoeste 
de Nioac. Afirmava haver facilmente vencido esta distancia em dois dies e meio. Dali  fronteira do Apa, quando muito, teramos seis dies pelo campo Quanto a este 
ltimo trajeto que, segundo as suas asseveraes, por ocasio de nosso primeiro conselho de guerra sobre tal assunto, nos devia colocar em frente ao forte de Bela 
Vista, insistira na necessidade de um reconhecimento que rapidamente deveramos, dois ou trs, em sua companhia realizar, montados em bons cavalos. Fra, ento, 
impossvel, porm, conseguir-se um estudo srio do alvitre. Acoimaram-no de abuso existente apenas na imaginao do guia. Se houvesse passagem, diziam, os paraguaios, 
grandes mateiros sempre a divagar, conhec-la-iam certamente. Ao que sempre respondera Lopes: - S se meu filho lhes ensinasse, pois s Deus, eu e ele podemos ir 
de minha fazenda ao Apa, pelo campo. Riram-se os que lhe faziam as objees e no se falara mais no caso. Nas circunstncias em que nos achvamos, informado o Coronel 
da passagem dos paraguaios para a margem setentrional do rio, e at da existncia de um acampamento, ali estabelecido, apressou-se em falar ao velho guia sobre o 
caminho pela sua estncia. Respondeu este bastante friamente que, com efeito, em tempo, indicara tal estrada Aconselhara ento, porm, que de antemo se explorassem 
aqueles lugares, no que no fora atendido. Agora era tarde demais.

Entretanto, havendo dado largas ao ressentimento, e passados alguns minutos de silncio, acrescentou que tudo bem meditado no via impraticabilidade para uma tentativa 
deste gnero. Certamente muito nos maltrataria a macega alta; supunha, contudo, que em menos de uma semana poderamos atingir a sua estancia onde repousaramos; 
e, com suas laranjas, nos haveramos de restabelecer. A seu ver era esta fruta de inestimvel valor para a sade; cada vez que ao Jardim fora, para nos abastecer 
de gado, grandes sacos dela nos trouxera. Achavam-se as suas rvores carregadas e ainda o deviam estar.

Pessoalmente pertencramos  maioria que outrora opinara pelo itinerrio por Lopes proposto, pelo fato de nos facultar meios, graas aos quais mais facilmente atingiramos 
o territrio paraguaio. O que, ento, mais proveitoso fra, para a ofensiva, continuava a s-lo para a retirada. No havia hesitar.

Pronunciou-se a maioria dos oficiais pela escolha desta estrada sob a direo do guia. De novo afirmou este, dando a palavra, que em cinco ou seis dias estaramos 
no Jardim. Mais dois ou trs nos bastariam depois para alcanar Nioac, onde nos poderamos ainda antecipar ao inimigo. Foi o plano aceito pelo comandante. ltimo 
dia de triunfo para Jos Francisco Lopes!

Inteiramente a seu favor tinha a opinio dos soldados, a dos oficiais e a do chefe. Investia-o a confiana geral, at como que solenemente, de quase ilimitada autoridade; 
a pblica necessidade e a lei suprema da salvao tornavam-no como um ditador.

Toda a vantagem havia em tomarmos a estrada do Jardim. Em primeiro lugar podiam os nossos comboios escapar ao inimigo que parecia perseguir-nos noutra direo. E 
no era s dos mercadores estacados na Machorra,  nossa espera, que se tratava, mas tambm de todos os mais que, na suposio do secionamento ou da perda de nossa 
coluna, penosamente retrogradavam para Nioac. Tnhamos ainda a probabilidade de algum abastecimento nos distritos desertos, onde, mesmo longe das estncias, h animais 
erradios. Em terceiro lugar no eram de pequena monta as vantagens que nos apresentava a disposio de um terreno acidentado, em parte coberto de matas e capes 
capazes de neutralizar as armas mais danosas em uma retirada, a cavalaria, graas aos acidentes do terreno e a mataria; a artilharia, porque a nossa, com a dianteira 
que tomvamos, teria sempre a faculdade de, antes do inimigo, ocupar qualquer posio de algum valor estratgico.

amos desde logo evitar uma plancie de meia lgua onde a gua das ltimas chuvas ainda encharcava o solo, apenas deixando estreita passagem ao longo da qual, durante 
muitas horas, teramos que suportar o fogo do inimigo.

Enfim, por esse caminho da estncia de Lopes, s havia um grande rio a atravessar, o Miranda, enquanto pela estrada ordinria, precisaramos, alm deste, transpor 
numerosas correntes, trs pelo menos volumosas: o Desbarrancado, o Santo Antnio e o Feio, que as menores chuvas sobremodo acaudalam.

Podia-se dizer,  exato, que um efeito desagradvel do nosso desvio da estrada batida seria persuadir aos paraguaios que procurvamos escapar-lhes pela fuga, assim 
se amesquinhando a boa impresso que os ltimos combates lhes deviam ter dado de ns. Mas esta aparente desvantagem vinha pelo contrrio, naquele momento, reforar 
o desejo em que nos empenhvamos de salvar os combolos da perseguio do inimigo, atraindo-a sobre ns. E que ela no nos inspirava temor. O que certamente nos levava 
a refletir sobre o caso vinha a ser a idia de nos embrenhar em lugares ainda no explorados, cheios talvez de inesperados obstculos, no meio desta macega alta 
que a alguns passos impede a viso; que  preciso cortar sem descanso e quando seca (como ento estava) exige perigoso e pesado servio. Qualquer considerao acerca 
de perigos e dificuldades secundrias desaparecia, contudo, em frente  urgncia da situao. No houve quem no o compreendesse; uma nica porta de salvao nos 
restava aberta.

Pusemo-nos a marchar a uma hora da tarde; iam os oficiais no centro de seus batalhes. Achava-se o comandante com parte do seu estado-maior no quadrado do 20. Ao 
entrar nele, jovialmente dissera ao capito Paiva: "Venho colocar-me aqui entre os senhores; ningum se defender melhor que ns".

Caminhramos um quarto de lgua, quando muito, e j o fogo dos paraguaios comeara do alto de uma eminncia que dominava o teatro do combate da manh.

Apanhava-nos os quadrados a descoberto, obrigando-nos a uma evoluo em colunas.

Surtiu esta manobra bom efeito. Deveria ela, no entanto, fazer compreender ao inimigo as vantagens de contra ns empregar, em constante alternncia, a artilharia 
para bater os quadrados e a cavalaria para nos acutilar, desde que nos formssemos em coluna. Felizmente no havia o que lhe abrisse os olhos e safamo-nos deste 
mau passo sem maior dano. Nosso guia, sempre  vanguarda, por simples intuio militar, e sem que nenhum recado tivesse recebido, aproveitou o conhecimento que tinha 
do terreno, fazendo-nos deixar bruscamente a estrada da Machorra e inflectir para a esquerda. Por meio de sbita contramarcha levou-nos ao p de uma eminncia onde 
nos era fcil assestar uma bateria, caso fosse necessrio; era a segurana. Apenas percebeu Lopes, alis, a ausncia de inconvenientes, tornou a meter-nos no rumo 
norte por subida bastante suave.

Pareceu-nos o inimigo hesitante sobre o que lhe convinha fazer. Era-lhe visvel a perplexidade; avultado nmero de cavaleiros corria no campo de um lado para outro. 
Encaminhavam-se grupos sobre a bateria inimiga onde era evidente a presena do comandante. Pareciam as peas seguir-nos o movimento  medida que progredamos no 
declive por onde nos fazia Lopes marchar Foi esta, alis, a ltima vez em que se mostraram: nunca mais as tornamos a ver, ou porque receassem os paraguaios arrisc-las 
em paragens para eles desconhecidas e prestando-se a emboscadas ou tivessem esgotado as munies. Provavelmente as despacharam sob a escolta de um corpo de cavalaria, 
que tomou a direo da Machorra. Desde a fomos menos incomodados, mesmo pela cavalaria.

Prosseguia a nossa jornada sem maior empecilho alm da macega alta, que nos cercava e precisvamos irremediavelmente cortar, e sobre a qual se tornava a marcha das 
mais penosas; cortando as arestas das gramneas os ps dos soldados. Reservava-nos ela, entretanto, provaes bem mais cruis que no tardariam a ocorrer.

Notamos, a alguma distancia, tnues rolos de fumo. Foi Lopes quem primeiro deu pelo incndio. J o esperava. Nada nele traiu a mnima surpresa. Imvel por algum 
tempo, perscrutou o hrizonte, rompendo depois o silncio com uma dessas apstrofes prprias dos homens da natureza, quando enxergam uma luta iminente. Desafiou 
as chamas que j ameacavam alar o colo "Est bem! haveremos de lutar! Sera, contudo, um pouco mais tarde, acrescentou, voltando-se para ns: Vou comear logrando 
os paraguaios. Caminho direito para Miranda; descambarei depois para a minha fazenda".

Fomos esta tarde acampar perto de uma das cabeceiras do Jos Carlos. Contvamos poder,  vontade, nos dessedentar aps um dia dos mais penosos, numa atmosfera escaldante. 
Mas ali s encontramos agua turva e detestvel e como, por cima de tudo, tarde chegramos a este triste pouso, com o Sol posto, nada tivemos para dar, nem gua nem 
pasto, aos nossos bois estafados e cujo olhar invocava a nossa compaizo. Para descansar s tnhamos um solo poeirento, e cuja grama ressequida torrava o sol. Tivemos, 
ns mesmos, de nos contentar com um quinto da rao costumeira, ou, para melhor dizer, faltou a comida. Em vez de vinte e dois bois que, at ento diariamente se 
abatiam, quatro apenas foram mortos, escolhidos entre os mais miserveis de nossas juntas Era um princpio de fome; veio apress-la uma medida, ento, tomada pelo 
comandante. Tornara-se-lhe uma das principais preocupaes conservar o maximo de meios possvel para o transporte dos feridos. Acudiu-lhe  mente desatravancar algumas 
carretas para lhas reservar; assim, pois, distriburam-se pelos soldados o que nelas vinha. Foram repartidos a farinha, o arroz, os legumes secos. Devia cada qual 
carregar os prprios vveres, por alguns dias, mas como, em muitos, o cansao e a fome venciam a previdncia, quase tudo o que naquele momento se distribuiu foi 
imediatamente consumido.

Iam comear as nossas grandes provaes; datam da os sofrimentos que, agravados uns pelos outros, no tardaram em nos fazer crer na iminncia de terrivel catstrofe 
ameaando colher-nos fatalmente.

CAPTULO XIV

Continua a marcha. Temos o inimigo  frente. Nnovo sacrifcio de bagagens. Faltam os vveres. Incndios e temporais. Escaramuas incessantes. 

A 12 de maio, ao romper d'alva, levantamos acampamento e, como de vspera, recomeou a marcha por entre a macega alta. Longas voltas tivemos de dar para transpor 
o Jos Carlos, evitando alguns dos brejos profundos de onde lhe nascem as guas. Avanamos para o norte. Prometia-nos Lopes que, nequela mesma tarde, poderiamos 
acampar numa garganta funda, onde nada teriamos a temer dos paraguaios. Ao longe os vamos tambm a procurar passagem, mas como quem no mostrava conhecer, tanto 
quanto ns, o terreno por onde nos seguiam. Alentou-nos o dia todo a esperana de bom acampamento; demonstrava o nosso guia plena segurana, apontando-nos os fogos 
que os paraguaios haviam acendido em vrios pontos e procurando demonstrar-nos que ainda desta vez no conseguiriam barrar-nos o caminho. Graas a ele conservvamos 
a dianteira embora estivssemos a ponto de perd-la.

No momento em que o Sol, j declinando, tornara-nos a marcha menos penosa, mandou o comandante da artilharia prevenir ao Coronel que os animais atrelados aos canhoes 
estavam exaustos, havendo-se mesmo deitado alguns. Nem eles nem o pequeno resto de rebanho, que ainda conservavamos, nada tinham podido comer ou beber desde a noite 
de 12. Tornou-se, pois, foroso estacarmos.

Paramos; nada mais havia a fazer. Estabeleceu-se a coluna sobre pequeno cmoro, em parte coberto de mato  extremidade do qual havia uma fonte. Apenas ali nos instalramos, 
comearam as lufadas de vento sul, que soprava rijo, a trazer-nos de longe o calor do fago que ao nosso encalo progredia no campo. J Lopes, porm, pusera em movimento 
todo o pessoal, de que podia dispor, ordenando que a toda a pressa se cortasse a macega, em torno de ns, e apenas cortada fosse carregada o mais longe possvel. 
Ele prprio, a tudo atendendo, providenciou para que os soldados vigorosamente a cobrissem de terra e a calcassem bem, o que se no pde executar sem muito sofrimento 
e grandes esforos dos trabalhadores. Era para ns questo de vida e morte e as ordens do guia no representavam seno a expresso da mais rigorosa necessidade. 
Lopes, a grande personalidade para ns outros, nesta cena do incndio da macega, dando ordens por toda a parte, multiplicando-se, projetando-se sobre a cortina de 
chamas, ou desaparecendo, em suas solu es de continuidade , no era uma figura de mera teatralidade. Sem ele nos perdramos!

A no serem tantas precaues, a fumaa nos asfixiaria, depois, quando o fogo nos chegou, quando folhas e galhos, amontoados em torno de nosso refgio, acabaram, 
apesar de todas as precaues, por inflamar-se, a seu turno, dali saram imensas lnguas de fogo que como nos lambiam, ora alando-se ao cu, ora deprimidas pelas 
correntes de ar variveis e rpidas, que as impeliam, silvando furiosamente por cima de nossas cabeas. Vrios homens sofreram queimaduras profundas e um at calu 
morto, asfixiado.

Afinal este inimigo, esgotado pela prpria violncia e no achando mais alimento perto de ns, comeou a afastar-se, continuando o caminho para o norte.

Quando a nossa gente, extenuada e morrendo de sede, aps esta luta acrescida  fadiga da marcha, correu  fonte vizinha do acampamento, ali j achou os paraguaios 
emboscados. Nada menos de duas companhias oram precisas para os desalojar.

Aos ltimos clares do dia vimos este destacamento que se formara a certa distancia, juntar-se ao grosso dos esquadres inimigos, que em boa ordem desfilavam, bandeiras 
desfraldadas, ao toque dos clarins, evidentemente para nos provocar e, apressando-se, ao que nos pareceu, em ocupar o local exatamente onde a princpio quisera Lopes 
acampar. Algumas balas que lhes despejamos vieram distender a animosidade dos nossos, exasperados pela sua cruel e covarde tentativa de queimar-nos vivos. Foi com 
verdadeira satisfao que verificamos quanto os nossos projetis aceleravam a marcha destes adversrios odiosos.

Todavia a provao por que acabramos de passar, naquele campo convertido em fornalha, era das que sobre o homem exercem irresistvel ao fsica. A enorme elevao 
de temperatura, subitamente ocorrida, bastava para explicar o acabrunhamento em que camos e o desfalecimento moral que se lhe seguiu. No sabamos, alis, como 
seria possvel avanar. Estavam os animais de tiro de nossos canhes esfalfados , sobretudo os bois mais ainda que as mulas, e incapazes de dar um passo. No entretanto 
era mais que urgente no perdermos um instante em recomear a marcha. Entre uma infinidade de razes no deviamos deixar tempo ao inimigo, que agora nos precedia 
para fortificar algum ponto  nossa frente, impedindo-nos a passagem. Sabe-se quanto os paraguaios so aptos em movimento de terra, cavar fossos e levantar redutos. 
Vem-lhes a tradio dos seus mestres, os padres da Companhia de Jesus, que cultivavam todas as artes, sobretudo a arquitetura e a engenharia militar.

Este imenso perigo de nossa situao inspirou ao comandante a idia imediata de ainda diminuir a bagagem para reforar as juntas e parelhas das peas e carros manchegos.

Entendeu-se com os oficiais, a quem competia tal providncia, e estes nada lhe objetaram.

Ficando redazidos ao que sobre o corpo traziam, queimaram algumas ltimas e mseras superfluidades, uma outra mala e barraca. Desde o combate de 8 nada mais tinham 
os soldados que carregar ou que perder; haviam atirado fora at os capotes que os embaraavam, quando perseguiam os inimigos. As bestas, libertas da carga foram 
destinadas ao transporte do cartuchame

Para maior desgraa nossa tivemos, essa noite, uma chuva torrencial, verdadeiro dilvio, que nos ps atnitos, embora j houvssemos experimentado outra e terrvel, 
e, desde pela manh, lhe vssemos os prenncios, o acmulo de imensas nuvens bronzeadas, constantemente sulcadas pelos relampagos, por entre contnuo trovejar. Durante 
toda a noite mantiveram-se de p os nossos soldados encostados s espingardas que haviam fincado no solo pela baioneta. Esta viglia assinala-se em nossas reminiscncias 
no menos penosamente do que a de 5, entre tantos outros pousos desastrosos.  preciso haver algum assistido, com a alma tomada de tristeza, a estas tremendas crises 
da natureza, para poder avaliar exatamente a extenso de sua influncia sobre o organismo humano. Recursos no os tnhamos. No havia em todo o acampamento uma s 
gota de lcool capaz de entreter o calor interno que nos fugia. O fogo, ltima esperana, no podamos acend-lo sob tamanho temporal.

Foi neste estado de universal desfalecimento que ainda nos veio acabrunhar a confirmao de quanto declarara o ferido paraguaio. Curupaiti e Humait resistiam sempre 
e a guerra estava longe do seu trmino.
Soubemo-lo por um nmero de Semanario, hebdomadrio de Assuno, que acabava de ser encontrado sobre um inimigo morto numa escaramua. Espalhou-se o boato, com a 
rapidez de propagao das ms notcias, extinguindo as ltimas centelhas da confiana e da coragem: foi-nos impossvel marchar a 13.

No dia seguinte caa a chuva, ainda ao alvorecer, mas j um tanto mitigada, quando deixamos este inspito acampamento para entrar em cerrada mata que o nosso guia, 
com grande sagacidade, julgara propcio escolher. Ali caminhamos durante mais de duas horas e no sem muitas dificuldades. Assim evitvamos, porm, o desfiladeiro 
que os paraguaios ocupavam e onde, sem dvida, supunham aniquilar-nos.

Com razo mostrou-se Lopes desvanecido do xito desta manobra. Havendo algum indagado que rumo seguira, gostosamente ps-se a rir: "O de minha cabea". Se via consultar 
a bssola, declarava que a agulha grande s servia para se fazerem bonitos desenhos destinados a divertir passeantes. Convenceram-no, contudo, que deixara o rumo 
norte e assim se atrasara: "Sim, momentaneamente, respondeu, nos desviamos-para os campos da Pedra de Cal, que descobri e em 1864 o meu amigo, o general Leverger, 
viria visitar comigo, se no arrebentasse a guerra".

Ao meio-dia estvamos em frente a um cerrado de taquaris, atravs do qual precisamos abrir caminho, a foice e a machadinha, o que muito tempo nos tomou, dada a dureza 
e elasticidade desta espcie de bambu e tambm a m qualidade do ao de nossa ferramenta.

As duas horas ainda estvamos s voltas com este servio. Nosso guia, sobretudo, mal podia sopitar a impacincia. De tempos a tempos ele prprio tentava varar o 
matagal, deitado sobre o pescoo da montaria, procurando entrever alguma aberta para o campo. Como no conseguisse, porm, vamo-lo voltar descontente, agitado, 
e com as roupas rasgadas.

Afinal dali samos s trs horas; s cinco, transposta a resistente barreira, continuou toda a coluna a caminhada, j ao descambar do dia, para um cmoro situado 
a um bom quarto de lgua, e  base do qual belo arvoredo indicava a vizinhana de uma fonte.

J l se achava instalada avultada partida paraguaia, disposta a acampar. Tinham os cavaleiros descavalgado, embora ainda em forma. Bastaram duas granadas de nossas 
peas da vanguarda para que se apressassem em nos ceder o lugar. Ali nos estabelecemos tranqilamente. Os nossos animais encontraram pasto regular e toda a gua 
de que careciam.

Carneamos nesta tarde os bois mais cansados das carretas. Dada a insuficincia e a m qualidade dos vveres, foi uma distribuio quase irrisria.

A 15, ao romper da alva, estvamos numa plancie coberta de macega, onde um incndio, em outro momento do dia, seria de se recear. Objetou Lopes que a erva, embebida 
do orvalho noturno, s poderia arder depois de exposta, por algum tempo, aos raios solares. A partir deste dia adotamos a norma de, desde muito cedo, pr a tropa 
em movimento, ativando, quanto possrel, a primeira marcha.

Em vasta extenso oferecia o terreno a atravessarmos uma srie de montculos intervalados, com certa regularidade, por extensos pntanos de onde saem vrios afluentes 
do Apa. A passagem destes pauis tornava-se difcil, com a chuva torrencial de 13, e ora a artilharia, ora algumas carretas, se atolavam. Estvamos a vencer um destes 
difceis passos, no momento de transpor uma destas sangas estreitas, quando patrulhas inimigas, em nmero considervel, vieram dar-nos, no uma carga, mas realizar 
como que um reconhecimento bastante prolongado, a fim de nos fazer crer, talvez, que desejavam algum embate srio.

Logo, entretanto, formaram-se em colunas e retiraram-se, o que tanto mais nos surpreendeu, quanto, por trs deles, divisramos um enxame de atiradores que, dispostos 
em pequenos grupos, pareciam colimar a rarefao de nossas fileiras para facilitar a tarefa da cavalaria, de que diversos destacamentos apareciam, prestes a entrar 
em fogo. Nestas circunstancias no podamos atacar a infantaria e tivemos de lhe suportar o fogo. Felizmente era-lhe a pontaria m, afoita, incerta, como sempre 
notramos entre os paraguaios.

Empregavam cartuchos por demais volumosos, produzindo grande recuo. Dir-se-ia que desejavam, sobretudo, fazer rudo com as armas e no obter um efeito til. Certo 
 que Ihes faltava suficiente aprendizagem e exercicio.

Ainda desta vez pouco mal nos fizeram. Passaram suas balas-por cima de nossas cabeas e s tivemos dois homens fora de combate. Apontvamos muito melhor, e virias 
vezes lhes perturbamos a formatura. Vimo-los, entao, usar de manobra nova: deitavam-se ao abrigo dos acidentes do terreno, ao seu alcance; e destes esconderijos 
nos faziam fogo. Surgiam uma ou duas cabeas nas cristas dos pequenos cmoros e, imediatamente, se escondiam, aps alguns tiros disparados a esmo. Quase no respondemos 
a este fogo. Um pouco mais longe havia, no entanto, sobre um planalto bastante extenso, um grupo de cavaleiros, que faziam empinar os cavalos, soltando vivas ao 
Paraguai e ao marechal Lopez. Como se adiantasse ao alcance de nossa artilharia, atirou esta, retrocedendo o grupo lentamente. Um deles, porm, deixado de observao, 
imvel sobre o cavalo, parecia afrontar-nos. Atirou-lhe o major Canturia to certeira granada que, caindo s patas do cavalo, cobriu-o e ao cavaleiro, de terra 
e depois, ricocheteando, at um bosque prximo, onde havia gente, explodiu com bastante efeito para que pudssemos notar rebulio. A custo conteve a sentinela a 
cavalgadura, mas no arredou do lugar e assim perdemos o gosto de sobre ela atirar.

Julgando o Coronel que esta demonstrao s podia atrasar-nos, ordenou que o 20. batalho atravessasse o brejo, e depois o resto da coluna, mas desde que recomeamos 
a marchar surgiram de todos os pontos da campina chamas que, conglobando-se, tomaram aterradoras propores.

Lopes que, durante toda a longa escaramua, no conseguira disfarar uma inquietao, que jamais Ihe notramos, reconquistou, ento, toda a energia da deciso. Mandou 
imediatamente encostar a coluna a dois capes que, momentaneamente, nos preservaram das labaredas laterais e depois fez com que se cortasse a macega, numa rea ainda 
maior do que na primeira vez, e onde tivemos que sofrer menos a aproximao do fogo, mas onde foi a fumaa muito mais terrivel, devido  imensa extenso do campo.

Tem este gnero de incndio feio toda especial e de que nem uma cidade inteiramente devorada pelo fogo poderia dar idia. Cresa a distancia de onde vm as chamas 
tangidas pelo vento, que as domina, e mais formaro elas, em todos os obstculos encontrados, contra correntes espalhadas em todas as direes, animadas como de 
inextinguivel furor. Do combate, que no ar travam, saltam clares ofuscantes, ardentias e deslumbramentos que cegam e abrasam a pele do rosto.

Um dos capes a que nos encostramos compunha-se em grande parse desta espcie de bambus chamada taboca, cuja haste nos interndios  oca. Nelas produzia o fogo 
detonaes semelhantes as do canho: comeamos a crer que a artilharia paraguaia tornara a entrar em linha. Ps-se o velho Lopes a zombar: "teem se v que os senhores 
so novatos nesta terra".

Pouco depois, como o vento amainasse e a atmosfera refrescasse um pouco, quisemos prsseguir a marcha; mas o Sol, reverberado pelo terreno escaldante e calcinado, 
tornou-a, durante o breve tempo em que a suportamos, uma provao que aos mais robustos arrancava involuntrios gemidos. No podiam os olhos conservar-se abertos 
no abrasado ambiente que atravessvamos.


CAPTULO XV

Incerteza do rumo. Novo incndio e novo ataque dos paraguaios. Penria da coluna. Acertamos novamente com o caminho. Passagem do rio das Cruzes. Recomea a marcha. 
Nova travessia do rio. As mulheres da coluna.

Triste e pensativo, como antes do incndio o vramos, marchava o nosso guia  frente da coluna. Por vezes avanava demais, sem prestar ateno ao perigo que podia 
correr, pois as volutas de vapor e cinzas que no campo, se levantavam, caprichosamente e no raro nos envolviam, nos impediam de ver cavaleiros paraguaios fazendo 
meno de se aproximar. Tambm impressionado com a atitude inquieta de Lopes, perguntou-lhe de chofre o Coronel se acaso seguamos o caminho direito, e se corriam 
as coisas como ele desejava. S obteve evasiva resposta, muito no caso de nos capacitar que ele, o guia, perdera a firmeza, embora hesitasse em confess-lo. Os que 
por largo tempo comparticiparam da vida sertaneja tm um amor-prprio muito maior que os demais homens. Provm-lhes este sentimento do convvio com os selvagens, 
entre os quais, como se sabe, se revela veemente pela inabalvel firmeza com que suportam os mais cruis tormentos, infligidos pelo inimigo vencedor. Cerca de duas 
lguas ainda, andamos assim, embora estrompados. Viera, confidencialmente, dizer-nos o filho de Lopes que, a seu ver, tnhamos de reconhecer volumoso caudal, chamado 
o rio das Cruzes. Observaram-lhe que tais palavras davam como a entender que ao acaso caminhvamos. Respondeu imediatamente que de fato no sabia para onde amos; 
sobrava-lhe a conscincia do erro cometido; no ousava, contudo, abrir-se com o pai. Fra significar-lhe que no mais sabia orientar-se em campo raso; e o respeito 
ao pai votado, ao chefe da famlia, quele que tantas vezes o guiara nas jornadas atravs das solides, obrigava-o ao silncio. Este trao da vida primitiva no 
poderamos deix-lo esquecido; fez-nos correr grande perigo.

Quando o velho percebeu que duvidvamos de seus conhecimentos do terreno, sobreveio-lhe grande desgosto, que no pde ocultar. "No fora a perturbao deste atraso, 
murmurava, a prpria estrada por si nos guiaria; quando algum, pelo campo, procura caminho nunca deve parar".

No consentiu que segussemos as indicaes do filho; fra a seu ver, uma infrao s leis naturais e ao direito patriarcal. Impediu-nos a noite, felizmente a cair, 
prosseguirmos em rumo evidentemente incerto.

Apenas acampados, alis, vimos que para ns o dia no acabara; grande provao ainda nos esperava. Os compridos alagadios que, como dissemos, cortam esta campina 
haviam deixado a macega parcialmente a arder. Considerveis reas ainda havia intatas, principalmente em torno do ponto que atingramos. O fogo que acabava de lhe 
ser ateado j nos cegava e vinha-nos ao encontro, desta vez, porm, precedido dos prprios paraguaios. Julgavam que um ataque cerrado obstaria a manobra pela qual 
at ento nos tnhamos defendido do incndio. Desfilou sua infantaria ao longo de um brejo, em que se apoiava o nosso 21. batalho. Tendo pelas costas a fumaa, 
que nos aoitava em cheio o rosto, graas ao vento que reinava, lanaram-se sobre o flanco de nossa vanguarda. Se esta no primeiro embate houvesse fraqueado e cedido, 
teramos, provavelmente, sido todos devorados pelas chamas. Mas longe de recuar, graas a desesperado esforo, atirou com o inimigo, parte nos pantanos e parte sobre 
o seu terrvel auxiliar, o fogo, que rapidamente se aproximava. Devem suas perdas ter sido grandes; pelo menos pde o capito Pisaflores perceber pelas abertas do 
vento, nesse caos de vapores e chamas, cavaleiros a correr arrastando cadveres e feridos. Quanto  nossa vanguarda fez ela um movimento de recuo, depois de nos 
ter dado, graas a sua dedicaao, tempo de cortar a macega e transport-la para longe. E ento, j no meio de ns outros, estes homens estafados, a quem poderamos 
chamar nossos salvadores, caindo de cansao e sofrimentos, com os rostos queimados, as goelas secas, ardentes, deixaram-se ficar largo tempo estirados no cho sem 
voz nem movimentos. Trs dentre eles nem se ergueram mais; e muitos outros para sempre ficaram enfermos e valetudinrios.

Tendo-se formado de novo, aps o incndio, acamparam os paraguaios numa colina, de onde nos dominavam; o repouso de que tanto carecamos no nos seria possvel antes 
que deles nos desvencilhssemos. Obrigou-os a nossa artilharia a ir procurar abrigo na vertente oposta

Cara a noite. Havia um luar estupendo, cuja calma contrastava com os clares sinistros de alguns finais de incndio, que ainda vagavam pelo campo. Quando os nossos 
clarins deram afinal o toque de descansar, ao longe responderam os dos paraguaios como um eco de escrnio. Tudo parecia insultar-nos as misrias: reinava entre ns 
a fome, com todas as suas torturas e o seu triste preldio, esse desfalecimento que aniquila a coragem e a vontade. De tudo carecamos, oficiais e soldados. Vivamos 
andrajosos, mas a privao do calado era em geral muito menos sensvel a estes do que aqueles, cujos ps estavam intumescidos e ensangentados. Nesta noite enregelou-nos 
o vento Norte, e ao mesmo tempo nos achamos expostos a um desses orvalhos, que j nos haviam feito sofrer tanto e isto quando ainda nos podamos precaver com algumas 
roupas de agasalho.

Como de costume, estvamos todos de p, pela alvorada; mas como nosso guia continuasse a mostrar-se irresoluto, a cada passo chamava o filho a confabularem. Parecia 
at querer abandonar o rumo de leste, insinuando que s o seguira at agora para contornar um alagadio. Afinal de repente, tomou a direo do nordeste. Pelo que 
pudemos conjeturar, ficaram os paraguaios desnorteados com esta sbita inflexo. A galope subiram alguns a colina onde devia estar o seu comandante.

No durou muito, alis, que percebssemos haver tornado ao caminho verdadeiro. Da a um quarto de lgua atingimos a margem esquerda de volumoso caudal que no era 
outro seno o rio das Cruzes. J na vspera o teramos alcanado no fora a excessiva deferncia do filho e o orgulho do pai. Tivemos que parar, pois embora desse 
vau, eram-lhe as barrancas demais escarpadas para que as carretas pudessem parar sem prvio trabalho que nos devia tomar tempo. Os corpos da vanguarda e do centro 
saram, pois, de forma; e deixando a retaguarda em linha, comearam a rampar as ribanceiras. Com muito vigor desempenhou o batalho de voluntrios to importante 
trabalho (urgidos como estvamos pelo inimigo); e um dos seus oficiais, Jos Maria Borges, muito estimado dos soldados pelo gnio alegre, nos mais crticos momentos, 
bem mereceu de toda a coluna nesta ocasio. Muito grato nos  testemunh-lo.

Foi, graas a ele e  sua gente, que pelas duas da tarde, tornou-se a passagem praticvel. Ali estiveram em srio perigo, sob as vistas dos paraguaios, que, durante 
esta parada forada, teriam com real vantagem podido atacar-nos.

Felizmente, e contra qualquer expectativa mantiveram-se imveis em ordem de marcha, prontos a nos seguir, enquanto procuravam alguns dentre eles um vau a montante 
e outro a jusante para, quando nos aproximssemos, incendiarem o campo. So habilssimos, tanto o sabamos, neste gnero de manobras que entre eles chega a constituir 
uma arte, com regras baseadas nos conhecimentos dos ventos e lugares, arte, alis, diablica, quando empregada como arma de guerra.
Ns os provocvamos contudo, e, de tempos a tempos, iam os nossos obuses cair no meio deles.  difcil compreender por que se haviam desfeito da artilharia com a 
qual poderiam responder  nossa; coisa que apenas faziam por meio de gritos e assuadas.

Galgramos, neste nterim, a margem oposta do rio, e ali, apenas chegados, precisamos tomar providncias contra o incndio que nos precedera e vinha ao nosso encontro. 
Apoiava-se a nossa esquerda ao mato que orlava o rio e onde, felizmente, as rvores eram de natureza menos combustvel que a macega. Na ala direita, que tambm estacara, 
foi o capim cortado e acamado com terra, com mais vagar e cuidado desta vez, com mais ordem do que at ento o fizramos. Acercou-se o incndio, envolvendo-nos como 
sempre, de horrveis rolos de fumo; mas as labaredas j no nos ofenderam tanto como das outras vezes. Podamos, alm de tudo, valer-nos do rio onde, lavados em 
suor, cobertos de p e cinzas, amos beber e refrigerar-nos. Passado o fogo, limparam as nossas peas a plancie de paraguaios, que ainda por ali se mostravam; e, 
conservando sempre a mata  esquerda, conseguimos avanar um pouco para ocupar melhor posio.

No dia seguinte, 17, esteve o tempo nebuloso e frio. Soprou o vento com violentas rajadas. Tornou-se a marcha muito penosa, tivemos freqentemente de rentear a macega 
incendiada, o que a espao nos forava a paradas pare limpar o cho. Procurvamos tambm alcanar uns bosques que, com trabalho, atravessamos, porque ali encontrvamos 
tocos e madeiras ainda de p, que a custo podiam os machados entalhar. Vamo-nos ao mesmo tempo apertados pela cavalaria paraguaia  frente, nos flancos e pela retaguarda.

Sentia o comandante a pacincia esgotada. Acusava o guia, atirando-lhe a responsabilidade de todos os atrasos; mas como tais exprobraes fossem ouvidas em respeitoso 
silncio, acabava por acalmar-se. Vencia a bondade natural e com o tom conciliador de quem sofre e compartilha dos infortnios alheios. "No nos irritemos, dizia, 
estamos a pagar os nossos erros".

Todo este dia andamos sempre  matroca. Com o conhecimento do terreno perdera Lopes todo o espirito de iniciativa. Deixava-lhe o filho transparecer crescente inquietao, 
sem proferir, contudo, um nico comentrio. Tornou-se tamanha a fadiga dos bois carreiros de nossa artilharia, que se negaram a ir alm, deitando-se no cho. Fizemos 
alto pois, foradamente, no meio de pequeno capo, onde apenas encontramos gua insuficiente e m.

No deixou o inimigo de vir  noite acampar a pequena distancia de ns; e o 21. batalho, que ainda constitua a nossa vanguarda, teve, desde ento, de abrir tiroteio. 
Durante a noite toda ladrou a canzoada dos paraguaios, que sempre andavam acompanhados de matilhas. Mal lhes responderam os nossos ces, mseros restos de uma malta 
a custo disputada  fome dos soldados.

A 18, desde a madrugada, comeou copiosa chuva que nao tardou em ensopar o nosso pobre fato e nos predisps mais tristemente para uma marcha ainda mais lenta que 
a dos dias precedentes. Nem sempre caa chuva com a mesma fora, mas havia de vez em quando aguaceiros que no tardavam em encharcar o solo, de modo tal que a cada 
passo ficavam as carretas presas e retidas nos caldeires que abriam. Que espetculo confrangedor o do grupo de nossos mseros enfermos, a quem, sob desabaladas 
bte~e no meio dos regatos que elas formavam, tnhamos de deixar no cho!

Precisamos logo atravessar um alagadio muito extenso; e, durante esta longa travessia, no cessaram os paraguaios, que j haviam ocupado todas as alturas dominantes, 
de atirar, embora sem nos causar grande dano. As suas descargas de peloto no tinham maior xito que os estrepitosos hurras com que as acompanhavam. Por vezes chegaram-nos 
os dichotes com que nos insultavam a misria. "Venham tomar-nos o gado e fartem-se!" Algumas balas bem apontadas por homens vidos de vingana castigaram tais ironias.

Quase diariamente sucedia que o sol, fraco de manh, aps as noites glaciais, tornava-se depois escaldante. Variao perene que acabava arruinando-nos a sade. Neste 
mesmo dia. acastelando-se a oeste espessas nuvens, da proveio cedo novo dilvio, que transformou em furiosa torrente um ribeiro j por si volumoso, que Lopes nao 
nos assinalara; e nos forara a uma terceira parada, to cruel quanto as precedentes. Morramos de frio; estvamos a jejuar, e s com muito trabalho,   meia-noite 
pudemos ter fogo,  custa de empilhar muita lenha verde que ardia quase sem labaredas.

Nauseante espetculo revelou-nos, nesse lugar, quanto entre os nossos soldados era a fome tremenda. Ia matar-se um boi estafado, quase agonizante. Formara-se um 
crculo em torno do animal, cada qual mais ansioso esperando o jacto do sangue, uns para o receberem num vaso e o levarem. outros para o beberem ali mesmo. Chegado 
o momento, atiraram-se todos a ele, os mais afastados e os mais prximos. E assim era diariamente. Mal tinha o magarefe tempo de cortar a rs; era quase necessrio 
arrancar s mos dos soldados os nacos a fim de os levar ao local da distribuio. Os resdaos, as vsceras, at o couro, tudo se despedaava ali mesmo e era logo 
devorado mal assado ou cozido; repulsivo pasto de que no podia deixar de originar-se alguma epidemia.

Na manh de 19 lanou o major Borges, sobre o ribeiro, convertido em rio estreito, mas profundo, improvisada ponte que, experimentada, no apresentou solidez bastante, 
obra que fora de operrios mais debilitados pela fome do que com efeito desprovidos de ferramenta. Julgamos necessrio refor-la com um tronco enorme de aroeira, 
encontrado pelas vizinhanas. Foi s ento que a artilharia pde sem acidente atravessar. Uma carreta nica a seguia: queimramos as demais para entreter as fogueiras 
que nos preservaram de completo tolhimento; e esta mesmo s fora poupada porque podia prestar-se para o transporte dos feridos de uma para outra margem. 

Estava inundada a ribanceira que atingramos e ainda vrias vezes se ensoparam os desventurados invlidos levantados a brao antes de acomodados em padiolas ou cangalhas. 
Eram as mulheres que nos acompanhavam setenta e uma, contadas  entrada da ponte. Iam todas a p, exceto duas, montadas em bestas; carregavam quase todas crianas 
de peito ou pouco mais velhas. Por herona passava uma e todas a apontavam. Havendo-se encarniado um paraguaio em lhe arrancar o filho, tomara ela de um salto uma 
espada largada no cho, e num pice matara o assaltante. Mais infeliz vira outra o filhinho recm-nascido espostejado por um inimigo, que pelas pernas lho arrancara 
do colo. Traziam todas no rosto, alis, os estigmas do sofrimento e da extrema misria. Ainda vinham algumas carregadas de objetos provenientes do saque; mantas, 
ponchos, pesadas espadas paraguaias, baionetas e revlveres.

Cara a noite; quando muito conseguramos estabelecer-nos em frente ao nosso acampamento da vspera; mas j era imenso termos atravessado o rio.


CAPTULO XVI

Lampejo de esperana que se desvanece logo. A clera. Reaparece o inimigo. O incendio sempre. Recrudesce a clera. Um recurso: os palmitos. Terrvel passagem de 
um pntano. O tenente Santos Sousa. Acampamento. Consegulmos acender fogo.

Lopes que, desde algum tempo, vramos perturbado a ponto de duvidar de si, acabara, enfim, descobrindo onde estava, e orientando-se. A vista de uma eminncia, a 
distancia, dissipara-lhe subitamente o mistrio apontando-a, deu-nos a certeza de que dois dias mais tarde chegariamos  sue fazenda. "De l se avista, afirmou, 
aquele pico que os senhores vem". Aos mais fracos e desanimados, reanimou esta notcia. Chegados a 21  estancia do Jardim, poderamos, pelo dia 25, entrar em Nioac 
antes dos paraguaios e preservar a vila de novo saque, graas a esta marcha executada em onze dias, e no em quinze.

Assim tnhamos muito prximo de ns o trmo de tantas miserias, quando outra novidade, mais terrvel que tudo, veio agravar a situao, alm de qualquer apreenso 
por mais sinistra que fosse: circulou de repente pelo acampamento a notcia que nele havia clera.

J desde algum tempo tinham os doutores Quintana e Gesteira levado o fato ao conhecimento do Coronel. Pouco depois morrera, com um dia de molstia apenas, um ndio 
terena recebido na enfermaria da Bela Vista.

Supusera-se, a princpio, que seria mero caso espordico; e sobre o fato se guardara segredo, nada se podendo fazer, tudo nos faltando pare dominar o morbo. Em todas 
as parades, enormes fogueiras se acenderam supondo os soldados que se empregava um processo saneador da atmosfera do pantanal. No silncio consistia, realmente, 
o melhor preservativo contra a propagaco da peste. Mas a 18 rasgou-se o vu do mistrio: caram trs homens atacados pela epidemia e com os mais graves sintomas, 
e, desde ento, os nossos dois mdicos que haviam assistido  primeira irrupo da clera no Rio de Janeiro, julgaram imperioso dever no mais dissimular a verdade. 
Fora-nos necessrio, contudo, prosseguir na marcha, subitamente salteados de mal-estar e desmaios caram alguns soldados; o que provocou a perturbao e a confuso 
gerais em nossas fileiras. No se caminhava mais. Os trs homens j atingidos pelo flagelo sucumbiram. Dentro em pouco estavam a carreta que nos restava e um carroo 
de munies, que se lhe adicionara, repletos de enfermos, cujos gemidos por toda a parte apressavam o surto da epidemia.

Teve este dia cruel uma tarde e uma noite como era de prever. A 20, pela manh, o tempo, a princpio chuvoso, melhorou; e logo tornou-se o sol ardente. Ainda caminharam 
menos os animais e os homens mal se arrastavam, tendo a morte sob os olhos e no corao. 

Haviam os paraguaios reconstrudo a ponte e passado. J  nossa frente estavam, apenas dissipara o calor do dia o orvalho e secara a macega.

Puseram-lhe fogo, e com tal xito que no fra um mato de pindabas, felizmente provido d'gua, teria a coluna sido colhida pelo incndio, Mal teve Lopes o tempo 
de nos alojar neste abrigo; deu-nos o Coronel ordem de acampar. Atacados, at a, defendemo-nos como quem defende o refgio derradeiro. Afinal obrigou o tiro de 
nossos canhes o inimigo a retirar-se.

Tudo em volta de ns era fumo, trevas e vapores ardentes. Caiu um de nossos soldados asfixiado. Outro, cego, no meio de um redemoinho, metera-se entre os paraguaios, 
conseguindo, contudo, graas  escurido, safar-se e voltar sem ser reconhecido.

Neste dia fez a clera nove vtimas. Assinalaram-se vinte casos novos: o chefe dos Terenas, Francisco das Chagas, chegou moribundo numa rede que sua gente carregava. 
Estavam estes desgraados ndios no auge do terror, mas no podiam mais abandonar a coluna, ocupado como se achava todo o campo por um inimigo que quando os apanhava, 
jamais deixava de os fazer perecer nos mais horrveis suplcios.

A que causa devamos atribuir esta irrupo da clera ou, melhor, a que causa no a atribuirmos? Seria talvez a came estragada que ramos obrigados a comer, ou a 
fome curtida quando as nuseas venciam o apetite, ou ainda o insuportvel ardor dos incndios que nos escaldavam o sangue, qui a infeco oriunda de todas as substancias 
vegetais que devorvamos, brotos, frutos verdes e podres, ou tambm, enfim, a insalubridade do ar viciado pela gue estagnada dos charcos e lodaais que naquela 
regio tanto abundam.

Supunham alguns fosse o prprio inimigo o veiculador do morbo. muito possvel que aos paraguaios houvesse acontecido - embora jamais suportassem as mesmas privaes 
que ns - porque, de seu exrcito do Sul, dizimado pelo flagelo, tinham recebido reforos. Uma circunstancia ocorria fazendo-nos crer que tambm reinasse o mal em 
suas fileiras: a frouxido, para o fim, dos ataques, embora sempre freqentes.

No entanto, o nmero do Semanario de Assuno, anexo a esta narrativa, nenhuma meno faz da epidemia na coluna paraguaia.

Para a noite caiu abundante chuva, agravadora de todos os nossos padecimentos. Amontoados perto da pequena barraca dos mdicos, sem abrigo e ao ar livre, receberam 
os colricos, nos corpos glidos, as btegas que desabavam, de espao em espao. Era horrvel ver estes mseros, presos de agitao extrema, dilacerando os andrajos 
com que procurvamos cobri-los, rolando uns sobre os outros, a se torcerem com caimbras, vociferando, soltando brados, que se fundiam numa s voz articulada: gua!

Tinham os mdicos esgotado os recursos; a princpio zelosos e ativos, desanimavam os enfermeiros ante o nmero crescente dos enfermos e apesar da ordem que proibira 
o uso da gua, como fatal, davam-na alguma para satisfazer, um instante ao menos, aos moribundos. A isto se limitavam os seus cuidados.

Apesar de tudo, recomeamos a caminhar no dia 21. A carreta e o carroo, com o dobro da lotao, de todos os lados deixavam pender braos, pernas, cabeas onde 
j se imprimiam os sinais da morte. Aos manchegos, aos armes das peas igualmente atulhavam desventurados recentemente atacados e j agonizantes.

Mas logo que a macega perdeu a umidade empregou-se novamente contra ns o odioso expediente de guerra dos paraguaios. Cerca de um quarto de lgua de nossa ltima 
parada pereceu o incndio, tangido por esperta aragem, na iminncia de nos envolver, exatamente no mesmo lugar onde nos detivramos e onde, de todo, se baldaria 
o zelo de Lopes, se acaso uma mudana do vento no houvesse desviado aquele furacso de chamas. Recomeamos o lgubre desfilar; mas ainda no vencramos meia lgua, 
quando os bois da artilharia afrouxaram, por no terem bebido, desde o acampamento do dia 19.

Estvamos felizmente num terreno cuja macega escapara ao fogo da manh, graas, provavelmente,  corrente de ar que nos salvara.

Era uma chapada extensa que, inesperadamente, se levantava de uma depresso onde corre um riacho. Outra chapada, um pouco mais alta, e voltada para o sul, ligava-se 
a um campo imenso, O mesmo que Lopes, numa primeira incurso, batizara Campo das Cruzes; e no fundo do qual se erguia a nossa baliza - o morro da Margarida. Tem 
o perfil deste pico algo de notvel em sua regularidade elegante. J da Bela Vista o avistramos; agora o saudamos como a velho amigo.

Se tal foi a nossa impresso, teve Lopes outra muito mais viva, ainda. Via-se, aps tantas dvidas cruis, justificado no seu foro ntimo. Restitura-lhe a alegria 
toda a vivacidade da primeira mocidade. Arrebentara naquele momento novo incndio no campo; vimo-lo correr, de archote em punho, para o combater, com armas iguais, 
dizia. E conseguiu-o, varando por entre os cavaleiros paraguaios, espalhados pelo campo e que quase o apanharam.

Estava, novamente, na plena posse de si, liberto da responsabilidade que o acabrunhava e quando lhe observvamos quanto precisava poupar-se, respondia que ningum 
podia ir de encontro  vontade de Deus, devendo cada qual entregar-se s mos do Senhor. Dizia-lhe Ele que estvamos chegando ao termo de nossas provaes. "Saibamos 
morrer, acrescentava; diro os sobreviventes o que fizemos".

A 22 apenas andamos trs quartos de lgua, pois dependamos inteiramente das juntas que puxavam os canhes e ainda na vspera quase no tivera o gado o que beber. 
Mal dera o minguado filete, junto ao qual acampramos, gua bastante para os homens.

Tivemos de parar, foradamente, junto a um brejo, cuja vestimenta era bastante capaz de dar algum alento aos nossos animais. A ficamos encostados a um mato que, 
felizmente, ia at um riacho chamado Prata, o primeiro afluente meridional do Miranda, como Lopes no-lo disse. J, portanto, nos abeirvamos desse caudal, objeto 
de tantos anseios.

Uma vez neste lugar, entendeu o Coronel que nada obstava informar a gente de Nioac de nossa proximidade e da do inimigo. Estava o caminho livre, pela mata do Prata, 
que se perde na do Miranda; no correndo risco algum quem a atravessasse. Para esta comisso escolheu dois homens corajosos, afeitos  vida do mato, caadores sabidos 
daquelas terras.

Fra o bilhete, que se lhes deu, endereado ao coronel honorrio que comandava o depsito, redigido em francs para, pelo menos, escapar s probabilidades mais fortes 
de divulgao. Noticiava em suma que a coluna batera em retirada; e, provavelmente, atingiria Nioac antes do inimigo, convindo, no entanto, transportar para lugar 
seguro e o mais depressa possvel, as munies, os vveres, o arquivo, e alguma bagagem dos oficiais. Era, sobretudo, necessrio que toda a tropa disponvel marchasse 
s ordens do capito Martinho a emboscar-se para deter os paraguaios, caso aparecessem.

A 24 chegavam os mensageiros  colnia de Miranda ali encontraram os negociantes que com a lentido habitual haviam retrocedido, tendo achado, ainda, avolumados 
pelas chuvas, os grandes rios, que evitramos graas  estrada pela fazenda do Jardim. Deixando este comboio  retaguarda, a 27 atingiram Nioac os nossos correios, 
com a missiva do comandante, divulgando o que em nosso acampamento haviam presenciado, assim como todos os boatos sinistros de que se fizeram ecos os mercadores 
em caminho.

A 25 progredimos cerca de lgua e meia, considervel esforo, pois os nossos soldados vlidos quase todos se empregavam em carregar as padiolas dos enfermos e destes 
padioleiros, vrios, subitamente atacados, em vez de ajudarem aumentavam a carga.

As contnuas convulses dos agonia antes ainda e de tal modo agravavam esta faina horrivelmente penosa que os soldados, estafados, punham-se de repente, como  porfia 
com os colricos, a soltar selvagens gritos impacientes, ameaando arriar e abandonar o fardo.

S algumas redes, ocupadas por oficiais, conservavam certo decoro lgubre: jamais esqueceremos o belo rosto resignado do tenente Guerra, moo exemplar, filho nico 
de uma viva que nunca o tornaria a ver... Neste dia ao incndio precedeu um ataque de atiradores . Repeliram-no alguns dos nossos e o fogo tambm passou; mas o 
outro inimigo, a clera, o adversrio oculto, redobrou os golpes com que nos feria, a ningum perdoando. Desapareceu no mesmo dia uma famlia inteira; pai, me e 
filho em horas fulminados juntos. De inanio pereceu uma criana de peito que, dos braos da me moribunda, passara aos do pai e deste aos de camaradas, que tambm 
no tinham alimento algum.

Soubemos que dois soldados haviam enlouquecido. Assim se explicavam os gritos, cujas notas estridentes se haviam associado aos rudos que habitualmente nos afligiam; 
lamentos, furores e desespero. Outro mal comeou: a desero; desapareceram vinte e quatro soldados da linha de defesa do acampamento.

E no entanto impossvel lhes era escapar  morte pela fome ou s mos do inimigo. A datar deste dia no houve, no mato, moita onde se no escondesse algum fugitivo. 
Abandonaram-nos os nossos ndios Guaicurus, no conseguindo mais det-los o receio do fado que os aguardava, se os paraguaios os apanhassem.

Tais os incidentes que entre ns ocorriam. Embora dizimados, serenamente mantinham os oficiais o esprito geral da corporao; uns procuravam os outros reuniam-se, 
trocavam palavras amigas e de bom conselho. Esta serenidade d'alma s era natural entre homens de tmpera especial como Jos Toms Gonalves, Pisaflores e Marques 
da Cruz; ou excepcionalmente fortes como Lago, Cato e Jos Rufino. A mesma atitude impassvel tornava-se em outros igualmente notada, embora menos energicamente 
constitudos. Tomava, no tenente-coronel Juvncio, laivos de melancolia ao lembrar-se da famlia. Quanto ao comandante este se reconcentrava em sua dignidade e no 
sentimento do dever. Aproximava-se a hora em que, a tal respeito, nos daria as mais extraordinrias provas.

Na manh de 24 uma chuva torrencial, e contnua, no tardou em transformar em atoleiro o solo argiloso sobre o qual acampramos. O vento spero e impetuoso lanava-nos 
verdadeiras enxurradas. Assim mesmo partiu Pisaflores, o bravo rio-grandense,  testa de cem homens, a um quarto de lgua,  margem do Prata, abrir uma picada num 
lugar indicado por Lopes. Este servio, rapidamente executado, deu aos trabalhadores o ensejo de descobrir na mata palmitos em profuso, inesperado recurso que levou 
o comandante a mandar que estacassemos, porque tambm ali estava o solo mais seco. Nao pde, entretanto, a marcha recomear antes das cinco da tarde, e o que foi 
este deslocamento de posio s uma palavra traduz: desolao. Observando-nos de muito perto assaltaram-nos os paraguaios, com vaias e tiros, a que tratvamos de 
responder do melhor modo. Mas o que mais penoso foi, ao atravessarmos grande charco, o banho gelado em que at a cinta afundamos. Rompeu-se a formatura; nem sequer 
nos vamos mais. A espessa escurido que sobreviera seguiu-se a noite, sem intervalo, uma destas noites propcias aos desastres e aos crimes: a mais de um doente 
afogaram os seus carregadores.

As oito horas passara o grosso da coluna acampando ento, s dez veio a retaguarda ocupar o seu posto. At tarde, pela noite adentro, chegaram retardatrios, condutores 
de carretas extraviadas e at colricos que haviam podido pr-se de p, depois de atirados das padiolas ao cho.

Deu-se, entretanto, uma cena que  memria consola evocar. Entre as padiolas, onde prostrados se achavam soldados, uma houvera que a queda de um dos padioleiros 
ia submergir no pantano, prestando-se os demais trs, talvez, a este caso que os libertava do fardo, quando um quarto apoio, o ombro de um oficial, se apresentou 
para salvar o infeliz que ia perecer. O tenente Clmaco dos Santos Sousa, autor deste ato de altrusmo, teve, em prmio, os louvores de ns todos.

Framos ficar em terreno menos lodoso; mas muito tempo decorreu antes que pudssemos acender a lenha encharcada.

Era felizmente resinosa. Oh! com que alegria saudamos as primeiras chamas! Qualquer lugar junto destas fogueiras era cobiado; quase todos conseguiram, contudo, 
aboletar-se, sos e enfermos misturados. Morreram at dois colricos ali. Foram os cadveres removidos, eram heranas a receber, lugares de calor. Apareceram logo 
os palmitos que os mais geis dos nossos tinham corrido pedir aos trabalhadores do capito Pisaflores, apenas se sentiram um pouco alentados pelo fogo Foi o alimento 
prontamente cozido sobre brasas na cinza e cada qual teve o seu quinho, uns mais, outros menos.

Nunca se desmentiram os hbitos hospitaleiros da mesa brasileira, nem ali nem em parte alguma; e at mesmo nas mais terrveis conjunturas.


CAPTULO XVII

Chegada s divisas das terras do guia Lopes. Passagem do Prata. O inimigo nos acompanha sempre, mas persegue-nos frouxamente. Devastaes da clera. Perplexidade 
do coronel Camiso. Abandonamos os enfermos. A separao. Ao tenente-coronel Juvncio e ao coronel Camiso salteia a peste. Morte do filho de Lopes. Prossegue a 
marcha. Chegada  fazenda de Lopes; morre este ali, de clera. Seu tmulo.

A picada que acabava de abrir o capito Pisaflores dera j passagem ao nosso guia que, vendo-se, afinal, nas divisas de sua propriedade, dessa fazenda que tanto 
amava, e de que to freqentemente falava - no pudera resistir ao mpeto de a palmilhar o mais depressa possvel. Assim se adiantara com o filho e os refugiados 
do Paraguai. Era a largura da picada suficiente para dar passagem aos homens, mas no ainda aos armes e bocas de fogo. Havia ainda a melhorar as rampas lodacentas 
do rio, o que pediria tempo, dado o estado de fraqueza em que nos deixavam a molstia e a fome.

Foi s s dez da manh de 25 que comeamos a nos mover para galgar a margem direita do Prata, onde ocupramos uma eminncia dominadora de toda a circunvizinhana. 
Foradamente, ia o transporte ser extremamente lento; nem de outro modo seria possvel. Subiu o nmero de padiolas, que tinham de transpor o rio, a 96, cada qual 
tomando oito homens que se revezavam, todos, alis, de m vontade, mostrando os mais recalcitrantes os ps esfolados e tintos de sangue. De espada em punho exigiam 
os oficiais o cumprimento deste dever, tanto mais penoso quanto dele se no podia esperar nenhum resultado favorvel; achando-se quase todos os enfermos, como de 
antemo, fadados  morte. Sacrificava-se assim aos moribundos o que ainda restava  coluna de fora e futuro.

J desde a irrupo da peste perdramos muito mais de cem homens; uns vinte acabavam de ser enterrados no acampamento que deixramos e com eles o tenente Guerra.

As duas da tarde e  custa de muito trabalho tudo estava na margem direita, queimada, que fora a nossa ltima carreta e mortas as suas juntas para que as comssemos. 
Multiplicaram-se durante toda a tarde os casos epidmicos a ponto de se tornar impossvel imaginar como poderamos avanar. Novo arranjo imaginado pelo comandante, 
para as padiolas, levou ao desespero o descontentamento dos soldados, que nele enxergaram um aumento de carga e de fadiga. Chegamos a pressentir que entre eles se 
gerava a idia de geral "salve-se quem puder". Metendo-nos no mato, diziam, "ao menos alguns de ns chegaro a Nioac; em todo o caso deixaremos de ser escravos de 
moribundos, pela mor parte desvairados".

Entretanto tinha o inimigo vindo acampar no nosso ultimo pouso. Veio incomodar-nos uma partida de seus atiradores; tambm desvaneceu-se logo diante de duas companhias 
nossas. Ento, como nos achssemos incapazes de pensar em persegui-los, puseram-se os paraguaios a esquadrinhar, com todo o vagar, todos os cantos do nosso ltimo 
acampamento. Como percebessem a existncia de montculos recentemente revolvidos, abriram as covas, delas exumando os cadveres para os despojar dos miserveis andrajos, 
que depois, violentamente, entre si disputavam. Houve mesmo quem se desse pressa em os vestir. Permitiam-nos os culos de alcance perceber claramente to revoltante 
espetculo, que nos punha estupefatos como se inacreditvel miragem constitusse. A uma de nossas granadas atiradas pela pea de Napoleo Freire que firmara a pontaria 
quando eles estavam em grande nmero, no meio das sepulturas - estourou-lhes exatamente sobre a cabea, matando alguns. A outros atirou nas covas, dispersou os restantes, 
e libertou aquele local de sua presena. To justa represlia veio trazer alguma animao ao acampamento at o pr do Sol deste triste dia.

 noite mandou chamar-nos o coronel Camiso. J com os comandantes dos corpos tivera vrias conferncias. Parecia profundamente impressionado. Falou, contudo, sem 
acrimnia da fatalidade que acompanhava os movimentos da coluna e vrias vezes repetiu o que sinceramente lhe ia n'alma: "para um chefe era a morte prefervel ao 
espetculo que desde algum tempo tinha sob os olhos". Queixou-se, em termos comedidos, sem aquele tom acerbo de outrora, da escolha do caminho que o haviam obrigado 
a seguir. -"E Nioac?, exclamava. E os nossos enfermos? Ah! quanto quisera eu estar no lugar de um destes que acabaram!" Bem percebamos que ainda tinha qualquer 
coisa a nos dizer; retiramo-nos, contudo, sem que conosco se abrisse.

s dez da noite vieram novamente chamar-nos, de sua parte. Deixamos o couro que com o tenente-coronel Juvncio compartamos, e ambos fomos com ele ter. J estava 
o comandante em conferncia com o major Borges e o capito Lago excogitando os meios de transportar os novos doentes. Discutta-se a possibilidade de coloc-los em 
metades de couros presos pelas beiras,  feio de cangalhas, que as mulas carregadoras do cartuchame deviam levar. Era a empresa inexeqvel, quando mais no fosse, 
pelo acrscimo de carga que assim recairia sobre os soldados, j exaustos. Defendeu ele esta idia com insistncia e contra a opinio de todos ns. Ainda desta vez 
nos separamos sem lhe conhecer o ntimo pensar.

Afinal, era cerca de meia-noite, e de novo convocou os comandantes e os mdicos. Acabara de tomar a suprema resoluo com que, durante os ltimos dias, se embatera 
e cuja idia, como recurso extremo, lhe acudira ao esprito como ao de todos, sem que, contudo, houvesse algum ainda ousado exprimi-la.

Depois de, em concisas palavras, haver exposto o estado das coisas, e a urgncia da avanada rpida, sem a qual estvamos todos perdidos e a impossibilidade, agora 
perfeitamente averiguada e geralmente reconhecida, de levarmos mais longe os enfermos, declarou aos comandantes que, sob a prpria responsabilidade, e em obedincia 
a rigorosos ditames que lhe impunham este dever, iam os colricos, exceto os convalescentes, ser abandonados nesse mesmo pouso! No houve uma s voz que contra esta 
deciso se levantasse. A si avocava o coronel Camiso toda a responsabilidade. Longo silncio acolheu a ordem, sancionando-a.

Convidou, contudo, o Coronel aos mdicos que lhe apresentassem objees, acaso inspiradas pelo dever profissional.

Depois de alguma reflexo, disse o Dr. Gesteira que no ousava aprov-la nem a desaprovar, s lhe competia, ento, o silncio, pois se de um lado tinha de atender 
ao seu juramento profissional, por outro achava-se este, no caso atual, em contradio absoluta com a sua conscincia de funcionrio pblico adido  expedio.

Como desvairado, ordenou, ento, o Coronel que,  luz de fachos imediatamente na mata vizinha se abrisse uma clareira, para onde seriam os colricos transportados 
e abandonados. Ordem terrvel de dar, terrvel de executar; mas que, no entanto (foroso  confess-lo), no provocou um nico reparo, um nico dissentimento. Puseram 
os soldados, logo, mos  obra como se obedecessem a uma ordem comezinha; e - to facilmente cede o senso moral ant a presso da necessidade - colocaram no bosque, 
com a espontaneidade do egosmo todos estes inocentes condenados, os desventurados colricos, muitos deles companheiros de longo tempo, alguns at amigos provados 
por comuns padecimentos.

E, coisa que a muitos parecer no menos espantoso, os prprios colricos, desde os primeiros momentos, e sem que fosse necessrio recorrer a subterfgios, resignadamente 
aceitaram este ltimo golpe da fatalidade.

Contribuam provavelmente as dores do horrvel mal para a indiferena dos pacientes; ou talvez tambm a idia do repouso substitudo s torturas dos solavancos da 
marcha; mas acima de tudo, este desprendimento fcil da vida, prprio dos brasileiros e que deles, to depressa, faz excelentes soldados. Apenas pediam todos um 
favor: que lhes deixssemos gua. Dominados por tantas e to funestas impresses ns nos reunramos em torno da barraca do tenente-coronel Juvncio. Chamaram-nos 
a ateno os seus gemidos: acabara a molstia de o saltear tambm! J estava irreconhecvel com a voz demudada e sinistra. Foi o nosso primeiro mpeto correr  barraca 
dos mdicos; dela voltvamos quando junto a ns, reboou uma detonao, seguida de vrios tiros das sentinelas inimigas. Era o soldado de planto do quartel-general 
que se suicidara; horrveis caimbras havendo-o atacado, delas acabava de se libertar.

Ocorreram todos estes rudos sem que o tenente-coronel Juvncio desejasse conhecer-lhes os motivos e at sem que parecesse perceb-los. Tomara-lhe, pouco a pouco, 
a agitao o carter de frentica alucinao.

Ns mesmos, ao seu lado, estafados pelo cansao, esgotados por tantos sobressaltos, mal conseguamos combater um sono acabrunhador, pejado de pesadelos, de desalento 
e carnificina.

Durou a noite inteira a trasladao das vtimas, at os primeiros albores do dia. Neste momento de agonia dos miseros abandonados, veio o velho guia Lopes, de regresso, 
desde a vspera, da excurso s suas terras anunciar a morte do filho, de cuja molstia j nos noticiara. Tremia-lhe a voz, mas conservava uma atitude calma. "Meu 
filho morreu, disse ao Coronel, e desejo sepult-lo em terra minha, um pequeno favor que por ele, e por mim, solicito; sua vida, como a minha, pertencia  expedio. 
Deus, que tudo determina, salvou-o varias vezes da mo dos homens para tom-lo hoje".

Tudo, a cada momento, se entenebrecia em torno de ns. Nada mais digno de inspirar a simpatia e a compaixo do que o aspecto do Coronel, depois da ordem que dera, 
e se cumpria enquanto comevamos a marchar.

Pesar, remorso? perturbao de esprito, na apreciao dos motivos que o haviam feito agir e parecia estar a debater intimamente, quando j as suas ordens estavam 
no domnio dos fatos consumados? Certo  que, palido como um espectro, parava, para ouvir, como involuntariamente.

Por mais silenciosos e tristes houvessem sido os preparativos, no foi sem gritos e rudos estranhos ao ouvido e cuja causa assombrava o esprito, que chegou o momento 
do abandono. A todos ns foi intolervel. Deixvamos entregues ao inimigo mais de cento e trinta colricos, sob a proteo de um simples apelo  sua generosidade, 
por intermdio destas palavras escritas, em letras grandes, sobre um cartaz pregado num tronco de rvore: "Compaixo para com os colricos!"

Pouco tempo aps nossa partida e j fora do alcance da vista, veio um estrpito de viva fuzilaria apertar-nos os coraes. E que clamores indescritveis, ento, 
ouvimos! Ningum de ns ousava olhar para o eompanheiro!

Pelo que depois nos contou um dos pobres abandonados, salvo milagrosamente, vrios enfermos (ele no sabia bem se houvera ou no geral chacina) se haviam soerguido 
convulsamente e, reunindo todas as foras, corrido para ns. Nenhum, porm, conseguira atingir-nos, devido  fraqueza fsica ou  crueldade do inimigo. Nossa coluna 
tinha, contudo, demorado a marcha, instintivamente, como  sua espera.

J os nossos armes estavam sobrecarregados de novos enfermos, de permeio com os convalescentes; e o corpo de exrcito, tomado do mais sombrio desespero, vencera, 
apesar do cansao, duas lguas! A necessidade do repouso deteve-o  margem de volumoso ribeiro que atravessava as dependncias da estancia do Jardim.

O filho de Lopes, at ento transportado num reparo de pea, e escoltado pelos amigos companheiros de cativeiro no Paraguai, foi enterrado  margem direita. O pai 
que, enquanto se abria a sepultura, se mantivera a alguma distancia, disse, ao lhe contarem que o solo estava muito mido e at encharcado: "Agora que importa? entreguem 
 terra o que lhe pertence!"

Voltava pouco depots colocar-se-nos ao lado, plido e como exausto do cansao, dominando-se contudo. Sob os nossos olhos se dilatava a sue imensa propriedade; assinalou-nos 
diversos pontos, por ele consagrados pelas recordaes da vida plcida que ali fra a sua. Naquele ponto, ao longe, iam suas vacas beber a gua de um solo nitroso. 
Em outro encontrava o seu gado, do qual parte era melo alado, pastagens das melhores que o detinha ou logo o faziam voltar. Outros lugares despertavam-lhe imagens 
de cenas patriarcais; dominava-o febril expanso que no conseguia reprimir.

Quando o deixamos, justamente preocupados, e apressurados pelo encontro do tenente-coronel Juvncio, vimos que nada mais havia a esperar do estado em que se achava 
e como tanto recevamos. Indo levar notcias ao comandante, qual no foi o nosso pavor quando o encontramos, ele prprio, por sua vez, atacado.

Deitado de costas na macega, com o chapu no rosto desde que se levantou e descobriu, para nos falar, vimo-lo irremediavelmente perdido; os estigmas da clera sobre 
ele se haviam impresso. Conservava, no entanto, uma calma que a situao tornava admirvel. "Vou morrer, tambm, pronunciou; era fatal. Salvei a expedio. O Sr. 
que o sabe, h de o dizer".

Ao recomearmos a marcha, nem sequer experimentou montar a cavalo, carregaram-no para um armo, onde o puseram ao lado do tenente Slvio, j agonizante; dois cadveres, 
um perto do outro. Era-lhe a impassibilidade completa; mos cruzadas sobre o peito com o chapu desabado sobre os olhos, procurava subtrair-se aos raios do Sol deslumbrante 
que a esta triste cena iluminava. Queixando-se Juvncio de to ofuscante claridade, corremos em busca de um guarda-sol que vimos aberto; no conseguimos reprimir 
um grito de dor, encontrando sob este abrigo um dos mais amveis moos da coluna, o alferes Mir, que expirava por entre indizveis padecimentos. De manh ainda 
o vramos vlido e bravo; derreado agora, sobre o cavalo, mal se sustinha entre os braos de um patrcio e amigo, o capito Deslandes, que no tardaria em o entregar 
 terra.

Determinou-se o ponto do pouso: no meio da mangueira de Lopes. Estava a findar o desempenho completo da misso do velho guia e este dever parecia ser o ltimo liame 
que  vida o prendia. Dissera-nos algumas horas antes: "Reparem neste campo verde-escuro;  o meu retiro. No chegarei at l. Os senhores  que breve estaro em 
Nioac".

Enfraquecido, arcado, caminhava cabisbaixo sobre o aro da sela. Escaparam-lhe de repente os estribos e rolou ao cho, assaltado pela clera. Colocado sobre um 
reparo, reanimou-se um pouco, e ainda assim dirigiu a marcha. Como o genro, Gabriel, quisesse atalhar por um capo, recomendou com voz sumida: "Contornem o mato, 
que  muito sujo". Ao cair da noite estvamos  vista da colina, ao p da qual se acha o retiro, o antigo local do rodelo de gado da estancia, que Lopes de longe 
nos mostrara. Declinava o Sol, do seu disco grandes raios alaranjados se desferiam, na fmbria do horizonte, realando a mais admirvel perspectiva, to bela que 
a memria no-la reproduz ainda agora. Estes esplendores eternos da natureza ainda mais pungentes nos tornavam o sentimento de nossa prxima runa. Absorvia-nos esta 
contemplao quando um esquadro paraguaio chegou a galope com a inteno de cortar nalgum lugar a nossa linha indecisa e descontnua. A parada instintiva que, por 
toda a parte, se realizou, preservou-nos do ataque.

Acampamos naquele local, tendo vencido quatro lguas de estafante marcha, privados como framos de alimentos e de sono; tangia-nos a necessidade e entramos nos cercados 
do retiro.

Foram o coronel Camiso, o tenente-coronel Juvncio e o guia Lopes instalados num galpo arruinado, perto do qual acendemos grandes fogueiras, para ver se os aquecamos. 
Alguns limes e laranjas, que lhes foram dados, acalmaram-lhes um pouco a sede. Quis ainda o Dr. Gesteira experimentar um medicamento. "Dr., disse-lhe o Coronel, 
trate dos soldados. No se canse inutilmente comigo, sou homem morto". A calma no o abandonou um s momento. Quando muito deixava escapar alguns gemidos surdos, 
ao sofrer torturas cujo exacerbamento fazia gritar e estrebuchar os companheiros de agonia. Passou-se a noite, para todos, numa agitao enorme. Aos lamentos respondiam 
outros lamentos; aos horrores da molstia acresciam os desfalecimentos da fome.

Na manh de 27 ainda de ns se aproximou o inimigo, fazendo meno de nos disputar a passagem do ribeiro a que d o nome o retiro. Conteve-se, porm, ante a atitude 
do 17. de voluntrios, que formava a nossa retaguarda, e assim continuou a nossa marcha, como a da vspera. J sem voz, era o coronel Camiso carregado sobre um 
reparo de pea, Lopes sobre outro e o tenente-coronel Juvncio, assim como vrios outros oficiais e inferiores, em redes. Durante a ltima parade trs haviam morrido. 
A meia lgua do retiro atingimos afinal a margem do Miranda, demasiado abatidos e acabrunhados, porm, para podermos experimenter a alegria com que contramos. Via-se, 
 margem oposta, a casa do guia, o teto hospitaleiro onde o viandante sempre encontrara boa acolhida e a abundncia de tudo. No momento de ali chegar expirou o nobre 
velho, insensvel  vista daquilo que tanto amara. Foi enterrado no meio do nosso acampamento, em terra que era sua.
Os amigos lhe puseram sobre a sepultura tosca cruz de madeira.


CAPTULO XVIII

Chegada s margens do Miranda. Mantm-se o inimigo afastado para evitar o contgio da clera. O Miranda no d vau. Alguns hamens o atravessam, entretanto, a nado, 
trazendo a boa notcia da existencia de grande laranjal, coberto de pomos maduros. Os caadores recebem a ordem de tentar, em corpo, a passagem e conseguem-no. Morte 
do tenente-coronel Juvncio. Morte do coronel Camiso. Substitue-o, no comando, o major Jos Toms Gonalves. Instala-se um vaivm sobre o rio. Chegam abandantes 
as laranjas. Seu efeito benfco sobre os esfaimados e colricos.

Irremedivel se afigurava a nossa situao. Os paraguaios, em torno de ns, de observao, pareciam, como bem disse El Semanario de Assuno, anexo a este narrativa, 
gozar sem perigo, e tranqilamente, do espetculo de nosso aniquilamento pela fome e a peste. Tinhamos, com efeito, diante de ns um grande rio transbordado a nos 
cortar a nica via de salvao.

A estao de abril a setembro no  a das guas; mas como se toda a natureza se houvesse contra ns coligado, tem, desde 13 de maio, haviam sido as chuvaradas que 
o Miranda intumescera de modo assustador, bramindo e espumando sobre as razes desnudadas das rvores da barranca, no dando esperanas de permitir vau antes de 
alguns dias. Era, no entanto, para a Coluna, o nico meio de o transpor. No podamos pensar em alar uma ponte quando mal dispnhamos de gente suficiente para o 
servio das guardas: homens, no entanto, bem capazes ainda de ardor e energia num combate, mas no de contnuo trabalho manual, como este que exige uma construo 
de vulto. Estvamos, pois, sob os olhos dos paraguaios, segundo uma expresso destespenes, como gado encurralado e destinado ao corte.

Malgrado, entretanto, o aspecto ameaador do rio, lanaram-se  gua alguns nadadores intrpidos, impelidos pela fome, e, contra a expectativa geral, aps muitos 
esforos, atingiram a outra margem, onde no encontraram vestgio algum do inimigo. O que descobriram foi a tranqila morada de nosso valoroso guia rodeada de belo 
laranjal, cumprimento, to agradvel quanto completo, das promessas do velho e de todas as maravilhas que do seu pomar nos referira.

No tardou que um dos primeiros exploradores dessa terra de promisso, lembrando dos companheiras de misria, tivesse o mrito de, sem detena, atravessar de novo 
o caudal. Com a descrio animada de tudo o que defrontvamos - veio inflamar a mente daqueles que ainda haviam conservado algum resqucio de iniciativa. Como a 
ausncia, j muito sensivel, do chefe nos deixasse larga autonomia, muitos foram os que, em tropel, correram  beira-rio, para tentar a passagem. Muitos a experimentaram: 
os mais fracos ou os menos favorecidos, trados pelo desfalecimento, desapareceram na correnteza; outros dali, contemplando os felizes ocupantes da margem fronteira, 
tomaram-se como de desespero que quase desfechou supremo golpe nos restos da disciplina, sobrevivente a tantos desastres. Do prprio couro em que jazia quase agonizante 
ainda dava ordens o Coronel, umas, por vezes, incoerentes e inexeqveis, mas outras lcidas, e prticas. Mandou que o corpo de caadores a p, o nico ainda no 
contaminado pelo esprito de desorganizao, atravessasse, quanto antes, o rio. Guarnecendo a outra margem, devia impedir o saque do pomar at que ele, comandante, 
ali pudesse ir ter a fim de proceder  justa distribuio de quanto l havia.

De acordo com esta prudente determinao, teve o capito Jos Rufino de fazer passar toda a sua gente junta. Pensou, a princpio, na construo de uma jangada, mas 
faltavam-lhe materiais e, sobretudo, operrios. Tomou-se de impacincia; podia contar com toda a sua tropa afeita a hbitos de austera disciplina e, em absoloto, 
obediente s suas ordens. Viu os soldados porfiarem entre si, no af de facilitar a passagem dos oficiais. Foi ele prprio o primeiro a entrar dentro do couro, com 
as quatro pontas levantadas e amarradas em forma de saco (o que se chama pelota), a que um nadador puxa por uma corda presa entre os dentes. Assim se ps  frente 
daquela massa tumultuosa de homens.

No os perdamos de vista. Quando atingiram o meio da torrente, ainda os ouvamos, entre o marulho dos colches, incitarem-se uns aos outros. Houve, segundo nos 
pareceu, ento, a todos, um momento de luta e hesitao que nos fez por eles tremer, mas nao tardaram a reaparecer, descambando para a outra margem, embora com grande 
descada. Vimo-los, enfim, sos e salvos chegar a fazenda do Jardim: era um consolo e uma esperana.

Longe de amortecer, redobrara a clera de violncia. Crescia o nmero dos enfermos e recevamos que, quando o rio baixasse, a ponto de nos dar vau, no tivssemos 
remdio seno abandonar segundo grupo de moribundos,  merc do inimigo inexorvel; e s esta idia nos causava a angstia de um pesadelo. Acabara o corpo de artilharia 
de se extinguir. Depois dos mais fracos tombados nos primeiros dias, tocara a vez aos mais robustos; caam como para se aniquilar a arma a que devramos a salvao. 
Nada, entretanto, do que pudesse evitar ou combater o mal haviam poupado os seus chefes. Dava o tenente Nobre de Gusmo, constantemente o exemplo da dedicao pelos 
enfermos, e os soldados imitando-o, entregavam-se  prtica de socorros mtuos que os demais corpos ignoravam.

Tal o estado, cada vez mais deplorvel, em que veio o dia 28 encontrar-nos. De tempos a tempos amos examinar o nvel das guas para ver se baixava; pois seria isto 
a nossa nica via de salvao. Nada tnhamos que comer e a custo conseguramos, a peso de ouro, arranjar algumas 1aranjas que os nadadores mais ousados traziam com 
largos intervalos. Foi este, alis, o nico conforto a que se no mostraram insensveis o coronel Camiso e o tenente-coronel Juvncio, na sede da agonia exasperada 
pela gua.

Aps a passagem do corpo de caadores, cada vez mais considervel se tornara o ajuntamento  beira-rio Todos os movimentos daquele batalho, na outra margem, acompanhados 
pelas nossas vistas alongadas, ns os comentvamos. De tempos a tempos precipitava-se algum a nado ou arriscava passar em pelota para procurar reunir-se aos camaradas, 
apesar das ordens em contrrio. A morte de vrios soldados, afogados, mostrara a urgncia de se manter, mais rigorosa ainda, a proibio. No houve, entretanto, 
ameaas nem objees capazes de dissuadir um capito do 20. que, todo vestido, entrou numa pelota, conduzida por dois nadadores. Cria poder com eles contar, mas, 
no meio do rio, como as foras lhes faltassem, entregaram-no  correnteza. Vimo-lo envidar longos esforos para se manter  tona e depois submergir-se, pouco a pouco 
a desaparecer, com gritos de desespero a que,  mngua de socorro, respondiam os da multido reunida no lugar de onde partira. Pouco depois um nadador, chegando 
da margem

Era o receio infundado porm; pois  coincidncia comum a todos os caudais - depois de demorados nos transvasamentos pela prpria expanso - adquirirem, quando voltam 
ao leito, maior velocidade, embora transitria, que progressivamente diminui, se se no renovam as chuvas, at o momento em que as guas voltam ao regime normal. 

Neste interim, e por causa da afluncia dos soldados  beira-rio, foi o nosso pouso ficando deserto. Em busca de lugar fresco haviam os doentes transposto algumas 
braas de um pantano que nos envolvia o acampamento e corrido mais longe arrumar-se num bosque, bastante espesso, de ambos os lados de uma estrada aberta que era 
a de  Miranda. Haviam-nos seguido parentes e amigos e ali todos se instalavam, como para ficar. Ja varios soldados se tinham metido no mato, a procura de caca, ouvindo-se 
os tiros que ao longe disparavam. Supusemos a princpio fosse o inimigo, que no sabiamos onde parava. Desaparecera, ou para preservar do contgio da epidemia que 
conosco arrastvamos.

Neste mesmo dia 28 morreram algumas mulheres, mais desvalidas ainda que os demais doentes, mais desprovidas de recursos e, por motivo de sua natural fraqueza, mais 
ferreteadas pelos estigmas da misria absoluta.Quase no existia mais entre ns a autoridade. Fora, desde o comeo, frouxa as mos do coronel Camiso, sempre que 
se tornara precisa e iniciativa de uma deciso ou proceder a uma escolha entre diversos alvitres e alternativas. Tornara-se,  certo, mais firme quando os reveses 
nos acabunhavam, uns sobre outros; para no fim antingir o herosmo quando, com uma abnegao, cujo esforo indubitavelmente lhe arrancara a vida, abandonara os enfermos 
para a salvao da coluna. Desde, porm, que a clera o atacara ia tudo ao des-dar; sentamos todos quanto nos era indispensvel novo chefe.

A 29 tornou-se evidente que o Coronel morreria. Por vezes, vencera o sotrimento aquela dignidade que  tanto zelara: "Dizem que a gua mata, exclamava, dem-ma; quero 
morrer!" Caiu num estado de torpor e sonolncia e o corpo cobriu-se-lhe de manchas violceas. s  sete e meia fez supremo esforo; levantou-se do couro  em que estava 
deitado, apoiou-se sobre o capito Lago perguntou-lhe onde estava a coluna, repetindo ainda que a salvara. Depois, voltando os olhos, j vidrados, para o seu ordenana, 
exclamou em tom de comando: "Salvador! d-me a espada e o revlver". Procurou afivelar o talim e exatamente nesta ocasto deixou-se rolar no cho murmurando: "Faam 
seguir as foras, que vou descansar". E assim expirou.

A alguns passos dali, numa barraca a todos os ventos aberta, achava-se o tenente-coronel Juvncio. Recobrara um fio de voz e livrara-se da horrvel tortura das caimbras, 
queixando-se, todavia, de forte dor no fgado. O tenente Cato, a quem do melhor modo auxilivamos fazia-Ihe continuamente aplicaes novas, que, contudo no o aliviavam. 
Tinha, constantemente, os nossos nomes nos lbios para nos recomendar a famlia. Ao meio-dia acalmou-se, caiu numa letargia entrecortada de sobressaltos, e, s trs 
horas, expirou depois de nos entregar, para a mulher e os filhos, uma bolsinha de couro contendo algumas economias de campanha.

Numa cova aberta, sob grande rvore, no meio da mata, enterrou-se o Coronel com o seu uniforme e insgnias. Em outra cova, imediata, e  direita, foi o corpo do 
tenente-coronel Juvncio colocado pelos seus companheiros da comisso de engenheiros e alguns oficiais do corpo de artilharia. Jamais se nos varrer da memria esta 
lgubre cerimnia a que a escurido da noite e da mata ainda mais soturna tornavam. Eram quase sete horas quando de l voltamos. Descansam os nossos infelizes chefes 
 esquerda do Miranda, a alguma distancia da entrada do bosque e em altura correspondente a estncia do Jardim,  margem direita. Se lhes no profanaram os tmulos 
 de esperar que, um dia ou outro alguma cruz de material duradouro, com uma inscriao, aponte  memria dos brasileiros o lugar que recebeu os despojos destas nobres 
vtimas do dever (1)

Providncias sabiamente combinadas seguiram de perto a morte do coronel Camiso. Cumpria no surgisse alguma rivalidade que mantivesse a autoridade incerta. Fora, 
era certo, j prejulgada a questo dos postos em comisso, por dois ofcios do Ministro da Guerra, datados do ano anterior. Neles declarara o governo no ter aprovado 
que o tenente-coronel em comisso, Enias Galvo, simples tenente nos quadros do exrcito, comandasse, como chefe interino de uma brigada, oficiais mais antigos 
que ele e at capites. O posto efetivo na primeira linha era evidentemente, pois, uma condio de preferncia e o mais antigo capito, de todo o corpo expedicionrio, 
vinha a ser Jos Toms Gonalves, alis major em comisso. Parecia assim o nico que, de acordo com as instrues ministeriais, estava nos casos de suceder ao tenente-coronel 
Juvncio, substituto legal do coronel Camiso, mas que tambm desaparecera.

Para evitar qualquer dissdio na eleio foram os tenentes Napoleo Freire e Marques da Cruz, a pedido de todos, ter com o tenente-coronel, em comisso, Enias, 
convencendo-o da convenincia que, nas nossas circunstncias havia, para se evitar maior demora, de alegar ele molstia que o forasse a passar a outro oficial, 
momentaneamente, o comando do seu batalho. A boa vontade com que abriu mo de pretenses, pelo menos especiosas, que nos poderiam ter criado embaraos, valeu-lhe 
a bem merecida gratido de todos os camaradas. Reuniu-se, ao meio-dia, o conselho dos comandantes. Sem o menor preambulo, para firmar os seus direitos, e com este 
tom de confiana que subjuga, este ar de superioridade indiscutida, a que se prestava a sua fisionomia vivaz e inteligente, anunciou o major Jos Toms Gonalves 
a morte do coronel Camiso e a do tenente-coronel Juvncio, seu imediato legal. Da lhe resultara a obrigao de assumir o comando, como o capito mais graduado 
em antiguidade. Nada lhe foi objetado. Deu-se parte da molstia do Tenente-coronel em comisso, Enias, assim como se notificou a entrega do comando do seu corpo 
a seu imediato: o major em comisso Jose Maria Borges.

Esta transmisso de poderes, regulada pela razo e o direito, e habilmente subtraida ao jogo das paixes que podiam despertar, obteve completa sano na aprovao 
de todo o corpo do exrcito.

Havia, neste nterim, baixado o rio, j oferecendo contnuo vau, embora muito difcil ainda, devido  rapidez das guas. Teve o novo comandante a idia de assegurar 
a comunicao de uma para outra margem por meio de cabo fortemente amarrado s rvores de ambas as barrancas.

Desde o momento em que funcionou este vaivm chegaram as laranjas, copiosamente. Teve a sua abundancia este primeiro efeito de distender estmagos desde muito vazios. 
Eram, por vezes, devoradas com casca e tudo, no ardor da fome e da sede que nos consumia. Sua maturidade e doura convidava-nos, alis, ao abuso, mas os princplos 
medicinais que residem na essncia da casca agiram mais eficazmente ainda: diminuiu a epidemia, e quase cessou. Haveria nisto mera coincidncia? J Lopes, contudo, 
nos predissera esta melhoria do estado geral. Certo  que foram colricos vistos - a mor parte dos quais se curaram - passar longas horas a devorar montes de laranjas 
de que mal deixavam alguns restos.

Ainda neste dia vimos chegar ao acampamento, quase nu, e semelhante a um cadver, um dos desvalidos abandonados de 26, que, no prprio excesso do terror encontrara 
restos de vitalidade que o salvaram. Caminhara de noite arrastando-se pelos mais espessos cerrados, e seguindo-nos as pegadas. Nem sempre conseguira contudo, evitar 
os paraguaios, que, vendo o estado em que o pusera a molstia, se contentavam por divertimento com o moerem de pancadas. Como lhes pedisse que o no matassem respondiam: 
"No matamos defuntos, queremos  o teu comandante". E atiravam o msero ao solo com o conto das lanas Assim pde o pobre homem voltar ao nosso grmio, aps sofrimento 
a que poucos organismos teriam podido resistir (2)


________________
(1) Fez o governo brasileiro, alguns anos mais tarde, erigir modesto padro sobre os tmulos dos dois comandantes do corpo de exrcito reirante. Nos ltimos anos 
foram estas sepulturas restauradas por ordem do General  Alfredo Malan dAngrogne, comandante da regio militar mato-grossense.
Vd. A este respeito as pginas patriticas dos Heris Esquecidos deste eminente oficial-general e as no menos vibrantes e comovidas do Dr. Marmando de Arruda Pereira 
em Heris Abandonados.
(2) Ao ento cabo do 17  de Voluntrios da Ptria Calixto de Andrade Medeiros, hoje um dos trs sotreviventes da Retirada, parecem referir-se os tpicos acima.Foi 
este abandonado como colrico e conseguiu reincorporar-se  coluna retirante. Em 1919 publicou-se uma narrativa de seus sofrimentos e aventuras recolhida pelo Dr. 
Godofredo Rangel. Neste relato h algumas divergncias da verso consignada nesta obra. Talvez alis se refira o Autor a um outro colrico tambm escapo aos paraguaios.



CAPTULO XIX

Renasce a confiana. Restabelece-se a disciplina. Passagem do Miranda. Os canhes. Ainda o inimigo. Tomamos-lhe alguns bois que oferecem timo recurso. Marcha forada. 
Vencemos sete lguas! Canind. 

Apenas assumiu o comando, publicou o major Jos Toms Gonalves uma ordem do dia em que, apelando para a coragem e os sentimentos de honra individuais para conjurar 
o perigo geral, assinalava, como nica tbua de talvao, a marcha rpida sobre Nioac, a todo o transe. Imprimiu o tom vivaz desta proclamao um frmito de excitao 
moral til para a restauraao de um estado sanitrio que, dia a dia. melhorava, e fazer seguir ao abatimento dos espritos as felizes disposies ardorosas do novo 
chefe. Recomeando os clarins a dar os toques de ordem, s horas fixas tocaram a recolher. J havia alguns dias que no os ouvamos mais; e um nico corneta do quartel-general, 
tristemente, indicava a sucessso das horas. Mas o que, sobretudo, causou viva e agradvel surpresa foi, da outra margem do rio, escutarmos as cornetas do nosso corpo 
de caadores, que nos davam o troco. Velava, pois, ainda, sobre ns, a regra militar; cessara o isolamento. A distribuio de nossas foras parecia t-las dobrado, 
por toda a parte, restabelecendo a confiana e o prestgio da disciplina 

Desperta sempre uma mudana de chefe a atenao geral e poderosamente a agita,  espera da primeira manifestao sensvel. O que no dissera a ordem do dia do novo 
comandante exprimiram-no os atos. Tornara-se Jos Toms Gonalves a personificao da ordem e era o seu rgo. Fez sentir-lhe a fora a alguns recalcitrantes que 
ousavam tentar desobedecer-lhe. Foi a represso rpida, o que para as turbas constitui o sinal da legitimidade do poder.

Estvamos a 30; fora dada a ordem de se transpor o rio e tudo se determinara previamente. Regularizou-se o vaivem j colocado. Soldados que, isoladamente, haviam 
passado sem autorizao foram chamados da outra margem e reincorporados s unidades a que pertenciam aps severa admoestao por esta falta que, em campanha, e diante 
do inimigo, facilmente se transmuta em crime contra a segurana geral. Um sargento que, nesta ocasIao, faltara ao dever foi imediatamente rebaixado.

Bastou este ato de firmeza para reparar os males que os quatro dias de molstia do comandante haviam causado a disciplina. Fizera o coronel Camiso o mximo empenho 
em a manter; mas ele no dispunha, como o sucessor, nosso novo chefe, do dom de tornar fcil e agradvel o cumprimento do dever, graas aos modos afveis; e embora 
estimado e respeitado pelas tropas que nele viam um militar leal, vigilante, dedicado aos interesses da justia e da humanidade, como o gnio concentrado lhe desse 
um aspecto habitualmente sofredor acabara como por incutir que, com efeito, a desgraa sobre ele adejava, coisa que ele prprio parecia recear. Nada h mais funesto 
ao crdito da autoridade: seja este o nosso ltimo conceito sobre to atribulada existncia.

Quando, ao sinal convencionado, comeou a passagem que, como j dissemos, fora determinada, tivemos sob os olhos um espetculo que nada tinha de desinteressante.

J se verificara, por meio de bons nadadores, a fora de resistncia do cabo, sob pesos assaz considerveis. Agora, homens, em nmero sempre crescente, mas calculado, 
dele se suspendiam mudando as mos, enquanto os corpos, completamente estirados pela velocidade da gua  superfcie, avanavam de empuxo em empuxo acabando, no 
sem esforo nem perigo, por atingir a margem oposta. Assim passou todo o 20. batalho.

Depois dele vimos colricos tentar vencer o passo, e consegui-lo no somente, como at ainda da prova se sairem alguns completamente curados.

Alguns houve tambm que se afogaram; procurvamos no comeo, por meio de boas palavras, convenc-los a que esperassem; mas como tivessem presenciado o abandono dos 
enfermos, ainda to recente, no lhes saia da mente a previso de igual destino. No houve consideraao que os levasse a aceitar manterem-se  retaguarda. Teria 
sido preciso empregar a fora para os conter; fra prudente e justo deix-los correr os riscos de um acaso cujos perigos queriam afrontar como se alguma merc implorassem. 

Neste nterim haviam armas e cartuchame sido transportados, em pelota, com alguns enfermos quase agonizantes, a quem este favor no pudera ser recusado, no estado 
de agitao convulsiva em que os punha a rapidez dos nossos preparativos e, principalmente, a partida de outros colricos que tinham tido foras para passar pelo 
cabo.

Achando o comandante que j havia bastante gente do outro lado do rio, resolveu que, no dia seguinte, se transportassem as nossas quatro peas de artilharia. No 
meio de todas as nossas calamidades haviam-se elas constitudo em motivo de viva inquietao. Abandon-las como trofus ao inimigo era inadmissvel. J outrora, 
em conselho de guerra, deliberara o coronel Camiso a seu respeito, da resultando uma ata autorizando o comandante a faz-las, em caso de premente necessidade, 
desaparecer no leito de algum caudal,  maior profundidade possvel, de modo que se pudesse sempre, mais tarde, ir busc-las, acaso por elas se interessasse o sentimento 
nacional. Conhecamos os paraguaios, porm; que precaues poderiam ocultar-lhes tal depsito? De sobra sabiam o que tais armas lhes haviam custado para que elas 
pudessem escapar s pesquisas provaveis que no deixariam de fazer.

Fosse como fosse, ainda no nos havia sido imposto tal sacrifcio, era, sobretudo, para salvar os canhoes que o major Jos Toms Gonalves tivera a idla da instalao 
do cabo, e, tomado de legtimo entusiasmo, assistira ao seu feliz ensaio.

A 31, com a mais viva animao, puseram todos mos  obra; no houve quem se no prestasse, quer para trazer  ribanceira a primeira pea, quer para multiplicar 
os ns da amarrao em torno dos troncos de rvores da margem e os consolidar, quer ainda para a fixao das polias que deviam facilitar o transporte.

Moveu-se, afinal, a boca de fogo e quando puxada, de modo a escorregar ao longo do cabo, por diversas juntas de bois colocadas na ribanceira oposta, pareceu seguir 
regularmente, estrepitosas aclamaes ergueram-se, em ambas as margens, acompanhando-a at que saisse d'gua No meio da corrente tanto fizera o cabo bojar que lhe 
receramos o desaparecimento completo. Menos feliz foi a segunda pea: escapou de uma das alas, arrancou as demais e caiu no fundo do rio. Ponco faltou para que 
o cabo se no rompesse. Resistindo a to forte tenso e, de repente, liberto do peso que o sobrecarregava, fustigou a gua com enormes jactos de espuma, deixando, 
contudo, o canho no fundo d'gua. Felizmente, a nenhuma vida comprometeu o incidente que, em ambas as margens, provocou intensa agitao.

Um soldado, cujo nome merece ser recordado, Damsio, ofereceu-se imediatamente para mergulhar no ponto da imerso, e, tendo conseguido reconhecer o fundo, pde, 
aps duas ou trs imerses, para tomar flego, passar em torno da pea uma corda de que se provera e serviu para a puxar. Foi a lio aproveitada quanto aos cuidados 
tomados com a amarrao das demais bocas de fogo e apressou o resto da operao, permitindo completar a passagem  tarde daquele dia e na manh seguinte.

A primeiro de junho,  tarde, achamo-nos todos, afinal, reunidos em torno da casa de Lopes, no seu pomar por ns despojado dos frutos, e logo, sem mais repouso ou 
alimento, recomeamos a caminhar. O inimigo, que passara para a margem direita, lanou ento os seus atiradores contra a nossa retaguarda. Comandava-o o bizarro 
Pisaflores, que, com a costumada galhardia, no tardou em repelir este novo assalto; o nico inconveniente da resultante foi obrigar-nos a uma parada que nos deteve 
at a vinda da noite, que nesta estao chega cedo. Embora no tivesse havido contramandado algum, e apenas se interromposse a marcha, no foi sem alguma surpresa 
que, logo aps o toque de recolher costumeiro, ouvimos as cornetas dar o sinal da partida imediata. Tornou-se a impresso tanto mais viva e penosa quanto a escutido 
se tornara mais profunda, prenunciando-se prximo temporal e mais violento ainda. Cada qual, no entanto, compreendeu a necessidade urgente de transpor, custasse 
o que custasse, o espao que nos separava da vila de Nioac, quando o menor atraso de nossa parte podia causar-nos o aniquilamento total.

Recomeamos, pois, a marcha, indo  vanguarda o capito Jos Rufino, que conhecia bem o caminho. Por mais sombria e tempestuosa que estivesse a noite no nos ocultava 
a estrada que diante de ns se abria, larga e plana. Caminhvamos a passo dobrado. Restavam-nos poncos doentes, havendo vrios falecido nos dias antecedentes, e 
entre eles o alferes Muniz. No entanto os soldados que se revezavam em carregar as padiolas comeavam a murmurar ameaando desvencilhar-se da carga

Este princpio de insubordinao que tudo poderia arruinar, no teve, contudo, tempo para progredir. Avisado, caiu o comandante, a todo galope e de espada desembainhada, 
sobre os rebeldes, encontrando-os a implorar perdo.

Desde este momento reinou o silncio na coluna, em obediencia s ordens dadas. Subitamente, no meio da estrada, surgiu uma patrulha paraguaia, a quem o zunir do 
vento e o ribombo do trovo haviam encoberto qualquer suspeita de nossa aproximao; e, ainda, sem que os seus ces, a ladrar, ou o gado, a mugir, houvessem dado 
o alarma. Caminhando  frente da coluna, mandou nosso comandante que estacssemos e deu ordem que nos preparssemos a carregar  baioneta sobre o acampamento inimigo.

Mas j este a toda a pressa se retirava, deixando-nos o passo livre, nem tempo teve de reunir todo o gado que tangia; estremalharam-se alguns bois que apresamos; 
circunstancia para ns de inestimvel valor; era a prpria vida. Apesar da urgncia que nos impelia a avanar, no foi possvel recusar aos soldados o tempo necessrio 
para carnear algumas das reses apanhadas e comer um pouco da carne, s pressas assada.

Carregou-se o resto para as necessidades futuras. Atravessando o posto abandonado, tomaram os soldados o que ainda ali havia de vveres e at couros, que a penria 
de dias precedentes lhes fazia considerar como ltimo e precioso recurso contra a inanio.

Recomeando a caminhar acompanhou-nos a chuva ainda, sem que a nossa marcha por isto se atrasasse, embora, de tempos a tempos, nos vssemos forados a estacar  
espera da artilharia. Nos lugares piores retardava-se e, com ela, o batalho da retaguarda, encarregado de a escoltar. Da, freqentemente, resultava, para a nossa 
marcha, perturbao tanto maior quando as ordens eram transmitidas ao longo da coluna, por meio de agudos gritos, sujeitos a interpretaes diversas. Avanamos, 
apesar de tudo, at s quatro da madrugada. Dado, ento, o sinal de alto, estrompados, e quase sonmbulos deixamo-nos cair no cho enrolados nos ponchos encharcados 
como o capim e que nos servia de colcho.

Duas horas mais tarde, s seis, estvamos de p e graas ao que havamos ingerido, sentindo-nos mais fortes prosseguimos, sob um cu sereno e uma atmosfera tpida, 
a nossa intrmina caminhada para Nioac, por toda a parte percebendo, sobre a estrada, onde os paraguaios nos precediam, o rasto de seus cavalos.

Desde a ltima parada atravessvamos cerrado matagal, onde os soldados, j no mais temendo o ataque da cavalaria, marchavam com segurana, mais afastados uns dos 
outros. Sabamos que o campo raso s o veramos depois de Canind. Foi s duas da tarde que avistamos a mata desse nome, que  o do rio que a corta. A ele chegamos 
s trs, tendo vencido sete lguas, motivo de espanto geral, dada a fraqueza em que nos achvamos.

Ao atravessarmos o rio deparou-se-nos o cadver de um capataz de carretas, chamado Apolinrio, a quem os paraguaios acabavam de matar. Pertencia ao comboio daqueles 
mascates parados na Machorra,  espera de notcias e que, com os boatos dos combates de 8 e 9 de maio, segundo os quais passramos como perdidos, cuidaram de retroceder. 
Vinte dias tinham gasto para atingir o Canind, onde encontraram os boiadeiros que ali nos deviam entregar uma boiada, mas, antes de nossa chegada, haviam uns e 
outros cado s mos do inimigo.
__________
(1) Apolinrio Pereita de Sampaio chamava-se o carreteiro a que se refere o autor.


CAPTULO XX

Marcha sobre Nioac, que apenas dista duas lguas. O inimigo rodeia continuamente a coluna. O mascate italiano Saraco.

 vista do cadver estendido  margem do Canind, no tivemos mais dvida a respeito da perda do comboio todo, da morte dos mascates e o saque das provises que 
traziam, alm dos objetos que se propunham mercar por conta prpria. O que houvera sido necessrio fazer, fra chegar dois dias mais cedo ao Canind. Teramos, ento, 
encontrado e protegido estes viajantes desarmados, que regulavam sua marcha pela nossa e de quem dependera sempre grande parte do nosso abastecimento; enfim, e sobretudo, 
preservaramos de triste fado a vila de Nioac que, evidentemente, ia ser completamente arrasada. Tudo isto compensaria, bastante, um pouco de diligncia, se para 
tanto fssemos capazes.

A observao maligna que da decorreu, formulada a modo de acusao, como si sempre acontecer na adversidade, provocou entre os oficiais, naquele mesmo local, discusso 
bastante azeda. No foi, porm, difcil da deduzir-se uma justificao completa dos movimentos da coluna, desde que se soubera da chegada  Machorra do desastrado 
comboio.

Para apenas falar dos ltimos dias: acaso fora exeqvel mais rpida marcha? No estava de sobra provada a fadiga excessiva que ela nos valera? No devramos  obrigao 
de salvar os canhes, o atraso de dois dias, decorridos entre a morte do coronel Camiso e a partida da estncia do Jardim? E se quisssemos ir alm, at o momento 
em que preferramos o atalho proposto por Lopes, convinha no esquecer que, para tal escala, entre diversas vantagens, preponderara a considerao do interesse dos 
mercadores que era deles desviar o inimigo, atraindo-o sobre ns. Tomssemos a estrada batida para ir ao seu encontro, e proteg-los, como parecia plausvel, era 
mais que provvel houvssemos todos sucumbido, ns e eles, at o ltimo. Apanhando-os conosco no os teria a clera poupado menos do que a ns no itinerrio ento 
escolhido, fosse porque j lhes transportssemos o germe ou os paraguaios nos houvessem contaminado. Quanto aos contnuos ataques com que nos haviam atormentado, 
muito maior nmero de ensejos lhes teramos proporcionado se precisssemos atravessar tantos rios: o Feio, o Santo Antnio, o Desbarrancado. A o comboio mais nos 
estorvaria, pois no estaramos em condies de o defender.

Se algum erro se cometera, devia ser atribudo aos prprios mascates, quando ao passarem pela colnia de Miranda, tinham recusado ouvir os conselhos de Vieira de 
Resende, um deles, o mesmo que vramos figurar na tomada de Bela Vista. Propusera-lhes este homem, tenente da guarda nacional de Gois, nortear a marcha do combolo 
para a estncia do Jardim, a cinco lguas, apenas, da colnia. Ali tratariam de se emboscar na mata do rio,  espera de nossa coluna, que no podia deixar de l 
chegar. E com efeito sua marcha para o norte assinalava-a no horizonte a fumaa dos incndios que diante dela se renovavam sem conseguir det-la. Mesmo que se aventasse 
alguma hiptese funesta, as vinte e duas carretas de mercadorias teriam formado excelente entrincheiramento contra o embate, quando muito momentaneo, de um troo 
de cavalaria, pois que, alis, no podamos, de modo algum, tardar em vir libert-los. Debalde tentara Vieira Resende fazer ainda valer uma considerao decisiva, 
em relao a mercadores; acenara-lhes com o ensejo de venderem as mercadorias com belo lucro, exatamente no momento em que famintos iramos sair daquelas plancies 
devastadas pelo fogo. Nada pudera persuadi-los. O lado militar de tal projeto, muito de acordo com as tendncias aventurosas de quem o advogava - era esta a opinio 
geral - assustou aquela gente cujos sobressaltos cresciam na razo direta dos boatos de catstrofe que por toda a parte propalavam os nossos desertores. Persistiram 
na marcha para Nioac, pelo Canind. Ali os alcanaram os paraguaios e os dispersaram,  primeira descarga; depois, saqueadas as carretas, empenharam-se em lhes prender 
os retardatrios donos, atrapalhados como muitos deles estavam pelos objetos mais preciosos de suas cargas, que se no haviam disposto a abandonar. Inexoravelmente 
perseguidos fcil lhes fra, no entanto, graas a um pouco de firmeza, colocar-se sob a nossa salvaguarda.

Ao chegarmos ao Canind nada mais ali havia do que destroos de toda a espcie, juncando os dois lados da estrada alguns montes nauseosos de farinha e arroz, amalgamados 
pelas btegas de chuva, no meio das poas d'gua do solo.

Ningum jamais imaginara que este terrvel amontoado de gneros, quase irreconhecveis, pudesse ser a causa de sria coliso, quase de um motim. Tal, porm, o imprio 
do organismo debilitado, tais os reclamos dos estmagos desde muito privados de alimento, que os soldados nele procuravam repasto com a avidez das feras que devoram 
uma presa. Todos para ali quiseram precipitar-se; romperam-se as fileiras, num tumulto inexprimvel, no meio de um misto ensurdecedor de queixas, ameaas, vociferaes 
e risadas idiotas,  vista daquele pasto imundo onde cada qual pretendia saciar-se. Quiseram a principio os oficiais interpor a sua autoridade, vendo-se, porm, 
desrespeitados. Ento um deles, o tenente Benfica, injuriado por estes alucinados, atracou-se com um deles, derrubou-o e o dominou com o revlver.

A surpresa causada por este ato de energia comeou por conter a multido. Passado este primeiro momento apaziguara-se geralmente, quando sbito irrompeu o grito: 
o inimigo! Quer houvesse este sido realmente divisado, quer se tratasse de expediente empregado, graas a feliz inspirao, para que surgisse uma diverso, ficou 
o ascoroso repasto esquecido.

No teve esta desordem conseqncias. Fingiu o comandante ignor-la como provindo do excesso de nossas misrias e ativando, para um pouco mais longe, esta marcha, 
para a qual j se no tornavam suficientes as nossas foras, ordenou logo que fizssemos alto e tratssemos de acampar.

Foram as disposies tomadas pelo novo ajudante do Quartel-Mestre, tenente Cato Roxo, nomeado substituto do tenente-coronel Juvncio. Passara o capito Lago a exercer 
o cargo de assistente do ajudante general, o tenente Escragnolle Taunay o de secretrio-geral adido ao comando. Ficara o tenente Barbosa o nico representante da 
comisso de engenheiros recm-dissolvida.

Duas lguas, apenas, nos separavam de Nioac e o comandante, para avisar a nossa chegada, fez disparar, ao mesmo tempo, as nossas quatro peas, acompanhadas de um 
fogo rolante de todos os batalhes.
Nesta ocasio percebeu nossa gente a irregularidade do tiro pelo fato de que muito haviam as ltimas chuvas deteriorado o armamento. Assim, ps-se logo, e por si, 
a repar-lo e experiment-lo vrias vezes, a apostar quem atiraria melhor e mais depressa: luta improvisada que desvaneceu qualquer vestigio de torpor, chegando, 
aos ltimos clares do dia, a tomar festivo aspecto. A esperana de melhores dias est sempre pronta a renascer no corao dos homens.

Nova fase de existncia, realmente, como despontara; despertara a vida e o nosso horrvel passado da vspera, a fome, a morte, sob todos os aspectos j no nos apareciam 
mais seno como as alucinaes dum pesadelo.

No  que os pensamentos tristes no nos assaltassem mais, aps as realidades que presenciramos. Contssemos quantos agora ramos! quantos faltavam! Soavam os clarins 
e folgvamos em ouvi-los; mas que era feito das msicas de nossos batalhes? Companheiras das primeiras provaes da expedio nos pantanais de Miranda, ainda luzidas, 
ao invadirmos o solo paraguaio, no demorara que as dizimasse o fogo inimigo. Logo depois,  medida que as nossas fileiras rareavam, fora necessrio dentre elas 
recrutar soldados. Viera a clera acabar a obra destruidora, prostrando quatorze msicos dos que haviam pertencido ao batalho de voluntrios de Minas.

Rapidamente percorremos no dia seguinte a distancia at Nioac, observando com rigor a formatura adotada para atravessar os campos; e o inimigo que nos perseguia 
a retaguarda no ousou empreender nenhum ataque. Mostrou-se, pelo contrrio, muito afoito em bater em retirada, sempre que lhe aconteceu ficar ao nosso alcance.

Costevamos a margem esquerda do Nioac, e como estivessem a pastar uns bois de tiro, que os carreiros do comboio de mascates haviam abandonado, puseram-se alguns 
cavaleiros paraguaios a persegui-los. Uma companhia do nosso 21. e uma pea foram ento mandadas contra eles. Voltaram rdeas incontinenti e com tanta precipitao 
que provocaram o riso geral e as vaias de nossa gente.

Era o vau bom; e sem mais demora o atravessamos. A margem direita encontramos o rasto ainda fresco da passagem de muita cavalaria e grande quantidade de papis rasgados, 
livros, tales oficiais, sujos e dilacerados que evidentemente provinham do saque de alguma carreta brasileira, aprisionada naquele ponto pelo inimigo e destruda, 
ou por ele levada.

Algumas fumaas no horizonte ainda nos revelavam a presena do adversrio e, pelo conhecimento que da permanncia naquelas localidades obtivramos, supusemos que 
os paraguaios acabavam de incendiar uma espcie de aldeia, de palhoas, que ali havamos construdo. Fez-nos isto apressar o passo e ao primeiro relance reconhecemos 
que no nos enganramos.

As trs da tarde estvamos no meio dessas runas abrasadas que habitramos e a que deitamos ltimo e melanclico olhar; o soldado e o viajante interessam-se sempre 
pelos lugares onde repousaram.

Muito a propsito veio um incidente de pera-bufa distrair-nos desta impresso tristonha: a reapario daquele italiano que, j no acampamento da Laguna, nos divertira 
com as suas jogralidades. Contara-se, mas inexatamente, que morrera, com os outros mascates que, por assim dizer, haviam desertado das nossas fileiras ao atravessarmos 
o rio Miranda. Deles, habilmente se separara, vagara entre Canind e Nioac, sem noco do ponto para onde devia rumar, indo de moita em moita, a tremer de medo, no 
encontrando uma s que lhe inspirasse confiana. Acabara, no entanto, fazendo uma escolha e com tanta felicidade que, naquele mesmo dia. pudera do seu refgio ver 
o avano da nossa coluna. Fora-lhe a alegria to viva que, por pouco, lhe ia sendo funesta.

O vesturio estrambtico e a precipitao dos movimentos fizeram-no passar por paraguaio. Nossos atiradores da vanguarda sobre ele atiraram. Deixou-se, ento, cair 
como morto, na macega. Aps um lapso de prudente imobilidade comeou a levantar devagarinho, no ar, na ponta de uma varinha, o cachen; e depois, vendo que as balas 
no vinham, um brao, a cabea; e, afinal, o corpo todo, que no era seno o do nosso amigo e velho conhecido Saraco.

Reconhecendo-o imediatamente, encheram-no os soldados de abraos, cumprimentos e perguntas. Estava num estado de inexprimvel xtase, vendo-se escapo aos perigos 
onde crera deixar a vida, e de que se via salvo, e ainda barato,  custa da trouxa e de tantos momentos de pavor.

Quanto ao inimigo haveramos de nos avistar com ele apenas uma ltima vez, embora lhe tivssemos ainda que sofrer o efeito da prfida e cruel animosidade.


CAPTULO XXI

Nioac. Decepo; encontramos a vila saqueada, incendiada e quase destruda pelos paraguaios. Infernal ardil de guerra. Desaparece o inimigo, definitivamente. Regresso 
pacfico do corpo de exrcito. Ordem do dia sobre esta campanha de trinta e cinco dias.

O oficial encarregado da defesa de Nioac, durante a nossa incurso em territrio paraguaio, ausentara-se da vila, a 1. de junho, sem que ali se tivesse notcia 
da aproximao do inimigo, procedendo assim contra as ordens terminantes de 22 de maio que lhe impunham a defesa, a todo o transe, de um ponto que era a nossa base 
de operaes.

No  que os vveres lhe faltassem, longe disto, deixara-lhos abundantes o chefe da Intendncia. Dar-se-ia o caso que os seus comandados, seduzidos pela vizinhana 
do rio, e suas matas, houvessem desertado, um aps outro, at o largarem inteiramente s? Mas a estavam todos os oficiais do nosso corpo de exrcito concordes em 
atestar o esprito de submisso de nossos soldados aos chefes. Acaso se houvesse dado um "salve-se quem puder" geral no teria podido aquele comandante manter-se 
em observao pela vizinhana, onde tantos acidentes de um terreno florestado lhe podiam servir de abrigo,  espera de nossa chegada? Afastaria, assim, de si, a 
responsabilidade, no somente da enorme perda de material como do novo sacrifcio de vtimas humanas fruto de to funesto abandono. Faltou-lhe o nimo, desapareceu 
deixando ligado ao nome a reminiscncia de uma desero em frente ao inimigo...

Tanto mais sensvel e mais notada esta infidelidade quanto as demais providncias do coronel Camiso, no mesmo ofcio, haviam com exao sido observadas. As provises 
de guerra e de boca, o arquivo, o dinheiro da pagadoria, esperavam-nos nos Morros, para onde os transportara o Coronel Lima e Silva; enquanto ele prprio, de acordo 
com as instrues, estacado  margem do Aquidauana, providenciava no sentido de encaminhar em primeiro lugar tudo o que poderia preceder-nos, enfermos, mulheres, 
crianas, soldados desgarrados ou invlidos. Cuidadosamente ordenara, alis, aos condutores das carretas, que serviam para estes diversos transportes, voltassem 
sem demora, apenas desocupados, retendo ao mesmo tempo, ao seu lado, a maioria das viaturas carregadas de vveres, de que fizera um depsito volante, tendo em vista 
a nossa prxima chegada.

Assim abandonada passara Nioac a ser a presa dos paraguaios. Tudo haviam saqueado e queimado, salvo a igreja, poupada no por esprito religioso, mas, pelo contrrio, 
com o fito de a utilizarem num ardil infernal. Retirara-se a sua infantaria ante a nossa aproximao, entrincheirando-se no cemitrio. Seguira, ento, pela mata 
em direo a um vau do Orumbeva que a cavalaria reconhecera.

Sem preocupaes quanto ao inimigo, fomos a toda a pressa ver o que haveria ainda a salvar.

Esta bonita povoao, abandonada, ocupada e pela segunda vez, desde o incio da guerra, devastada, convertera-se num monto de destroos fumegantes. O grande galpo 
que, outrora, nos servira de armazm de mantimentos e ainda achamos de p, sobre os esteios incendiados, mostrava renques de sacos que nossa gente, sem dvida, no 
tivera tempo de carregar e j serviam de pasto ao incndio. O arroz e a farinha carbonizados, exteriormente; o sal, gnero este to escasso e precioso no interior 
do pas, negrejava e fundia sob as nossas vistas. No pouparam esforos os nossos soldados em salvar o que puderam.

Aqui e acol jaziam muitos cadveres, todos de brasileiros. Constatamos que muitos dentre estes infelizes mortos haviam servido em nossas fileiras. Desertando por 
ocasio do exacerbamento de nossas misrias, e morrendo de fome pelas matas, haviam se apressado, embora correndo o perigo de serem reconhecidos, em tomar parte 
no saque.

Fra um deles, de ps e mos amarrados, sangrado como um porco. Jazia outro, crivado de feridas, e uma velha, estirada a seu lado, de goela aberta e seios decepados, 
nadava no prprio sangue.

Foi quase toda a coluna acampar por esta noite atras da igreja, sobre o grande terrapleno que descrevemos e onde, escalonados com os canhes nos angulos, para maior 
segurana contra o inimigo, nos apoivamos  mata do rio. Ali gozamos, enfim, um pouco de verdadeiro descanso. Dupla e tripla rao se distribuiu; permitiam-no as 
circunstancias; sentia-se o comandante feliz por contentar os soldados, quanto possvel. Pela primeira vez, e desde muito, podamos contar com o dia de amanh. Restavam-nos, 
apenas, para nos pr fora de qualquer perigo eventual, fazer quinze lguas, a caminhar por excelente estrada, de Nioac ao Aquidauana onde ramos esperados. E para 
tal marcha tnhamos vveres sobejos.

Foi a noite calma, como tudo prenunciava dever suceder. Apenas amanheceu fizeram os soldados uma visita s runas da aldeia. Acabaram tomando tudo o que aos paraguaios 
escapara. Graas a esta sucesso de roubos desaparecera, em alguns meses, destas terras novas o pouco que o incipiente comrcio ali introduzira, como mecanismos 
e ferramenta, tudo, enfim, o que o trabalho conseguira juntar de frutos e poupana.

Durante a ltima estada em Nioac depositramos na igreja muitos e diversos objetos, o instrumental das bandas de msica, munies de guerra etc. Consta que os paraguaios 
encontraram ainda muita coisa deste apetrechamento, no lhes havendo chegado o tempo para tudo carregar. Existia ali grande reserva de cartuchos e foi, talvez, o 
que Ihes sugeriu a primeira idia da horrivel maquinao que tanto lhes condizia  feio cruel.

Depois de carregarem o que mais poderiam aproveitar, deixaram o resto por destruir, para nos engodar e nos reter o maior lapso de tempo possvel em torno de um amontoado 
de objetos, sob o qual colocaram um barril de plvora com rastilhos. No podamos ter a menor suspeita de semelhante cilada; e,  vista dos cartuchos que devamos 
transportar, tomamos as precaues costumeiras contra as eventualidades de uma exploso. Enquanto na igreja trabalhava o nosso pessoal sentinelas vigiavam, a fim 
de que nenhum fogo se acendesse pela vizinhana.

Ocorreu, contudo, que um infeliz soldado encontrasse pelo cho um isqueiro, dentro do edifcio, e lhe viesse a estapafrdia idia de o utilizar. Saltou logo uma 
fasca sobre alguns gros de plvora dos que coalhavam a nave. Sem a umidade do solo, ento muito grande ou acaso fossem os rastilhos contnuos, instantanea ocorreria 
a exploso. Para melhor nos enganarem haviam os paraguaios espalhado a plvora sbria e desigualmente com o minucioso cuidado, e os clculos ardilosos do selvagem 
que preparara os seus malefcios. S se viu, a princpio brilharem pequenas chamas e aqui e acol se levantarem sucessivamente ligeiras espirais de fumaa. J os 
soldados se precipitavam para conter o fogo, no momento em que ele tomava corpo, quando os oficiais presentes, compreendendo melhor o perigo, ordenaram que imediatamente 
fosse a igreja evacuada. A esta voz correram todos, em massa, para as portas; como o atropelo perturbasse a sada, deu-se a exploso antes que toda a gente se achasse 
do lado de fora. Pouco faltou para que todo o edificio voasse aos ares; foram as paredes sacudidas, mas o conjunto resistiu; assim no sucedera e teriam todos os 
nossos, que ali se achavam, infalivelmente perecido esmagados sob os escombros.

Terrveis de se ouvir e sentir, at no ponto distante em que nos achvamos com o comandante, foram o estampido e o abalo. Grande grito acompanhou a exploso seguida 
de silncio, depois novo e horrivel clamor e ainda pausa. Soaram os clarins; julgando todos que era o inimigo, os corpos entraram em formatura. J nos precipitramos 
para a igreja; dela saam, dentre turbilhes de fumo, irreconhecveis formas, fantasmas enegrecidos e avermelhados pelo fogo. Ardiam uns com as roupas em chamas, 
outros completamente nus e cuja pele pendia em frangalhos, soltavam urros; alguns ainda rodopiando como alucinados j se debatiam nas angstias da agonia. Perdera 
um soldado negro toda a epiderme do rosto, arrancada como uma mscara. Era-lhe o corpo sangrenta chaga. Um sargento, cujas carnes se achavam inteiramente desnudadas, 
implorava, por misericrdia, que o acabassem com uma bala ou um pontao. Morreram ali mesmo, no local, uns quinze desventurados.

Todos aqueles a quem podia a arte valer, ou para lhes diminuir o sofrimento ou para os salvar, passaram a ser o objeto do desvelo dos mdicos e das nossas preocupaes. 
A nossa compaixo para com eles acrescia a indignao contra os autores deste cruel atentado; no houve depois dentre as vtimas arrebatadas  morte nenhuma cuja 
cura no saudssemos como verdadeira felicidade geral.

Foi o adeus dos paraguaios, a ltima demonstrao de seu dio contra ns. Sem nos abandonar de todo, porfiavam, contudo, em s se deixar entrever fora de alcance.

A 5, entretanto, ao radar do dia, samos da infeliz e bela Nioac, afinal, aniquilada com a sue igreja. Seguamos a estrada do Aquidauna e marchvamos penalizados 
sob a impresso do funesto sucesso da vspera.

A todas as vicissitudes atravessadas viera ajuntar-se a angstia da vspera. J era muito porm, era legtimo triunfo estarmos de p e ter dominado um inimigo to 
perfidamente encarniado em nos arruinar.

Foi o Orumbeva facilmente transposto.  margem direita paraguaios acabavam de queimar, muitos vveres e objetos de apretrechamento espalhados e todos sujos de terra 
como j na barranca do Canind encontrramos; cadernos dilacerados, folhas soltas ao vento, notas, entre as quais o autor desta narrativa reconheceu a prpria letra, 
e agora truncadas e inteis.

 alguma distancia deste caudal aguardava-nos, tal a primeira impresso, nova cilada, cujos efeitos foram, contudo, muito diversos de um desfecho trgico. Duas pipas, 
daquelas em que se conserva a aguardente de cana, ocupavam o meio da estrada. Lembrando-se da exploso da igreja e temendo algum novo estratagema, da parte de um 
inimigo que nenhum escrpulo parecia poder conter, apressou-se o capito Pedro Jos Rufino e precipitando-se sobre os tonis arrombou-os com os copos da espada.

A vista do liquido, que a jorros corria, alguns soldados no podendo conter-se, ajoelharam-se ou deitaram-se de bruos, para alcanar o seu quinho, espetculo acolhido 
pelas gargalhadas, que se generalizaram em toda a linha.

No teve o incidente outras conseqncias: pacificamente continuamos a marcha at o ribeiro da Formiga, perto do qual acampamos, ainda contemplados nesta nova fase 
de abundancia pelo encontro de bom nmero de bois, em timas condies.

A 6 rumamos para nordeste, seguindo grande caminho a que numerosas moitas de taquaruus do o nome e aberto atravs da mata cerrada, que tanto se presta a surpresas. 
Nada, porm, ali, nos sobressaltou a marcha.

A medida que percorramos estes terrenos a ns familiares e aos paraguaios menos conhecidos, cada vez mais frouxa e inofensiva se tornava a perseguio, embora no 
houvesse inteiramente cessado. Fizemos neste dia ponto, junto a um lindo ribeiro chamado das Areias. No dia seguinte, 7, quase vencemos as quatro lguas que medeiam 
deste ponto ao rio Taquaruu. Atingimo-lo a 8 e, como a altura das guas no nos permitisse vade-lo, acampamos  sua margem.

Noite para ns memorvel, esta! Foi a que os paraguaios, avistados a alguma distancia, se decidiram, enfim, a desaparecer. Deles prprios partiu o aviso da retirada, 
com uma fanfarra prolongada de clarins que tal sinal deu, mais lisonjeiro a ns outros de que a eles. No se fizeram nossas cornetas rogadas, alis, em associar-se 
queles toques com um estrpito a cujos ecos estremeceram longamente aquelas solides. Soubemos, alguns dias mais tarde, que se haviam dirigido para Nioac, e, depois 
de recolhidas todas as suas patrulhas, pelo Apa regressado ao territrio de sua repblica.

Quanto a ns, cada vez mais bem providos de vveres, graas a um rebanho enviado das margens do Aquidauana, depois de um ofcio do nosso chefe, ao coronel Lima e 
Silva, transpusemos, a 9, o Taquaruu e, a 10, duas lguas adiante, um rio chamado Dois Crregos. A 11 (1) chegamos ao porto do Canuto  margem esquerda do Aquidauana. 
Tal o ltimo trecho de nossa penosa retirada. Ali findou o doloroso itinerrio que, como expiao de nossas temeridades, nos fizera curtir tantas misrias quantas 
pode o homem suportar sem sucumbir. No Canuto nos despojamos dos miserveis andrajos que nos cobriam, libertando-nos, afinal, da mais horrvel~sevandiia e dos parasitos 
do campo, que, perfurando a pele, nela produzem dolorosas lceras. Oferecia-nos o rio magnfico ensejo para as nossas todas estas paragens podem ser chamadas: a 
terra das guas belas.

A 12 de junho baixou uma ordem do dia do nosso valente chefe Jos Toms Gonalves, em poucas palavras resumindo os acontecimentos desta terrvel campanha de cinco 
dias: "A retirada, soldados, que acabais de efetuar, fez-se em boa ordem, ainda que no meio das circunstncias as mais dificeis. Sem cavalaria contra o inimigo audaz 
que a possuia formidvel, em campos onde o incndio da macega, continuamente aceso, ameaava devorar-vos e vos disputava o ar respirvel, extenuados pela fome, dizimados 
pela clera que vos roubou em dois dias o vosso comandante, o seu substituto e ambos os vossos guias, todos estes males, todos estes desastre vs os suportastes 
numa inverso de estaes sem exemplo, debaixo de chuvas torrenciais, no meio de tormentas de imensas inundaes, em tal desorganizaao da natureza que parecia contra 
vs conspirar. Soldados! honra  vossa constancia, que conservou ao Imprio os nossos canhes e as nossas bandeiras!" (2),

(1') No dia da invasao do territrio paragualo, Isto 6, em abril de 1867, era efetivo da coluna de 1680 soldados. A 11 de junho reduzira-se a 700 combatentes . Perdramos 
pois 908 soldados pela clera e o fogo. Morrera alm disto grande nmero de ndios, mulheres e homens negociantes ou camaradas que haviam acompanhado a marcha agressiva 
do nosso corpo.


Visconde de Taunay         4


A Retirada da Laguna        5
